27.6.06
A rádio é uma maçã
Curiosamente, além de uma tentação acaba por ser um bicho, um doce bichinho que tenho vindo a satisfazer com certa regularidade nos últimos tempos, em colaborações com Bruno Gonçalves Pereira - num programa onde se aliam as ideias e os conhecimentos da modernidade com as apetências pela comunicação.
Neste blogue discute-se o futuro da música e de todos os aspectos laterais, mas, essenciais para o seu mundo. A rádio sempre esteve ligada à divulgação de música e, ao contrário da televisão, quem fala de rádio acaba por lembrar-se de música e quem fala de música não pode ignorar a importância da rádio na sua promoção. É uma pescadinha de rabo-na-boca que viveu uma quente relação durante décadas. Não nos podemos é esquecer que já existia música antes de existirem rádios e que a música não vai terminar no dia em que as rádios claudiquem.
Concordo que uma rádio queira passar temas de sucesso. Já não consigo é compreender a razão pela qual o peso das vendas da música portuguesa é superior à percentagem de música portuguesa emitida. Por exemplo, na lista dos 30 discos mais vendidos em 2004 contavam-se os trabalhos de Da Weasel (3º), de Rui Veloso (9º) e de Mariza, sem que nenhum deles constasse da lista de temas mais escutados nas rádios nacionais nesse ano. Se o público compra mesmo sem a rádio promover porque razão a rádio não divulga o que os portugueses que escutam rádio compram? Ou será o grupo de portugueses que escuta rádio completamente diferente do que compra discos!? Depois de assistir ao escândalo futeboleiro do ano - “caso Mateus” - representado por ilustres juízes deste país, estou preparado para acreditar em tudo!
E porque estou hoje a falar de rádio em vez de exprimir a minha opinião acerca do jogo Portugal - Holanda? Podia dizer que não queria perder a oportunidade de explorar chão que já deu uvas após o meu último post ter atingido 69 comentários. Ou que mantive conversas paralelas com algumas pessoas ligadas à indústria, à rádio e à música. Ou que…
Porém, a verdade é que a crónica de hoje existe porque li um texto de Jorge Guimarães Silva – aconselho vivamente a sua leitura – em que se conclui que a rádio perdeu mais de 300 mil ouvintes comparando o 1º trimestre de 2005 com o deste ano.
Ora, estes números parecem mostrar que existe alguma coisa de errado. Se o actual modelo de rádio é bom como é possível uma quebra destas? Compreendo que os patrões das rádios não queiram mudar o formato nem passar músicas por decreto, contudo, se mesmo passando a música que os seus consultores indicam, feitos “científicos” estudos e mantendo determinado modelo de emissão, a rádio perde 300 mil ouvintes num ano por algum motivo será. As rádios parecem encontrar-se numa encruzilhada e quem as dirige tem optado por sinuosos caminhos nos cruzamentos com que se tem deparado ao longo das últimas 2 décadas.
O poder da rádio centrava-se, muito, imenso, na novidade, na mobilidade, na formação que realizava junto do auditório e na capacidade inata dos seus comunicadores - esmagadoramente constituídos por pessoas cultas, bem informadas, irrequietas, inquietas e inquietadas.
Poderia afirmar que a televisão matou a rádio, no sentido da rádio ter sido preterida dentro de casa, mas seria um equívoco. A televisão somente esmagou as manhãs da rádio quando os programas foram perdendo força e dinâmica. Quando os comunicadores foram sendo substituídos por gente com vozes jeitosas e, na sua maioria, com fraca capacidade e conhecimentos.
A televisão não esmagou a rádio. Foi a rádio que saiu do ringue de combate apostando em locutores, em estudos “científicos”, na normalização de listas de discos pedidos, terminando, em alguns casos, com a componente desportiva, esvaziando redacções com tarimba, despedindo jornalistas e contratando estagiários quase de borla.
Em simultâneo com a perda, em todos os horários, dos ouvintes “caseiros” - e o mais bizarro é que até os célebres e espantosos programas das madrugadas desapareceram sem deixar rasto -, a rádio acabou por apontar baterias aos ouvintes condutores. Nessa fase, uma rádio de música era mais atraente para os automobilistas do que uma cassete BASF de ferro com 60 ou 90 minutos de duração. Pudera, não era de admirar, leitores de CD's nos carros eram poucos e caros.
Um dos problemas é que estando a rádio barricada ao público que viaja de carro e com fraco sentido de novidade e de comunicação, caminha, inevitavelmente, para um beco sem saída.
Hoje em dia, já existem instalados, nos automóveis, leitores de CD's compatíveis com mp3, já existem leitores de DVD com respectivo ecrã, já existem diversos dispositivos móveis e não falta muito para que se sintonizem (nos nossos carrinhos) “rádios virtuais” através da internet. A vantagem da rádio, para quem conduz, vai passar a resumir-se à informação do trânsito? Será?
Não creio. Com o GPS, com o acesso à internet e com todos os serviços que o futuro próximo nos vai dar, vai ser mais fácil ver (literalmente) o estado do trânsito on-line.
Aliás, basta uma visita a alguns sites para já hoje sabermos como está o trânsito em zonas normalmente complicadas.
O cenário que tracei é pessimista? Talvez. Não obstante, acredito que as pessoas vão querer voltar a escutar rádio caso regressem a novidade, o arrojo, a comunicação, os programas de autor e a qualidade.
Com esses condimentos, a rádio será sempre uma tentação.
Luís Silva do Ó
*Este texto foi elaborado tendo em mente as rádios generalistas top de audiências. Outras rádios começam a dar sinais tímidos de mudança e as rádios do grupo RDP têm vindo a realizar um interessante percurso.
21.6.06
Vale a pena Portugal?
Este não é um tema novo para toda uma plataforma que discutiu profundamente o assunto e da qual fiz parte.
Apesar de alguns interesses não assumidos e lobizados nem a Rádio nem os homens da Rádio, são meus-nossos inimigos.
Considero-me sim inimigo duma puta duma mentalidade preguiçosa e estúpida que domina Portugal uns dias após o seu nascimento.
Humildemente acredito que a questão passa por inverter os hábitos e costumes de consumo.
Mas.... isso seria a inversão de Portugal, torná-lo menos periférico, mais orgulhoso da sua língua, numa espécie de reencaminhamento da bandeira à janela para uma elevação e evolução cultural.
Utópico que sou...
Uma espécie de Espanha, País traumático para nós, mas inviável de tanta inveja sofrermos.
Imaginem um Portugal onde se ouvisse o mais possível de tudo o que fosse produto nacional.
Onde se consumisse em todos os formatos, todo o tipo de musica de todas as áreas...
Acreditam nisso????
Portugal só é um País de vez em quando, porque tem comportamentos bizarros que se assemelham a grupos de nómadas à procura de um sítio para acampar.
Por isso estou orgulhoso de fazer parte de um grupo de pessoas inconformadas, que tentam inverter a situação, criando um processo lento de mudança que só daqui a muitos anos terá resultados efectivos.
Acredito que os novos projectos terão nessa altura visibilidade e...
Portugal valerá a pena.
João Gil
19.6.06
David Ferreira reage a "Música sem lei"
David Ferreira – Administrador da EMI Music Portugal
7.6.06
Música sem lei
Longe de duvidar das boas intenções da Lei 7/2006 e relembrando que sempre defendi uma quota mínima de cerca de 20%, mas uma quota natural, de bom senso, vou até falar mais do que este diploma não vai trazer, na perspectiva, naturalmente, de quem gosta de uma boa dose de música portuguesa e está do lado de cá da telefonia.
Já na crónica “Confederação de Almas”, publicada aqui no Canal, de 13 de Março falei de alguns aspectos, na secção “Rádio Arapuca”, avançado algumas ideias do então projecto-lei e alertando para uma série de efeitos secundários que traz e, infelizmente, se confirmam.
A Lei é bem intencionada, tem como propósito defender a música portuguesa. Mais para proteger e continuar a divulgar, para não dizer “só”, os músicos ditos main stream , ou seja, os artistas mais comerciais, não os outros, porque a Lei não obriga – nem poderia obrigar - a rádio a passar esta ou aquela banda ou cantor.
É aqui que se aplica o que – nas rádios que têm algumas posses para poderem fazer caros estudos científicos – tivemos em tempo o privilégio (?) de ter acesso. É mais do que comprovadamente verdade, todos os estudos sem excepção dizem que os portugueses apenas têm disponibilidade para ouvir 17% de música portuguesa. É pouco. Vi pessoalmente o top da FNAC de Madrid, há três semanas atrás, existem três ou quatro discos estrangeiros, mais de metade são espanhóis.
Agora poderíamos ir para as eventuais justificações do costume, a mais fácil, dizer – ainda que sem grande convicção – que a rádio é que tem a culpa, só passa “coisas” estrangeiras e por isso as pessoas nos testes de auditório e nas compras só vão para o que não é nosso. Essa influência não é tão relevante assim, basta pensar que muitos discos novos, tocam nas rádios, com uma frequência razoável e vendem pouco, enquanto outros, quase sem passagem no éter, têm vendas consideráveis atendendo ao nosso pequeno mercado, não passando quer nos testes de música correntes de refrões de canções, nem sendo aposta das estações. Acompanho esta realidade de muito perto faz quase uma década e só no início me causou estranheza, de alguns tempos a esta parte vi que, tal como me acontece a mim, muitos ouvintes de música têm a música que gostam de ouvir em casa, na aparelhagem, no cd do carro, e outra que esperam encontrar no meio de uma sequência da sua rádio de sempre, ou de agora.
Como ouvinte, a rádio perdeu um pouco do seu encanto, mas por saber dos seus segredos e truques. Ao mesmo tempo, fica-se mais liberto para daqui ter uma visão mais global do comportamento dos ouvintes enquanto tal. E o que é certo é que os ouvintes, mesmo comparando músicas dentro do mesmo género, preferem o main stream , querem cada vez mais o comercial em detrimento do alternativo ou nuance de nicho, o pop rock melódico e de ouvido mais ou menos fácil é o eleito.
Quando se aposta com insistência, numa rádio, num tema mais fugidio ao meio do espectro, ou português sem ser de um consagrado, apesar de rodar muito, a reacção do auditório é normalmente má. E no entanto, a música foi divulgada, tendo as pessoas oportunidade de conhecer e avaliar por si. Quer tal dizer que a música, ou é feita para o grande público, ou acaba por não vingar nas vendas e na própria rádio main stream que por sinal congrega cerca de 30% da audiência do país e comanda o mercado publicitário rádio, fazendo – para terem uma ideia – a definição do próprio preço de um spot, vulgo anúncio. As estações generalistas, com um pouco menos de 20% de audiência, têm uma palavra mais fraca no mercado a nível de quem paga a rádio, os anúncios, sendo que uma delas é directa e indirectamente financiada por todos nós.
Não são os músicos estrangeiros, nem os portugueses que pagam a rádio. Nem tão pouco as editoras, como sabemos. Se a telefonia não tiver audiência, não vende publicidade. E se a rádio passa mais música portuguesa do que aquela que as pessoas querem ouvir, os ouvintes mudam-se, ainda mais, para o cd, mp3, Ipod e afins. Se é certo que a rádio precisa da música, as editoras e os músicos têm na rádio uma aliada para a divulgação e ajuda, até certo ponto, na venda de discos. Por vezes, estarem uns e outros, de costas voltadas, só arrasta a crise.
A música que a rádio precisa é a do público-alvo de um canal em concreto, com todo o respeito pelos outros que não se inserem neste âmbito. Sabemos que não temos mercados para rádios de micro nichos, nem tão pouco de nichos, lembrem-se da XFM. A não ser que, as rádios passem a ser literalmente sustentadas por milionários melómanos que não se importem de perder dinheiro, pelas editoras, ou pelos músicos de grande cachet , um cenário ridículo, não é? Ou então passamos a ter rádios por assinatura.
Voltando à Lei
Uma pergunta ou duas. A rádio está, desde o dia 2 de Maio, sob vigência desta Lei 7/2006. Está a cumprir. Notam alguma diferença de relevo? Ou mais música dos mesmos portugueses, para variar?
O primeiro canal de rádio de serviço público toca mais de 60% de música portuguesa, que reporto de “qualidade” para os meus ouvidos. Como o consegue?
Porque é uma rádio generalista que roda desde fado moderno até ligeiros não brejeiros, pop comercial, baladas rock, um tema ou outro mais alternativo dos projectos que surjam minimamente consistentes. Não é necessário suar muito para chegar à óbvia conclusão de que uma Comercial, Rfm, Cidade e demais reflexos radiofónicos em pequena escala das principais, não o podem fazer, porque estão no seu posicionamento cingidas a determinados géneros de música. Existe relativamente pouca produção pop rock portuguesa aceitável para os padrões de qualidade de produção e gravação, técnica de execução e, muito importante, que seja do agrado dos ouvintes quando as rádios a dão a avaliar dentro ou fora do éter. E os ouvintes, são quem compra os produtos que a rádio vende, na publicidade. As rádios locais, não têm, por enquanto, uma forma de se unirem. Não ditam mercado, não só, mas sobretudo, porque as associações (?) que supostamente as representam estão mais interessadas em vender material técnico e em exibir vaidades que em dar força às suas associadas.
Para além da Lei.
Poderá um diploma que congrega uma mistura de várias vontades, neste caso as editoras, alguns músicos, teóricos da cultura e políticos, ser uma boa lei do ponto de vista sistemático, ser coerente? Ou será antes uma manta de retalhos que cobre uns e destapa os pés a outros? Ou ninguém fica coberto porque passa frio pelos remendos da manta?
Não estarão alguns a dizer nesta altura “conseguimos pôr aquilo na lei”, “os outros não puseram aquilo”. Uma lei não deve ser como fazer uma sopa, cortar os vegetais, ligar a picadora “1, 2, 3” e cozinhar, tem que ter princípio, fim, coerência, objectivo e visão integrada. E esta é uma água russa, melhor que passar fome, mas de escanzelados não passamos.
As rádios têm sido sempre as más da fita, dizem que foram chamadas, dizem que poucas ou nenhumas apareceram na Assembleia. Saberão melhor os que lá estiveram, o que não é o meu caso. Alguém iria com entusiasmo para a feitura de uma lei onde vão restringir a sua liberdade de dar aos ouvintes as suas músicas preferidas, mesmo que eles (e nós) para tristeza colectiva queiram ouvir apenas 17% de música portuguesa?
À margem da lei
As editoras, AFP e alguns músicos, tiveram de marcar uma posição com a chamada lei das quotas, compreende-se. Tal como se entende o ataque à pirataria, ainda que sem as necessárias distinções entre o tráfico de música e o vulgo p2p, com baixa definição de som, servindo, na maior parte dos casos para pesquisa, antes de comprar. Talvez tenha tido o efeito de assustar alguns, ainda bem, desde que tenham sido da “caça grossa”. Sou abertamente contra o tráfico de música ou outra matéria de criação intelectual, não vendo contudo qualquer problema na pesquisa de música e no acto de ouvir antes de comprar. Para quem trabalha na rádio acaba por ser necessária esta pesquisa, ainda que a maior parte das músicas estejam a 128 k (sem qualidade de difusão) na net. Estamos numa altura em que a promoção das editoras deixou de entregar até a simples cópia em capa de cartão do disco ao animador, quanto muito o playlister/programador/coordenador musical ou o que se queira chamar, recebe a tal cópia. Assim o animador deixou de ter contacto com o disco, de o poder ouvir pelo caminho ou em casa, ou na sala de preparação de programas. Às vezes dá-se o ridículo de as rádios terem de tirar da net a música para a poderem tocar, já se está a ver, na maior parte dos casos sem qualidade de difusão… só para não privar os ouvintes da música, ajudando directa ou indirectamente na difusão e consequente relativa venda dos álbuns.
A lei de mercado
Compreendo que não se possam vender discos com baixa tiragem, igual ou inferior a mil unidades, a menos de 10€ de preço final de capa. Mas têm-se visto recentemente, discos de bandas portuguesas novas a 22€, 20, 18… não deve ser por aí o caminho. Ou dos consagrados que fosse.
O argumento que diz que os discos não aumentaram de preço nos últimos anos, ao contrário dos outros bens culturais, para além de não corresponder à verdade técnica – aumentaram pouco é certo, mas deu para notar – traz em si uma falácia, não se podem tomar as partes pelo todo, de que serve pouco terem aumentado, quando continuamos a pagar os mais caros discos da Europa, a par de outros países, mas nos quais as circunstâncias e o poder de compra são bem diferentes?
Encontramos os mesmos discos, mais baratos em Inglaterra, Alemanha, França e por esse mundo fora. Espanha é excepção, os preços são iguais ou superiores aos nossos, mas o poder de compra é diferente e o resultado também está à vista, o mercado é grande, mas também tem tido perdas.
A lei programática
Acho que ninguém, no seu perfeito juízo, quererá que as editoras fechem os seus escritórios em Portugal, ou que passem a ser um escritório adjunto do escritório adjunto de Madrid ou que a nossa música não venda mais.
Quando se constatar que esta lei não vai alterar o panorama – uns demorarão mais tempo a reconhecer isso que outros – o que se vai fazer? Propor uma alteração para os 70%, tal como defende José Cid? Ser ainda mais ousado e propor a quase totalidade de música na rádio em português? Abstraindo, obviamente, do facto de não termos música nessa proporção para tocar que seja aceitável para as grandes massas!
Não seria melhor existirem horas / programas de divulgação “obrigatória”, já que teria de ser “obrigatória”… e de especiais aquando dos lançamentos, com reposição garantida (transmissão dupla ou tripla nos canais de rádio, em horários diversos)?
Sei que as editoras estão preocupadas com a nossa música, ainda bem, mas também salta à vista, que existe outra preocupação, e essa é com a perda de mercado de quarenta e tal porcento, nos lucros. E entende-se, as empresas existem para dar lucro, ainda que seja muito importante a função social de apoiar, produzir e lançar música portuguesa.
As iniciativas presentes são um começo, ainda que por caminhos nem sempre direitos, ou atingindo os alvos certos.
É do conhecimento público que um CD, a preços de há dois anos atrás, fica em edição normal num máximo de 80 cêntimos – para uma tiragem de 2000 exemplares – com gastos de gravação, produção, capa, promoção ligeira e impressões. Os discos saem das editoras a um preço muito razoável de oito euros. Depois, todos sabemos o que acontece, aparecem nas lojas de revenda a 17, 18, 20, 22€ e mais. Como tal, a culpa não é de nenhum preço exagerado por parte da editora, nem tão pouco de mais olhos que barriga dos músicos. E, já agora, também não é culpa das mulheres e homens da rádio, por sua exigência de quererem trabalhar com um bem caro, de luxo, o disco, até porque é mais o computador, para onde se grava o disco.
Não seria melhor as editoras venderem directamente ao público o disco novo a 10, 12 € e a 5, 7€ os com mais de um ano ou de fundo de catálogo? E se o disco fosse mais barato das duas primeiras semanas de lançamento e depois passasse a um preço intermédio, para premiar quem quer as novidades?
Quando deixa de ser, disparatadamente, para efeitos nacionais e de mercado, música nova aquela que tem até dois anos?
E que tal os revendedores passarem a ser “obrigados” por lei a colocar um pvp máximo de 12€?
E de as pessoas poderem fazer apenas um download em vez de 10 de mínimo, tal como é agora? E os downloads pagos (naturalmente), passarem a custar, por exemplo, 0,60 € em vez de 1€, como acontece? É que só os mais distraídos não raparam que o somatório de fazer download de 17 músicas de um álbum vai perfazer a bonita soma de 17€, tão caro quanto comprar o disco e ainda para mais sem capa, bolacha, caixa e livro. O preço dos downloads é um desincentivo à sua prática e, ao mesmo tempo, à manutenção por parte de mãos menos escrupulosas de downloads pesados ilegais.
Basta dar uma volta pela rede, CD GO, Amazon, Cash Converters, E-Bay ou ir à Carbono, para já se conseguirem preços, mesmo em novo, bons ou, ainda assim melhores, visto que os preços exagerados praticados pelas Fnacs e afins regem o mercado em alta. Até a Fnac francesa tem edições novas a 12€…
O IVA. Têm as editoras razão, temos nós consumidores razão, tal como os músicos. 21% de taxa para um bem cultural, que é o disco. Um disparate. Contudo, há que não esquecer que baixar 3€ a um disco (aproximadamente a diferença entre ele ter 5 ou 21% de IVA) ainda é pouco, o que tem de se pensar atirar para baixo é a margem de lucro dos revendedores. Estas duas deveriam ser as batalhas principais. A baixa do preço do disco não deve cair nos artistas e nas editoras que são quem trabalha, cria e promove a música. É na grande diferença entre o preço de saída da editora e o preço ao consumidor que tem de se trabalhar. Ainda que seja importante a Lei, pelo debate gerado, pelo que se fez e faz pensar, talvez para que os portugueses olhem a música portuguesa de outra forma e subam por ela a sua preferência para além dos frios 17%. É preciso mais. Ficaram muitas sugestões.
Entretanto, entre nós, discos continuam por vender, ou já não são editados por se saber de antemão que se não vão vender, carreiras ficam por prosseguir e muita conversa e poucos efeitos práticos.
E as iniciativas são assim, algo curtas de vista, quando se podia fazer muito mais.
A pergunta do Luís acerta no ponto. Mais música portuguesa?
Parece que nem por isso… as rádios já tocavam à volta de 15%.
10% mais não vai ser difícil de preencher informaticamente, com mais dos mesmos, cumprindo a Lei.
Era esta a lei que todos queríamos?
Bruno Gonçalves Pereira
31.5.06
As febras dos Trabalhadores
Para informações detalhadas clique aqui.
Entretanto, Sérgio Castro, vocalista e guitarrista do grupo, encontrou forças para ler os 56 comentários gerados pelo post acerca da nova Lei da Rádio e deixou a sua opinião numa linguagem directa e corrosiva. A não perder na secção de comentários do post abaixo...
22.5.06
Mais música portuguesa?
Considerando a importância desta Lei e a variada (des)informação que temos lido a este respeito deixamos aqui transcrita a Secção III referente à música portuguesa.
«SECÇÃO III
Música portuguesa
Artigo 44.º-A
Difusão de música portuguesa
1 - A programação musical dos serviços de programas de radiodifusão sonora é obrigatoriamente preenchida, em quota mínima variável entre 25% e 40%, com música portuguesa.
2 - Para os efeitos do presente artigo, consideram-se música portuguesa as composições musicais:
a) Que veiculem a língua portuguesa ou reflictam o património cultural português, inspirando-se, nomeadamente, nas suas tradições, ambientes ou sonoridades características, seja qual for a nacionalidade dos seus autores ou intérpretes; ou
b) Que, não veiculando a língua portuguesa por razões associadas à natureza dos géneros musicais praticados, representem uma contribuição para a cultura portuguesa.
Artigo 44.º-B
Serviço público
As quotas de música portuguesa no serviço público de radiodifusão sonora são fixadas no respectivo contrato de concessão, não devendo a percentagem de difusão no seu primeiro serviço de programas ser inferior a 60% da totalidade da música nele difundida.
Artigo 44.º-C
Música em língua portuguesa
A quota de música portuguesa fixada nos termos do n.º 1 do artigo 44.º-A deve ser preenchida, no mínimo, com 60% de música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados membros da União Europeia.
Artigo 44.º-D
Música recente
A quota de música portuguesa fixada nos termos do n.º 1 do artigo 44.º-A deve ser preenchida, no mínimo, com 35% de música cuja 1.ª edição fonográfica ou comunicação pública tenha sido efectuada nos últimos 12 meses.
Artigo 44.º-E
Excepções
1 - O regime estabelecido na presente secção não é aplicável ao serviço de programas temáticos musicais cujo modelo específico de programação se baseie na difusão de géneros musicais insuficientemente produzidos em Portugal.
2 - O disposto no artigo 44.º-D não se aplica aos serviços de programas dedicados exclusivamente à difusão de fonogramas publicados há mais de um ano.
3 - A determinação dos serviços de programas abrangidos pelo n.º 1 compete à entidade reguladora para a comunicação social, que torna públicos os critérios a seguir para efeitos da respectiva qualificação.
Artigo 44.º-F
Regulamentação
Compete ao Governo, ouvidas as associações representativas dos sectores envolvidos e tendo em conta os indicadores disponíveis em matéria de consumo de música portuguesa no mercado discográfico nacional, estabelecer, através de portaria, por períodos de um ano, as quotas de difusão previstas no n.º 1 do artigo 44.º-A.
Artigo 44.º-G
Cálculo das percentagens
1 - Para efeitos de fiscalização, o cálculo das percentagens previstas na presente secção é efectuado mensalmente e tem como base o número das composições difundidas por cada serviço de programas no mês anterior.
2 - As percentagens referidas na presente secção devem igualmente ser respeitadas na programação emitida entre as 7 e as 20 horas.»
Esta é a Secção III onde é abordada a questão exclusiva da música portuguesa. Todavia, para que uma Lei seja efectivamente cumprida é necessária uma correcta e eficaz fiscalização. No caso concreto dos artigos anteriores, cabe a fiscalização do seu cumprimento à entidade reguladora para a comunicação social.
Hoje não me vou estender em argumentos porque muito do que penso encontra-se espalhado por textos anteriores e na crónica “Rádio Nostalgia” publicada no já longínquo dia 24 de Março de 2004.
Pessoalmente, mesmo sem simpatizar com quotas obrigatórias (sejam elas quais forem), entendo que na verdade é necessário dar a conhecer a música portuguesa aos portugueses. Sobretudo, é essencial mostrar o que de novo se faz por este quintal lusitano.
Como escreveu David Ferreira neste blogue “já pensaram o que seria se os cinemas se recusassem a passar filmes novos, as livrarias a expor livros novos, os jornais a mostrar e a comentar... as notícias do dia?! Ou será que o progresso se faz de olhos postos no futuro e os ouvidos agarrados ao passado...?!”
E você? O que pensa?
Luís Silva do Ó
Algumas opiniões a respeito desta nova Lei:
Depoimento de Zé Pedro recolhido por LSO.
Depoimento de Júlio Isidro recolhido por LSO.
Depoimento de Dina recolhido por LSO.
Depoimento de David Ferreira recolhido por LSO e BGP.
Depoimento de José Cid recolhido por LSO.
Depoimento de Miguel Ângelo recolhido por LSO e BGP.
Depoimento de Luís Represas recolhido por LSO.
12.5.06
Tertúlia Castelense, Room 74! Good to be back!
O público não foi suficiente para preencher as mesas mas, a banda conseguiu encher a sala! Sem qualquer sinal de abatimento partilhou, generosa, divertida, com os presentes a música que os move e que lhe dá forma! Uma forma que não me sinto capaz de descrever sem experimentar algum vazio… como se faltasse uma qualquer palavra, que ainda ninguém inventou, e que as outras todas não conseguem traduzir!
A exuberância de um falsete, que se reveza com um timbre mais sólido, sem deambular ou fraquejar… os ritmos ora frenéticos ora ondulantes numa vaga “soul”, o saxofone de som grave, “velho”, recolhido em histórias infindáveis e secretas… as baquetas a fustigarem as bases ciosas de “vida”… a guitarra e o baixo numa dança a dois, denunciadores de diferenças que se completam e criam harmonia… o “groove” de uma voz a abraçar nos coros, a pintar a importância do detalhe!
Foi uma actuação em que o requinte humilde dos protagonistas não destacou senão o propósito da razão do serem… a música!
E eu, que não me lembrava já, do que me conduziu tantas vezes ao seio do público dos palcos portugueses… revivi toda a emoção do que é o “ao vivo”! A música ganha rosto e movimentos que aparelho sonoro nenhum, no carros, em casa, no melhor dos estúdios, consegue reproduzir! É a emoção dos que pisam o palco que se mistura com a dos que assistem… O dar e o receber de partículas tão elementares e tão estimulantes!
É lamentável não ser mais fácil um palco, um público, para bandas assim! Nestes momentos desgosta-me o eterno desconhecimento dos portugueses, da que é a música nacional! Penso que realmente há qualquer coisa que não está bem! Há dinheiro (o público paga fortunas para ver nomes sonantes!), há público (eles estão lá quando acreditam!), há meios (palcos e equipamentos técnicos populam!)… o que falta??? Falta Marketing! Falta o tão aclamado “orgulho nacional”! Falta divulgação! Faltam prioridades! Nós (portugueses e Portugal!)… devíamos ser a NOSSA prioridade!
Por exemplo, os portugueses que passam na rádio, o público desconhece que são portugueses! Porque é que isto acontece?...
Eu sinto-me quase uma privilegiada por ter acesso, por estar atenta ao que se faz cá na música, por conhecer os lugares, por dar oportunidade ao desconhecido, por não me fechar ao que é nosso! As circunstâncias, contribuíram indubitavelmente, mas… é fácil notar que não basta um blogue, não basta um destaque eventual na rádio X, Y ou Z, não basta a cedência de um palco a uma banda nacional num mega evento… Dahhhh! (como dizem os miúdos!) ;) É preciso uma aposta forte no marketing, advertisement & publicity (imprensa!), é preciso destaques em bandas sonoras de filmes nacionais, de novelas! É preciso promoção e visibilidade! Os músicos, as bandas, precisam ser “mais figuras públicas”! Pode ser absurdo, difícil, dispensável, para muitos… mas será útil, giro, natural, para outros! Há que dar espaço à música, aos músicos!
E os Room 74, como tantas outras bandas nacionais (ilustres e desconhecidas!), estão à altura de tanta banda internacional (falta o “glam”no qual as indústrias “lá fora” tanto apostam!) continuam anónimos a tanta gente! E o Tertúlia Castelense, que continua, a ter um destaque deficiente… Um espaço fantástico! Único! Acessível!
A luta tem de ser permanente, tem de ser feroz, tem que ser séria e confiante!
Eu hoje sinto-me mais desiludida… mas acredito sinceramente que esta guerra, só não se venceu ainda, porque existe uma falha na abordagem comercial, porque a qualidade… é óbvia!
O meu mote continua: “Dêem uma oportunidade à nossa música!” Não se arrependerão! Os "Room 74" serão um excelente princípio!
By the way, good to be back! ;)
10.5.06
O rock (nacional) não navega no rio
Eu vou continuar a comprar cd`s e vinyl (seja em lojas ou na internet) e também vou continuar a fazer downloads legais de música da "rede".
Mas sigamos em frente....
Hoje gostaria de falar da época festivaleira que aí vem. Sempre polémica, principalmente quando se fala de música moderna portuguesa.
Recentemente, tive oportunidade de ver 3 bandas excelentes ao vivo (Vicious 5, Wraygunn e Blasted Mechanism).
Pergunto eu: Porque continuam a relegar para palcos secundários a maioria das bandas portuguesas?
Xutos, Rui Veloso, GNR, Da Weasel e D`Zrt são os músicos portugueses do palco principal este ano no Rock In Rio. Se não vou falar dos últimos (são eles que vão abrir o suposto maior festival de música!!!), os dois primeiros são repetentes.
Pergunto eu: Será que existe algum contrato vitalício para determinadas bandas tocarem sempre, mesmo que todos já os tenham visto vezes sem conta em festivais?
Depois temos um Hot Stage onde apenas um cabeça de cartaz em 4 dias é português e onde aparecem uns duvidosos Room 74.
Esta incoerência na programação de um festival que diz ser o maior (??), deixa-nos a pensar. A verdade é que esta é a maior oportunidade de revelar a boa música portuguesa que anda por aí, pois, ao contrário de outros festivais, muita gente desloca-se a este evento não pela música, mas por outras razões que nem vale a pena dissecar.
Felizmente, temos as semanas académicas e outros festivais. Aqui, tenho que destacar o Super Rock Super Bock, pois mesmo com um palco secundário para bandas portuguesas, tem uma vantagem enorme para quem paga bilhete. Intercala as actuações dos dois palcos, permitindo assim aos presentes assistirem a todos os concertos.
Eu continuo com a mesma opinião que tenho há muitos anos: o maior meio de divulgação de novas bandas portuguesas continuam a ser os festivais.
Continuamos com uma rádio pobre, uma televisão distante, uma imprensa bloqueada e até mesmo uma internet minimizada.
Claro que as coisas melhoraram muito nos últimos anos, principalmente na Internet (onde surgiram sites como o MySpace), e na televisão por cabo (Sic Radical e até uma duvidosa MTV Portugal).
Escrevia eu no blog há dois anos atrás que o nosso mercado é pequeno para que todos vivam da música. Continua actual, mas a "máquina" também não ajuda.
Seria possível referir várias bandas que poderiam tocar num palco principal e algumas até serem cabeças de cartaz de um grande festival. E nunca gostei de dar destaque aqui a nenhuma banda em particular, mas a verdade é que ainda esta semana várias pessoas me falaram dos K2o3. Banda punk-rock, oriunda do Alentejo, que apesar de ter tido um enorme sucesso na rádio há alguns anos, nunca conseguiu editora para o seu 2º álbum, acabando por editá-lo à sua própria custa. Durante estes anos todos tenho encontrado muita gente, um pouco por todo o país, que os conhece. Aliás, há pouco tempo, houve um debate na Fnac em Lisboa sobre o punk nacional e as bandas em destaque curiosamente eram os Censurados, os Peste & Sida, os Mata-Ratos e os K2o3.
Orlando Angelino
26.4.06
Um mergulho no saque 2
Porém, quando alguém ousa evoluir, o seu pensamento é apelidado, pela maioria barulhenta que se escuta em surdina, com saborosos e quentes elogios:
“Incoerente”, “interesseiro”, “vira-casacas” ou “vendido” são alguns dos epítetos com que são brindados, como se as nossas convicções fossem imutáveis, à semelhança do clube de futebol da nossa eleição. Aprecio quem tem capacidade de evoluir, pois, sem evolução, tudo isto seria uma monotonia e passaríamos os dias a lutar por “mais do mesmo”.
Vem esta lenga-lenga a despropósito de “O outro lado”, crónica honesta e emotiva de Orlando Angelino, meu antigo colega de rádio e que sempre se manteve na linha da frente das novas tendências musicais. Sentir-me-ei tentado a afirmar que “o outro lado existe”, como diriam os Delfins em 1988, numa época em que tínhamos uma maior quantidade de bares com música ao vivo e em que o defunto Blitz (vai renascer enquanto revista mensal) divulgava o dobro da agenda dos dias de hoje.
Como aqui escrevi na minha crónica anterior, o tema da “pirataria” é apaixonante porque mexe com vários aspectos essenciais da nossa indústria e porque é, em si mesmo, fracturante. Defender o direito dos autores e detentores de uma obra (seja ela musical ou outra qualquer) pode coincidir com o interesse das editoras, mas, ultrapassa em muito essa classe. É um direito que todos os criadores têm e que merece ser respeitado. Creio que, ao longo dos tempos, as editoras têm feito boas e más apostas e não ousei “defender” quem não precisa de advogado.
Quando o grupo nuclear em toda a música moderna (Beatles) é recusado por uma editora (Decca) compreende-se o quão aleatória e polémica pode ser a decisão de contratar e de rejeitar.
Quando os responsáveis das editoras recusam apostar em projectos nos quais acredito, alguém estará equivocado. Normalmente, tenho acertado nos “palpites” e recordo-me de ter previsto o fiasco da maioria das apostas de um catálogo, feito à pressa, por um fugaz A&R português. Em períodos temporais diferentes, o grupo k2o3 foi aposta de Xutos & Pontapés e de UHF para as suas primeiras partes. Na saudosa Super FM do Barreiro, o tema “Vaquinha” tornou-se um clássico. De entre concertos fantásticos, enquanto “cabeças de cartaz”, e cheios de público, recordo um, verdadeiramente assombroso, que rebentou o Lótus Bar pelas costuras. Jamais vi um “olheiro”, de alguma multinacional, presente em espectáculos dos k2o3. Mas, ao contrário de muitos, eu admito estar enganado, demasiado envolvido pessoalmente ou do meu ouvido me atraiçoar. Tenho de reconhecer que a minha avaliação será sempre menos consubstanciada do que a realizada pelas editoras. Afinal, são empresas que visam o lucro e, certamente, terão estudos de mercado que eu desconheço. Todavia, mesmo tendo o lucro como perspectiva, algumas das multinacionais presentes no nosso País não fizeram questão de agarrar o fenómeno pimba. Pelo contrário, esse sucesso de vendas foi aproveitado, principalmente, por pequenas editoras independentes que cresceram, como cogumelos, durante esse período. Apesar de ser sempre popular “bater” nas editoras, sobretudo nas multinacionais, afigura-se como justo reconhecer que, em matéria pimba, os principais responsáveis estarão noutro lado.
O que está em causa é perceber se a presença das editoras em Portugal é vital para o futuro da música portuguesa ou se basta ter por cá um escritório de representação.
Ainda se lembram do vasto catálogo nacional que a BMG construiu no início dos anos 90 e que sumiu subitamente? Com a crise actual corremos o risco, real, das restantes multinacionais fazerem o mesmo e passarem a ter somente escritórios de representação em terras lusitanas - o que, na minha perspectiva, teria sempre péssimas consequências para a nossa música.
O que constato não deve ser confundido com uma defesa das editoras. Mais do que isso, a causa é bem superior e chama-se música portuguesa.
Claro que o ideal seria que todas as músicas estivessem gratuitamente ao alcance de todos. Era o sonho de todos os criadores e de todos os apreciadores de música. Contudo quem financiaria uma situação destas?
Seria o Estado, à semelhança do que faz com o teatro e o cinema? (ver crónica “Um projecto global”).
Passaríamos a ter uma taxa de direitos de autor incluída nos pagamentos aos ISP's?
As editoras ampliariam a sua área de negócio e passariam a controlar o management e o agenciamento dos seus novos artistas?
Obviamente que os tempos actuais exigem maior imaginação por parte dos responsáveis das editoras, porquanto, não basta combater a pirataria. A Internet possui inúmeras vantagens e oportunidades, algumas das quais já começam a ser exploradas.
Mas, as editoras não poderiam ir um pouco mais longe e promover a venda directa de CD’s?
É sabido que as margens de lucro utilizadas por armazenistas e revendedores são parte significativa no bolo que constitui o preço final a pagar pelo consumidor. Claro que isto afectaria os intermediários. Todavia, a realidade da Indústria mudou de tal forma, nos últimos anos, que creio pertinente implementar um portal de venda directa. Por outro lado, não podemos esquecer que existe cada vez mais gente que realiza as suas encomendas pela Internet, sobretudo em sites estrangeiros. Naturalmente, estas compras de música não entram na facturação das nossas editoras.
E que tal fomentar o espírito coleccionador?
O prazer de adquirir e de ter “o disco verdadeiro” devia ser estimulado. A minha geração (e muitas outras) tiveram e têm este espírito de coleccionador na sua relação com a música e com os discos religiosamente comprados. E, recordo-me que eu gravava as emissões do top inglês, escutado na onda curta da BBC, não inviabilizando, antes pelo contrário, a aquisição do single e/ou do álbum.
A potencialidade de divulgação que a Internet possui deve ser uma aposta crescente. Com o surgimento de rádios “feitas à medida” (só no blogue temos disponíveis 3 emissões diferentes utilizando o serviço cotonete), a alternativa às rádios tradicionais existe e pode ser um aliado das editoras. As editoras não poderiam disponibilizar um serviço de rádio via Internet com exclusivos e lançamento antecipado de novidades? O custo seria muito baixo quando comparado com o previsível beneficio.
No seguimento da crónica de regresso de António Manuel Ribeiro (que saúdo pela corrosão habitual e respectivo conteúdo), permitam-me que sublinhe a questão financeira. E porque não experimentar lançar os novos CD’s de música portuguesa a um preço máximo de 10 ou 12 euros (venda ao público)?
Com um preço de lançamento mais acessível não teríamos mais gente a comprar e a adquirir o gosto (perdido) de coleccionar o “original” em detrimento do “virtual”? Até acharia interessante que o preço de lançamento, nas primeiras semanas, fosse inferior ao dos meses seguintes. Ajudaria, efectivamente, à promoção dos novos trabalhos, à sua entrada nos diversos tops e minimizaria o “interesse” pelo saque na net. Porque não uma experiência neste sentido por parte das nossas multinacionais?
Estas são ideias que se juntam a tantas outras que têm ficado guardadas no baú do nosso arquivo. Em jeito de conclusão, direi que seria certamente mais simpático para a maioria dos nossos visitantes e leitores condenar as editoras e lançar-lhes fortes críticas por não terem sabido prevenir esta crise e pelo que poderiam ter feito pela música portuguesa ao longo das últimas décadas. Chorar sobre o leite derramado e falar sobre cenários alternativos pode ser muito motivante para debates e discussões, mas não irá solucionar o problema do presente.
Porém, mesmo sem perder um mililitro do meu sentido critico, não posso permanecer impávido e sereno, a reivindicar mais e melhores edições de música portuguesa, quando toda a indústria musical se encontra a viver um terramoto de grau 8 na escala de Richter.
Uma coisa é certa, do meio dos escombros deste violento sismo, uma nova realidade irá emergir. Resta saber qual.
Mudam-se os tempos, mudam-se as (minhas) prioridades…
Luís Silva do Ó
19.4.06
Assim me inscrevo
Estou de regresso depois de algum tempo no limbo das tarefas. É bom saber que este blogue se agita e há gente responsável a emprestar-lhe oxigénio.
Amiúde, nesta viagem musical, comprei agitações e leviandades trôpegas só por ter dito o que pensava: não se esqueçam que estamos no país do pântano costumeiro, o país dos que marram de lado e desviam os olhos.
Se puder e souber continuar a escrever neste espaço – afinal os UHF eram designados em 1980, pelo semanário de música ROCKWEEK, O Canal Maldito –, irei falar de alguns desses episódios que apimentam a vida e desfazem ilusões: assim se fez e faz a história da música.
Neste primeiro texto vou aflorar (estamos na Primavera) alguns assuntos que estão na ordem e na melodia.
Política financeira
Valerá a pena comprar um novo CD por 18/19 Euros e quatro meses depois vê-lo à venda com um desconto de 10 (!) Euros? O que levará as editoras a não nivelarem, baixando, o preço inicial de venda?
Esta política é má, é saloia, mas é nossa. Os artistas não ganham, iludem-se. Ganhará alguém dentro da indústria?
Esta habilidade comercial conduz o mercado a retardar a aquisição dos novos discos, que deixou de ser imperiosa, esperando-se pelos “saldos”. Perde-se assim o fenómeno da novidade/sucesso.
É sabido que são os miúdos que agitam a indústria, ou eram, miúdos como eu fui, a juntar dinheiro para comprar um disco que se começava a saborear pelo toque da capa na discoteca, semanas antes de o poder adquirir. Mas agora os miúdos usam Ipod, os novos carros já o trazem, anulando a magia do disco novo. Os miúdos de hoje trocam músicas copiadas que vão continuar a copiar, porque a política financeira das grandes editoras (com as pequenas atrás) tem sido errática, apostada no imediato, perante o sufoco dos tempos que tudo mudaram.
O CD é um produto caro para o nosso nível de vida. Na indústria discográfica o efeito Titanic está à vista.
EMI
Um exemplo e um selo: visitem a Worten e abasteçam-se do catálogo nacional da EMI. Muitos foram discos de ouro e platina. Mas ainda estão à venda, ou só agora, a baixo preço. A Universal e a Sony/BMG correm no mesmo sentido.
Nesta mais recente passagem dos UHF pela EMI, acabei por compreender o significado do copy control. Toda a gente sabe, a começar pelas trutas britânicas, que o famigerado software não passa de um disfarce, uma cerca antes do pulinho. Os entendidos da informática riem-se; as cópias mantêm-se.
Então porque se persiste na colocação do copy control que onera o valor do CD? Diria que o resto do mundo anda a pagar um tributo fixo à casa inglesa, o que sempre ajuda nas vendas em queda. Num país como Portugal, as vendas ressentem-se.
Um dia o David Ferreira (patrão da EMI) disse: andamos todos a lutar pela maior fatia de um bolo cada vez mais pequeno. Maior lucidez não ouvi. Repensar é preciso, sem maquilhagem.
O IVA
Por duas vezes, enquanto director da música ligeira da SPA, insisti com a questão do IVA, primeiro nos 17% e depois a 19. Agora que está a 21%, ou seja, mais de um quinto do preço final de um CD, que vamos fazer para colocar esta taxa ao nível da aplicada no livro?
É uma questão entre o camarão, de um lado, e o saber, do outro, uma questão de inteligência, uma questão política e cultural, mais útil do que prender os passadores de cópias pirata. A doença deve ser compreendida pela sua génese. Cuidar apenas dos sintomas é prolongar a causa.
Mas a música é feita por marginais que gostam de tocar guitarra e fumar charros por aí, incapazes de fazer uma greve, incapazes de serem uma classe, pouco respeitados e pouco respeitáveis, dirão os ilustres eleitos da nação que se baldam à Assembleia desta República das bananas a que tragicamente chegámos – maioria oblige.
A rádio que temos
Quando há mais de um ano aqui escrevi que a rádio estava a perder ouvintes de uma forma assustadora, houve quem se risse e houve quem se agitasse. Estes meses depois, com uma nova lei de protecção à música portuguesa aprovada no Parlamento, quais são os resultados práticos? Alguém se rala com este país opado por desconhecidos de renome?
Quase todas as rádios têm consultores externos – americanos, alemães, ingleses ou irlandeses – e eu não percebo porquê. Será uma forma de alijar, ou esvaziar, a responsabilidade de dirigir o conteúdo de uma estação radiofónica? Além da música que nós lhes importamos, conhecerão esses consultores a nossa? Qual será o benefício da programação estar entregue a um tipo lá longe? Quem vai ter a coragem de dar o primeiro passo e desfazer a mania e o medo? Ou será que esta rádio em Portugal já não é nossa, como não é a Avenida Fontes Pereira de Melo, a Praça do Saldanha, a Avenida da República, quase todo o bairro que tem o nome de Parque das Nações? Será que antes havia rádio em Portugal? 1640, da janela do Paço, poderá repetir-se?
Quanto à falsa questão da produção nacional ser curta: se a continuarem a estrangular, vai definhar. Um CD não pode apenas valer uma, talvez duas canções. É curto, é redutor, é cinismo puro, não define a obra. Estarei a sonhar?
Gostaria de dizer que a rádio se fez para servir a divulgação da música de cada tempo – podem-se rir deste quixotismo. Hoje a rádio programa resmas de anúncios com música envelhecida a fazer de separador e tudo acaba antes de começar.
Que tal os noticiários repetirem as notícias de há 15, 20 ou trinta anos atrás? Há canções repetidas que me lembram as minhas namoradas que já envelheceram ou casaram ou as duas coisas. Que porra faz esta canção dos Doors de 71 nos meus ouvidos? Tenho que subir as escadas para o Céu com os Led Zeppelin às nove da manhã e logo a seguir às onze e meia?
Devolvam-me a puberdade, por favor. Esta rádio a isso obriga.
A lei e o filtro
Pessoalmente estou-me borrifando para a nova lei, e a velha, também. A primeira, ufanamente erguida pela esquerda de 82, nunca foi aplicada – não foram criados mecanismos de controlo. Logo, um belíssimo trabalho para-lamentar. A nova, perdoem-me os colegas recentemente despertos para a causa, está-lhe na peugada. Mas o que custa, sinceramente, é saber que neste país é preciso ameaçar com leis para podermos ouvir o que por cá fazemos. Eu pensava que, num país que se quer europeu, civilizado e fã do choque tecnológico, passar na rádio música portuguesa para os portugueses era banal. Mas não. Há um filtro.
25 Anos de Febre
Saudades não tenho, de nada, nem do futuro. Mas estivemos lá, na Febre de Lisboa, e foi engraçado rever os meus companheiros da década de 80. Não vi por lá os Roquivários e ainda bem. Porque, é preciso dizê-lo, havia muito lixo musical naqueles tempos, muita fraude, como também hoje há.
Uma coisa ou outra retenho das duas Febres: cantávamos todos em português, falávamos da vida, das personagens e da sociedade envolvente – curiosamente, algumas daquelas canções estão actuais. Naquele tempo ninguém soprava aulas de inglês com ideias de Peniche.
Tocámos todos ao vivo, ou quase todos. Teria sido bom que a RTP tivesse a seriedade de ter referido, quer em Lisboa quer no Porto, quem o não fez. É uma questão de verdade em televisão: pelos colegas e para o público.
Quanto ao Mestre-de-cerimónias Júlio Isidro: muito lhe devemos, músicos e indústria. Já se fala que ele vai recomeçar e ainda bem. Precisamos de mais tempo naquela janela.
Uma questão de alterno
Ou uma questão alternativa. Estamos num tempo em que tudo – e a música ops! – tem de ser alternativo, valha isso o que valer: se entendermos por alternativos aqueles discos com capas onde nada se consegue ler – títulos das canções, letras, autores, músicos, estúdios e o resto.
Não que eu tenha algo contra o que é alternativo. Só não me apetece ser um fundamentalista de uma nova religião que exclui tudo o resto. As mentes pequenas criam demasiados campos de concentração para a diferença, quando é nessa quantidade diferente que está a manta feita de retalhos que é a música popular.
Este nicho, a que damos muita importância porque nós adoramos nichos e projectos, faz-me lembrar o teatro que o 25 de Abril de 74 nos trouxe e as suas companhias cogumelos: ficaram os actores e os críticos a aplaudir outros actores. O público, fugiu.
Os projectos, quase sempre, usam o martelo da indignação para se imporem. Mas é giro ser-se alternativo. Na FNAC está à venda, por exemplo, The Alternative Álbum, onde entram os Coldplay. E o avião privado que os transporta, também lá cabe?
Humanamente
Tenho tido uma imensa vontade de falar do disco póstumo sobre o António Variações, designado por “Humanos”, e sei que algumas capelinhas vão acender as luzinhas como se fosse Natal em Abril: a velha questão da vaca sagrada, aquilo que o homem de Amares não foi.
É um facto que a indústria pulou com o sucesso deste disco, os resultados foram excelentes, o que é bom para todos os que defendem a canção portuguesa. E para o autor que está na outra dimensão, que nível de continuidade?
Penso em mim, que fui seu contemporâneo, ligado ao seu aparecimento ao vivo, com quem privei na noite de Lisboa. Recordo a sua inaptidão para tudo isto, a sua timidez, e a procura pessoal de um formato musical novo, uma canção popular e ligeira que trouxesse o fado no ventre e o acaso da vida vestido. Lembro-me desse Variações, o artista kitsch que conheci, ignorado pelos seus contemporâneos que depois correram a chorar sobre o caixão a sua genialidade, esquecendo a solidão e a dúvida em que os criativos sempre naufragam.
Lembro-me do diamante que a “Canção de Engate” (enorme a versão dos Delfins) encerra e não consigo digerir a coerência na recolha destas canções proibidas. Onde é que ficou “Toma o comprimido (que isso passa)” e as maquetas que o grupo de Odivelas gravou com ele e nós ouvíamos no parque dos Estúdios da Valentim de Carvalho em 1980, enquanto ele aguardava que o deixassem gravar – o contrato era anterior ao dos UHF?
Um dia escrevi: O bom poeta / é um homem morto / Tudo lhe presta / E dói-lhe pouco (*). A evidência continua.
Não me confundam. Por ter estado calado não significa que não tenha estado lá. Uma cassete que guardo, desse dia 27 de Maio de 82 na Feira Popular, diz mais do que estas palavras e do que outras escritas por quem, de fraldas, ouviu falar de um tempo. A Manuela Gonzaga, que escreveu a sua biografia a editar brevemente, vai repor alguma verdade na estória.
António Variações mal teve tempo para iniciar uma carreira, ficou a meio de quase tudo, não lhe conheci fãs e aficionados. Enfim, em “Humanos”, salvam-se as vozes excelentes e o mérito da EMI.
(Guardo um dossier de temas aleijadinhos a que chamei Baú de Canções. Vou queimá-lo.)
(* “Um Tiro na Solidão”, in Santa Loucura, 1993)
António Manuel Ribeiro
18.4.06
UHF: Democracia participativa
Os UHF prometem muitas surpresas nas escolhas dos alinhamentos desta digressão. Segundo o grupo de Almada, "os ensaios têm sido densos, duros e recompensadores", sendo voz corrente entre o quarteto que "há muito não se preparava uma digressão nestes moldes".
É, ainda, proposto um desafio aos fãs e amigos para que participem na escolha do repertório desta digressão que irá conduzir à gravação do primeiro DVD dos UHF.
Assim, quem quiser pode votar em sete temas que gostasse de ver incluídos. O primeiro tema escolhido valerá sete pontos e o sétimo um ponto.
As votações devem ser dirigidas para info@uhfrock.com e devem ser realizadas até ao fim deste mês de Abril.
13.4.06
Eduardo Simões comenta "O outro lado"
Em primeiro lugar gostava de saudar o Canal Maldito. Não sendo um especialista em blogs mas apenas um observador ocasional, tenho lido com agrado alguns dos posts e não posso deixar de felicitar os responsáveis pelo CM por conseguirem um fórum de discussão civilizado onde a liberdade de expressão é exercida de uma forma responsável e... com assinatura!
Dito isto, tomo a liberdade de comentar o texto de Orlando Angelino, que levanta, de forma séria, questões importantes. Começo por concordar com o facto de a Internet possibilitar uma muito maior divulgação dos trabalhos dos novos talentos, Portugueses ou não. Todavia, penso que o panorama actual do mercado de concertos não se deve apenas à Net: houve uma evolução enorme no mercado do espectáculo e aí penso que foram os próprios hábitos do público que mudaram. Primeiro com os concertos de Artistas/Grupos estrangeiros, depois com o 'boom' do rock Português, mais tarde com a presença regular dos nossos músicos nas televisões, nas rádios - muitas vezes em programas "de autor" especializados na música mais actual. Para que isto fosse possível houve ainda outros contributos, tv por cabo, uma exposição enorme da música nos mais diversos locais (bares, centros comerciais, gares de transportes, centrais telefónicas, etc. etc., ao ponto de hoje quase não haver negócio digno desse nome que não esteja "sonorizado"). Há pois um conjunto de factores que alterou tudo e não um factor isolado, por mais importante que seja.
Relativamente às opções editoriais sobre a música dita "pimba" (não sou partidário de rotulagem qualitativa para qualquer tipo de música), também discordo. Este tipo de música sempre existiu, cá como lá fora, e, no passado não foi responsável por nenhuma quebra de vendas, antes pelo contrário. Também agora não deverá ser "diabolizado" como responsável por qualquer crise. De resto, no P2P, também se encontra abundantemente, esta música. Em relação á rádio, a Indústria, muito pelo contrário, tem vindo nos últimos anos a reivindicar alto e bom som, quotas para a música Portuguesa e, não menos importante, quotas para a passagem de novidades. Não defendemos nem a massificação do repertório estrangeiro, nem a "nostalgização" da rádio. Acredite, Orlando Angelino, que teria sido muito mais fácil ficarmos calados! A campanha da PLAM-Plataforma pela Música (com o apoio incondicional e desde a primeiro hora da AFP) tem sempre custos...
Quanto ao papel editorial das multinacionais, parece-me o seu comentário um bocado injusto a menos que se explique por um excesso de subjectividade. Basta darmos uma vista de olhos nas edições que se foram fazendo no período que refere.
Sobre se o fim dos "downloads ilegais" possibilitaria maior investimento em novos talentos, concerteza que sim. Editar repertório mais específico para o ver de imediato "ripado" na net em larga escala não é um investimento atraente para ninguém de bom senso. Neste ponto, cabe-me reafirmar o que já expliquei muita vez: as editoras são sociedades comerciais que, por definição, visam o lucro. Acontece que só o reinvestimento do lucro possibilita a aposta em novos talentos.
Os lucros que refere no iTunes e nos telemóveis estão, infelizmente, muito longe de poderem compensar, a quebra enorme que o mercado sofreu. Temos esperanças e trabalhamos para que isso aconteça. A campanha da AFP relativamente ao P2P, ao contrário do que alguns disseram, não é para assustar as pessoas, é para "abrir caminho" aos negócios digitais legais.
O exemplo dos Artic Monkeys, é um bom exemplo, foram eles próprios que quiseram, numa fase inicial, disponibilizar o seu trabalho gratuitamente. Foi uma opção consciente dos próprios, não foi uma decisão de terceiros, ou de milhões de terceiros. Depois, segundo julgo saber, partiram para outra via e assinaram com uma editora.
Em França, há de facto uma corrente que defende um esquema de compensações que eu diria são minimalistas. Todavia, não obteve a consagração legislativa que alguns chegaram a celebrar em Dezembro passado. De resto, esquemas de substituição de direitos exclusivos por remunerações simbólicas, é tapar o sol com a peneira: se isso fosse posto em prática em França, dentro de um ou dois anos, verificar-se-ia uma redução drástica do número de edições o que, num país com uma quota de produção nacional de cerca de 50%, seria criminoso para a Cultura Francesa.
Por último, tem toda a razão o Orlando Angelino quando diz que a Indústria foi lenta a abraçar algumas novas tecnologias. Todavia, está a recuperar a bom ritmo. Neste momento já há 3 serviços legais em Portugal para download a partir da Net. São mais de 1.100.000 de canções a cerca de 1 Euro cada uma, e ainda há descontos possíveis.
Se os preços são justos ou não, penso que a questão se deve colocar em relação a todos os bens e serviços que queremos. Se houvesse possibilidade de baixar preços para aumentar as vendas, há muito que as editoras o tinham feito. Já viu o preço a que estão outros bens culturais e o que aumentaram nos últimos 12 anos comparativamente com o que (não) aumentou o CD? Pense um pouco no que custava um bilhete de cinema, de concerto ou um livro há 12 anos.
Com os melhores cumprimentos e votos para que encontre sempre mais música que goste,
Eduardo Simões
12.4.06
O outro lado
Mas atenção que não venho aqui defender a pirataria, seja ela de música, filmes, jogos ou outra coisa qualquer. Apenas vou tentar dar uma opinião mais diversificada de quem tem cerca de 600 cds originais em casa e que não deixou de comprar os originais só porque eles existem na internet sem custos.
Antes da internet surgir, o mercado de música moderna portuguesa estava muito mais estagnado do que agora pois a divulgação que havia era 80% bandas internacionais, 17 % música popular portuguesa e devia de restar pouco mais do que 3% para divulgar a boa música moderna que se faz no nosso país.
E os concertos não decresceram, pelo contrário, aumentaram em grande número, mesmo sem as ditas salas para tocar.
Basta irmos ao site http://www.epilepsiaemocional.org/agenda ou ver as páginas do Blitz para concluirmos que há mais concertos seja em que ponto do país fôr e não só nos grandes centros.
Será que a quebra de 40% das vendas em Portugal não será devido às opções que as próprias editoras tomaram de editar artistas duvidosos e esquecer a boa música portuguesa que as pessoas querem comprar? Será que esse decréscimo não foi quase todo na dita música pimba, pois essa é direccionada para as classes com menos poder de compra?
Conheço vários músicos e bandas com projectos interessantes para editar e nenhuma editora apostou nos seus projectos; e pelo menos dois desses que acompanhei de perto tiveram que o fazer em edição de autor, sem distribuidora, porque nenhuma editora lhes pegou.
Por outro lado foi esta mesma indústria que andou anos a impigir-nos música anglo-saxónica 24 horas por dia na rádio portuguesa, porque isso lhes dava mais lucros: é que evitavam os custos de estúdio, de produção, de músicos, de criação gráfica, etc.
E a música moderna portuguesa? Tirando um ou outro caso de sucesso, se formos analisar os ultimos 15 anos pouco ou nada de novo foi editado pelas multinacionais, mas sim por pequenas editoras, muitas delas já extintas.
Espanto-me agora ao ver aqui neste blog e noutros de música portuguesa muitos a defender as editoras, quando foram eles mesmos os maiores críticos há tempos atrás.
Ou como é possível que alguns artistas que lutaram e reclamaram das explorações das editoras, do sistema fechado musical, das dificuldades que este sistema de "máquina de fazer dinheiro" levanta (principalmente aos jovens artistas), vêm "hoje" defender essa mesma máquina de fazer dinheiro?
Será que sem os dowloads ilegais havia mais música portuguesa editada e divulgada?
E nem vou falar aqui da questão do IVA, pois essa já foi abordada aqui há algum tempo atrás.
Muita gente fala do decréscimo de vendas de cd`s, mas e então os lucros enormes que estão a acontecer com sistemas como o iTunes ou os toques de telemóveis?
Quer se queira quer não a internet tem esse grande dom de tornar acessível ao grande público artistas que de outra forma nunca seriam escutados e caíriam no esquecimento. Vejamos o caso dos ingleses Artick Monkeys que se divulgaram a eles próprios através da internet e o seu álbum de estreia foi o mais vendido de sempre na Inglaterra para um artista estreante (250 mil cópias).
Nos Estados Unidos os Panic At The Disco divulgaram a sua música através dos chamados P2P (eMule, Limewire, etc) e praticamente 500 mil fãs compraram o álbum quando saiu nas lojas, mesmo tendo as músicas no computador.
Em França existe actualmente uma movimentação para a legalização da troca de música em P2P, com compensações alternativas para direitos de autor, editoras e distribuidoras, como acontece actualmente na difusão pública de música em rádios, restaurantes, bares, discotecas, etc.
Como referi no inicio deste artigo, não defendo a pirataria informática, e até defendo a punição de quem faz dowloads ilegais na internet, mas gostava apenas que existissem mais alternativas na "rede portuguesa" e a verdade é que elas não existem, tirando a compra de uma simples música por cerca de 1 euro e pouco mais do que isso.
A própria indústria (seja ela discográfica ou cinematográfica) atrasou-se muito e aos poucos vai tentando formas de contornar a tecnologia, mas acho que não é através de multas que o vai conseguir. Acho sim que deveria tentar primeiro procurar alternativas viáveis e com um preço justo para quem não se quer deslocar a uma loja para comprar um cd a 20 euros.
Já agora vejam este link: http://arstechnica.com/news.ars/post/20060406-6541.html
Dá que pensar?
Orlando Angelino
Festival Santos da Casa
Em Abril e início de Maio, Coimbra vai ser invadida pela música portuguesa, com concertos, exposições e palestras.
Paralelamente ao festival, que tem início a 19 de Abril, decorre no TAGV uma exposição de memórias de música portuguesa.
Mais informações em http://santosdacasa.blogspot.com
3.4.06
Um mergulho no saque
E se o negócio da música está mau em todo o mundo, a música portuguesa ainda se encontra em pior estado. As vendas têm baixado e as apostas das editoras têm de ser bem reflectidas. Os novos músicos não editam, não têm espaços para tocar, não passam na rádio e não surgem em programas de televisão. Esta sequência é aleatória, mas o ciclo vicioso está a provocar danos em toda uma geração de criadores sem possibilidades de furar. Contudo, não são somente os novos músicos a terem problemas com o momento presente. Tirando uma minoria de consagrados, temos um vasto leque de artistas com passado relevante que se encontram a atravessar um limbo prolongado, pouco habitual e indesejável.
Aproveito para um aparte a que voltarei em próxima crónica. Ao contrário de algumas vozes, não acredito que os veteranos tapem lugares às novas gerações. O mercado internacional mostra que coexistem novos e antigos valores. Os U2 ou Elton John não bloqueiam o surgimento de outros projectos de grande dimensão porque existe mercado para todos. Porém, para que tudo funcione é imprescindível que exista mercado e, nos dias de hoje, corremos o risco de o matar…
Há 25 anos, o “Mãozinhas” adorava ir de noite ao supermercado “fazer compras”. Costumava levar todos os bens que lhe apetecesse e depois deixava as portas escancaradas para que todos os amigos pudessem repetir os carregamentos.
Já o “Brocas” era um destravado que chegava depois do "Mãozinhas" fazer o "trabalhinho" e, além das suas “compras”, mantinha as portas abertas e distribuía tudo o que continha o supermercado.
Entrando sorrateiro, o “Pantufas” só levava umas coisinhas e tentava sumir rapidamente com medo que algum segurança o visse.
Em pleno século XXI, estes 3 rapazes modernizaram-se e deixaram o desconforto das saídas nocturnas. Operam hoje nas suas casas e são especialistas da negra arte do saque pela Internet.
O “Mãozinhas” permanece o mesmo palerma de sempre. Agora, até se dá ao luxo de comprar CD's para depois os ripar, os compactar com todas as imagens que integram os discos e os disponibilizar para que possam ser sacados na Internet.
O “Brocas” aproveita o trabalho do “Mãozinhas”, saca os discos e incentiva a continuação do vil saque ao manter esses ficheiros acessíveis para posteriores uploads.
Por último, o “Pantufas” tenta não partilhar, mas, vai sacando sempre que pode. Ainda assim, enquanto “saca e não saca” acaba por ir permitindo que outros saquem os fragmentos que ele vai conseguindo transferir para o seu computador.
A diversidade do que se encontra disponível na Internet é impressionante. Mesmo sem contribuir activamente para o fenómeno, conseguimos visualizar um vasto leque de exemplos do que se passa no presente. Quase tudo se consegue sacar pela Internet: aplicações e jogos de computador, séries de todo o género, filmes ripados de DVD's ou filmados durante a sua exibição nas salas de cinema, etc. E, no âmbito daquilo que mais nos importa nesta crónica, na música, além das edições recentes, consegue-se encontrar de tudo um pouco… até trabalhos nunca editados em formato digital!
Há 15 dias, tive oportunidade de conversar com José Cid e confirmei que o “Cantando Pessoas Vivas” (disco de rock progressivo gravado pelo Quarteto 1111 em 1975) não existia em formato CD. Todavia, este disco encontra-se disponível nos programas de partilha de ficheiros.
Também o nosso amigo António Manuel Ribeiro tem poucos trabalhos recuperados para o formato CD. Contudo, o disco ao vivo “No Jogo da Noite” (que tenho em LP) encontra-se, não só, disponível, como em versão remasterizada!
Considero que estes e muitos mais álbuns deviam ser lançados em CD, mas, o que me interessa ressalvar aqui, hoje, é o nível de sofisticação a que as coisas chegaram.
Existem pessoas que se dão ao trabalho de passarem som analógico para digital e de cuidarem profissionalmente do produto final antes de o disseminarem pela Internet…
Estes rapazes contribuem, em escalas diferentes, para o descalabro de toda a indústria musical e enganam-se aqueles que consideram que os artistas não necessitam das editoras para nada.
A principal diferença entre o pirata dos livros de história, barbudo e de arma em riste e o pirata dos nossos dias é que, antigamente, ele tinha consciência de que arriscava.
Actualmente, o sentimento de impunidade é absoluto e ninguém imagina que possa ser, num destes dias, apanhado e condenado. Considera-se impossível que sejam todos apanhados ao mesmo tempo, pelo que, a probabilidade é um argumento forte em prol da manutenção de hábitos, pois, existem dezenas de milhares de portugueses que aderiram ao sistema das borlas ilegais, muitos deles pagando upgrades aos fornecedores de Internet para usufruírem de maior quantidade de tráfego.
Apesar dos ISP’s operarem dentro da legalidade, pacotes que incluam 30, 40 ou 50 Gigas de tráfego internacional serão consumidos em quê? Em acessos à conta de email não será certamente…
Quem se habituou a sacar tem outro argumento falacioso e que se relaciona com o preço dos CD's. Como os discos são caros não faz mal piratear…
Pois, eu também sou daqueles que considera o preço dos discos elevado e sei que se os preços fossem menores a minha colecção já ocuparia o dobro dos móveis. Creio que um CD deveria ser tributado com o IVA de 5% (só aqui o custo baixava 16%) e que o preço não deveria ultrapassar um patamar de 10 ou 15 euros. E edições com mais de um ano deveriam ser sinónimo de “nice price”. Dando um exemplo aqui da “nossa casa” (alô Ulisses), encontrei, num destes dias, o primeiro CD dos k2o3, “És Capaz”, editado em 1996, à venda por 12 euros numa das maiores lojas de venda de discos deste País. Como é possível vender um CD com 10 anos a 12 euros!?
Pois, o preço dos discos pode não ser barato, contudo, eu não ando a roubar ecrãs de plasma só pelo facto de os considerar caros…
Regressando ao “sentimento de impunidade”.
A impunidade é meramente aparente porque, exceptuando alguns casos menos vulgares, o comum do cidadão faz cópias ilegais “à descarada”.
Como já dissemos, nós próprios realizámos alguns testes em que determinámos os ISP e IP's de piratas em programas P2P. Qualquer pessoa, mesmo sem grande formação tecnológica, poderá obter o mesmo resultado. Depois, bastará chegar ao responsável através dos mecanismos legais disponíveis para o efeito.
A ofensiva lançada recentemente pela AFP vai começar a dar resultados. Não que se termine em absoluto com a pirataria – nisso não acredito -, porém, não duvido que, com duras medidas restritivas, se consiga controlar esta questão.
Para primeira abordagem ao tema, centraria a preocupação na música portuguesa e seleccionaria os “Mãozinhas”, ou seja, aqueles que colocam as novidades online e faria deles exemplos a não seguir. Mais do que as dezenas de milhares de “Brocas” ou de “Pantufas” são estes “Mãozinhas” os principais responsáveis pela situação actual.
As editoras necessitam de ser rentáveis para continuarem a apostar em novidades e os músicos precisam de editar e de receberem os respectivos direitos. Esperamos que a ofensiva da AFP comece a surtir efeito dissuasivo.
Mesmo num País com um sistema judicial moroso como o nosso, ninguém gostará de arriscar ser apanhado se souber que o pode ser de facto…
Sacar não é legal, yô…
Luís Silva do Ó
P.S.: O tema é apaixonante e deve ser encarado numa perspectiva global.
1. É diferente o uso destes downloads para fins comerciais ou para fins de consumo pessoal. São casos diferentes e a Lei prevê penalizações diferentes. Contudo, o autor de uma obra é o detentor dos direitos da mesma e só o próprio (e a quem a mesma esteja licenciada) é que pode decidir disponibilizar a mesma gratuitamente ou não. O argumento, de alguns cidadãos, que afirmam "não serem piratas porque não retiram dividendos financeiros pela partilha que realizam" não anula um acto de incumprimento do respeito pelos direitos do autor e pela Lei que se encontra em vigor. O termo "pirata" pode não ser o melhor, mas, o termo "criminoso" é juridicamente correcto.
2. Existe muita gente que não "simpatiza" com as editoras. Porém, sem editoras, quem paga o investimento que é necessário realizar para gravar um disco? Quem paga o estúdio? Tirando alguns que possam ter recursos financeiros a maioria das bandas não pode dispor de centenas de contos para gravar um disco.
3. Downloads de canções protegidas e feitas de forma ilegal é uma coisa e downloads legais e gratuitos outra bem diferente. Quem disponibiliza gratuita e legalmente temas na Internet está a promover, inteligentemente, o seu produto. Pessoalmente, como já defendi diversas vezes, sou a favor do uso da Internet como meio promocional. O que nunca concordarei é com a disponibilização de qualquer música à revelia dos seus criadores.
Entrevista a David Ferreira, conduzida por BGP e LSO em 13 de Março de 2006.
"Pirataria na net" (2)
Em Portugal, o seu uso é corrente e tem aumentado ao longo dos últimos meses, enquanto o sentimento de impunidade deste tipo de actividade permanece entre os seus utilizadores.
Contudo, o sentimento de impunidade não passa de um mero "sentimento". Apesar de ser humanamente complicado responsabilizar todos os prevaricadores, a sua identificação não é tão "impossivel" como alguns pensam.
No site www.pro-music.com.pt estas e outras verdades são explicadas de forma directa e simples, enquanto algumas medidas no combate à pirataria são anunciadas para muito breve.
Durante o dia de amanhã, 4 de Abril, vão ser apresentadas as primeiras queixas-crime em Portugal relativamente à partilha não autorizada de ficheiros musicais nos serviços de partilha de ficheiros (P2P).
Todavia, esta abordagem activa e musculada por parte da AFP surge num momento em que as diversas empresas fornecedoras de internet continuam a aumentar as velocidades e os tráfegos disponibilizados para download.
Alguém acredita que tarifários com 30 Gigas de tráfego internacional sejam apenas utilizados para ler emails e outros fins lícitos?
2.4.06
"Pirataria na net" (1)
Entre 2000 e 2005, o mercado discográfico, em Portugal, desceu 47%, representando uma quebra acentuada no número de unidades vendidas, de 15.161.880 para 9.068.062.
Em termos de facturação a descida foi para quase metade: de 106 milhões de euros em 2000 para 56 milhões de euros em 2005.
O "Canal Maldito", ao longo da próxima semana, irá aprofundar este tema. Para iniciar o debate/reflexão, deixamos a opinião do Director-geral da AFP, Eduardo Simões, recolhida durante a apresentação do Plano de Combate à Pirataria Digital.
Nessa tarde foi ainda lançado um folheto-guia e apresentado o site www.pro-music.com.pt.
Entrevista a Eduardo Simões, conduzida por BGP e LSO em 13 de Março de 2006.
29.3.06
Resmas de má qualidade
Ora bem…
Sempre que se fala de música portuguesa, e no “esgrimanço” de argumentos, há sempre quem puxe para vários lados: as culpas, os méritos, as negligências…
Há, no entanto, uma premissa que nunca vi assumida, mas que me parece fundamental.
(Este raciocínio resulta de anos em garagens com bandas da mais variada proveniência estética, acompanhá-las ao vivo, gravá-las em estúdio, etc. Ora sigam…)
Se escolhermos uma banda portuguesa de garagem, que entre todos nós seja evidente a falta de qualidade ou nível ou, melhor ainda, uma banda que possamos assumir sem problemas que é má, que toca mal, que tem más canções, que tem má cena.
Se pegarmos nessa banda, e fizermos uma gravação, também má; se fizermos um CD com mau design e má apresentação… uma coisa que nos pareça a nós - que somos razoavelmente esclarecidos - MAL.
De seguida, marcamos uns concertos aos gajos. Sítios onde eles possam apresentar a sua “cagada”. Anunciamos a “tour” de apresentação por blogs, jornais, rádios, etc.
A conclusão que vamos tirar (e aposto…) é que nesses concertos vai haver gente que vai gostar, e esses vão falar com a banda e vão-lhe dizer que gostam, vão comprar o disco, vão levar para casa, ouvir, mostrar aos amigos; os amigos vão também gostar e passar aos seus amigos, and so on, and so on…
A banda, vai ouvir muitas vezes o usual… “Vocês têm muita qualidade”, “Como é que as rádios não passam a vossa música?” “Como é que nenhuma editora pegou em vocês?” “Este país é sempre a mesma merda!” “Porque é que vocês não vão tocar ao Sudoeste?”…
Ora bem, ora bem…
Mesmo não querendo ser mauzinho, eu digo (mas quem sou eu, dizem vocês… e muito bem) que destas bandas há muito por aí…
E temos muita linha escrita, e muito minuto de airplay e muito “passa a palavra” com bandas assim.
Com um bocadinho de sorte, os nossos rapazes, vão ter inúmeras referências na imprensa e rádios.
Ora bem, ora bem...
E quando, se estiver a discutir musica nacional e os seus problemas, os nossos rapazes, poderão, com alguma legitimidade, apontar o seu caso de inúmeros concertos, críticas positivas, encorajamento, referências na imprensa e no entanto, nem rádios nacionais, nem editoras, nem estrelato!
Serão, portanto, vítimas de um País que não reconhece os seus artistas e a sua cultura, ou apenas UMA MERDA????
Por difícil que vos pareça este exercício, por experiência própria vos garanto que já vi isto acontecer, à minha frente, muitas vezes.
Daí a minha postura pouco típica e pouco amada entre os meus colegas músicos.
Eu aceito que muitas músicas não entrem em playlists ou muitas bandas não consigam contratos, etc. E não coloco os meus projectos ou aqueles em que trabalhei fora deste raciocínio. Daí que muitas vezes quando levo com o tal “vocês têm muita qualidade” ou “Porque é que nenhuma editora aposta em vocês?” ou “isto devia passar na rádio” eu vou respondendo com um seráfico “talvez não passe porque não é suposto” ou “talvez não tenha editora porque não devia ter editora”.
Este raciocínio (entre outros mal amados) levou-me a colocar o seguinte post a propósito da nova lei da rádio num Fórum muito interessante (http://www.divergencias.com/)
“música é música, ou seja, alguém por esse mundo fora ker saber se os Abba são música sueca? Se a Bjork é música islandesa? Se os Rammstein são música alemã? Se os Air são música francesa? Se os Pizzicato five são música japonesa? Se os Sigur Rós são música islandesa? Se a Kylie Minogue é música australiana? Se os Rasmus são música Finlandesa?
Penso k as respostas são sempre “não”, o que as pessoas querem saber é se é música boa para os seus ouvidos.
Ainda
No futebol temos o conhecido fenómeno dos treinadores de bancada, não estará esta discussão sobre airplay de rádio, a trazer para a ribalta enormes quantidades de playlisters de bancada? (neste caso talvez playlisters de orelha).
Mais
Através de uma pesquisa simples no google ou outro, podemos encontrar por esse mundo fora emissões online de rádios segmentadas, talvez seja interessante procurar as equivalentes internacionais ás nossas nacionais… e veremos que as nacionais, nem estão fora dos parâmetros, e pessoalmente penso, que mtas vezes a vantagem é das nacionais em termos de gosto veiculado.
Isto para dizer que, obviamente, as rádios de maior preferência do público são as que divulgam conteúdos mainstream… nada de novo até aqui, o mainstream é mainstream, porque é abrangente, porque não choca porque chega ás massas.
A pergunta (do espeta a faca)
Teremos nós produção musical mainstream capaz e em quantidade de ser incluída entre o novo single do eminem, a nova dos Queens of stone age, seguida das Pussy Cat dolls, ou dos Linking Park feat Jay Z, ou dos U2, Coldplay, The Killers, etc.?
Não estou com isto a fazer juízo de valores em relação a qualidade praticada por estes nomes, estou só a afirmar, que estes nomes produzem mainstream e por isso são preferidos pelas massas e que as rádios k procuram as massas têm k se mover nestes territórios…
As restantes rádios, são de nichos e esses não são os que agregam as preferências das maiorias… mais uma vez não é um juízo de valor mas sim uma constatação que quem faz música para nichos dificilmente obterá o reconhecimento massivo do seu trabalho.
Em jeito de conclusão
Sejam estes pontos válidos ou não, cabe aos músicos de origem Lusa, a árdua tarefa de fazer música para que quem a ouve não se preocupa ou pondere a origem mas sim apenas se gosta ou não.
Ainda fundamental, perceberem que targets querem atingir e produzir trabalho em função das referências internacionais, sendo que se o objectivo é a massificação do consumo da sua música será fundamental produzirem de acordo com as oscilações artísticas e estéticas aceites pela generalidade dos consumidores.”
Espero ter contribuído para o refreshment destas discussões.
Abraços
Rui Pintado
Além das suas múltiplas actividades ligadas à música, Rui Pintado integra desde Fevereiro os Orangotang. Aqui fica "So", actualmente na playlist da Best Rock e a passar nas 5ªas feiras da Antena 3. Espero que gostem! LSO.
22.3.06
Trabalhadores do Comércio - regresso em breve
Excerto da entrevista aos Trabalhadores do Comércio, a ser transmitida, na integra, numa das próximas emissões do programa Atlântico.
18.3.06
Júlio Isidro prepara novo programa musical
Baseado na fórmula da Febre, Júlio Isidro projecta um novo programa de televisão em que o apoio à música portuguesa seja efectivo, incluindo a necessária e premente divulgação de novos valores.
Como escrevíamos na crónica, “Foi você que pediu um boom?”, será que Júlio Isidro vai surpreender e ficar, uma vez mais, ligado ao lançamento de uma nova geração de nomes?
Luís Silva do Ó
Excerto da entrevista a Júlio Isidro, a ser transmitida, na integra, numa das próximas emissões do programa Atlântico. Agradecemos à JIP as facilidades concedidas.