26.4.06
Um mergulho no saque 2
Porém, quando alguém ousa evoluir, o seu pensamento é apelidado, pela maioria barulhenta que se escuta em surdina, com saborosos e quentes elogios:
“Incoerente”, “interesseiro”, “vira-casacas” ou “vendido” são alguns dos epítetos com que são brindados, como se as nossas convicções fossem imutáveis, à semelhança do clube de futebol da nossa eleição. Aprecio quem tem capacidade de evoluir, pois, sem evolução, tudo isto seria uma monotonia e passaríamos os dias a lutar por “mais do mesmo”.
Vem esta lenga-lenga a despropósito de “O outro lado”, crónica honesta e emotiva de Orlando Angelino, meu antigo colega de rádio e que sempre se manteve na linha da frente das novas tendências musicais. Sentir-me-ei tentado a afirmar que “o outro lado existe”, como diriam os Delfins em 1988, numa época em que tínhamos uma maior quantidade de bares com música ao vivo e em que o defunto Blitz (vai renascer enquanto revista mensal) divulgava o dobro da agenda dos dias de hoje.
Como aqui escrevi na minha crónica anterior, o tema da “pirataria” é apaixonante porque mexe com vários aspectos essenciais da nossa indústria e porque é, em si mesmo, fracturante. Defender o direito dos autores e detentores de uma obra (seja ela musical ou outra qualquer) pode coincidir com o interesse das editoras, mas, ultrapassa em muito essa classe. É um direito que todos os criadores têm e que merece ser respeitado. Creio que, ao longo dos tempos, as editoras têm feito boas e más apostas e não ousei “defender” quem não precisa de advogado.
Quando o grupo nuclear em toda a música moderna (Beatles) é recusado por uma editora (Decca) compreende-se o quão aleatória e polémica pode ser a decisão de contratar e de rejeitar.
Quando os responsáveis das editoras recusam apostar em projectos nos quais acredito, alguém estará equivocado. Normalmente, tenho acertado nos “palpites” e recordo-me de ter previsto o fiasco da maioria das apostas de um catálogo, feito à pressa, por um fugaz A&R português. Em períodos temporais diferentes, o grupo k2o3 foi aposta de Xutos & Pontapés e de UHF para as suas primeiras partes. Na saudosa Super FM do Barreiro, o tema “Vaquinha” tornou-se um clássico. De entre concertos fantásticos, enquanto “cabeças de cartaz”, e cheios de público, recordo um, verdadeiramente assombroso, que rebentou o Lótus Bar pelas costuras. Jamais vi um “olheiro”, de alguma multinacional, presente em espectáculos dos k2o3. Mas, ao contrário de muitos, eu admito estar enganado, demasiado envolvido pessoalmente ou do meu ouvido me atraiçoar. Tenho de reconhecer que a minha avaliação será sempre menos consubstanciada do que a realizada pelas editoras. Afinal, são empresas que visam o lucro e, certamente, terão estudos de mercado que eu desconheço. Todavia, mesmo tendo o lucro como perspectiva, algumas das multinacionais presentes no nosso País não fizeram questão de agarrar o fenómeno pimba. Pelo contrário, esse sucesso de vendas foi aproveitado, principalmente, por pequenas editoras independentes que cresceram, como cogumelos, durante esse período. Apesar de ser sempre popular “bater” nas editoras, sobretudo nas multinacionais, afigura-se como justo reconhecer que, em matéria pimba, os principais responsáveis estarão noutro lado.
O que está em causa é perceber se a presença das editoras em Portugal é vital para o futuro da música portuguesa ou se basta ter por cá um escritório de representação.
Ainda se lembram do vasto catálogo nacional que a BMG construiu no início dos anos 90 e que sumiu subitamente? Com a crise actual corremos o risco, real, das restantes multinacionais fazerem o mesmo e passarem a ter somente escritórios de representação em terras lusitanas - o que, na minha perspectiva, teria sempre péssimas consequências para a nossa música.
O que constato não deve ser confundido com uma defesa das editoras. Mais do que isso, a causa é bem superior e chama-se música portuguesa.
Claro que o ideal seria que todas as músicas estivessem gratuitamente ao alcance de todos. Era o sonho de todos os criadores e de todos os apreciadores de música. Contudo quem financiaria uma situação destas?
Seria o Estado, à semelhança do que faz com o teatro e o cinema? (ver crónica “Um projecto global”).
Passaríamos a ter uma taxa de direitos de autor incluída nos pagamentos aos ISP's?
As editoras ampliariam a sua área de negócio e passariam a controlar o management e o agenciamento dos seus novos artistas?
Obviamente que os tempos actuais exigem maior imaginação por parte dos responsáveis das editoras, porquanto, não basta combater a pirataria. A Internet possui inúmeras vantagens e oportunidades, algumas das quais já começam a ser exploradas.
Mas, as editoras não poderiam ir um pouco mais longe e promover a venda directa de CD’s?
É sabido que as margens de lucro utilizadas por armazenistas e revendedores são parte significativa no bolo que constitui o preço final a pagar pelo consumidor. Claro que isto afectaria os intermediários. Todavia, a realidade da Indústria mudou de tal forma, nos últimos anos, que creio pertinente implementar um portal de venda directa. Por outro lado, não podemos esquecer que existe cada vez mais gente que realiza as suas encomendas pela Internet, sobretudo em sites estrangeiros. Naturalmente, estas compras de música não entram na facturação das nossas editoras.
E que tal fomentar o espírito coleccionador?
O prazer de adquirir e de ter “o disco verdadeiro” devia ser estimulado. A minha geração (e muitas outras) tiveram e têm este espírito de coleccionador na sua relação com a música e com os discos religiosamente comprados. E, recordo-me que eu gravava as emissões do top inglês, escutado na onda curta da BBC, não inviabilizando, antes pelo contrário, a aquisição do single e/ou do álbum.
A potencialidade de divulgação que a Internet possui deve ser uma aposta crescente. Com o surgimento de rádios “feitas à medida” (só no blogue temos disponíveis 3 emissões diferentes utilizando o serviço cotonete), a alternativa às rádios tradicionais existe e pode ser um aliado das editoras. As editoras não poderiam disponibilizar um serviço de rádio via Internet com exclusivos e lançamento antecipado de novidades? O custo seria muito baixo quando comparado com o previsível beneficio.
No seguimento da crónica de regresso de António Manuel Ribeiro (que saúdo pela corrosão habitual e respectivo conteúdo), permitam-me que sublinhe a questão financeira. E porque não experimentar lançar os novos CD’s de música portuguesa a um preço máximo de 10 ou 12 euros (venda ao público)?
Com um preço de lançamento mais acessível não teríamos mais gente a comprar e a adquirir o gosto (perdido) de coleccionar o “original” em detrimento do “virtual”? Até acharia interessante que o preço de lançamento, nas primeiras semanas, fosse inferior ao dos meses seguintes. Ajudaria, efectivamente, à promoção dos novos trabalhos, à sua entrada nos diversos tops e minimizaria o “interesse” pelo saque na net. Porque não uma experiência neste sentido por parte das nossas multinacionais?
Estas são ideias que se juntam a tantas outras que têm ficado guardadas no baú do nosso arquivo. Em jeito de conclusão, direi que seria certamente mais simpático para a maioria dos nossos visitantes e leitores condenar as editoras e lançar-lhes fortes críticas por não terem sabido prevenir esta crise e pelo que poderiam ter feito pela música portuguesa ao longo das últimas décadas. Chorar sobre o leite derramado e falar sobre cenários alternativos pode ser muito motivante para debates e discussões, mas não irá solucionar o problema do presente.
Porém, mesmo sem perder um mililitro do meu sentido critico, não posso permanecer impávido e sereno, a reivindicar mais e melhores edições de música portuguesa, quando toda a indústria musical se encontra a viver um terramoto de grau 8 na escala de Richter.
Uma coisa é certa, do meio dos escombros deste violento sismo, uma nova realidade irá emergir. Resta saber qual.
Mudam-se os tempos, mudam-se as (minhas) prioridades…
Luís Silva do Ó
19.4.06
Assim me inscrevo
Estou de regresso depois de algum tempo no limbo das tarefas. É bom saber que este blogue se agita e há gente responsável a emprestar-lhe oxigénio.
Amiúde, nesta viagem musical, comprei agitações e leviandades trôpegas só por ter dito o que pensava: não se esqueçam que estamos no país do pântano costumeiro, o país dos que marram de lado e desviam os olhos.
Se puder e souber continuar a escrever neste espaço – afinal os UHF eram designados em 1980, pelo semanário de música ROCKWEEK, O Canal Maldito –, irei falar de alguns desses episódios que apimentam a vida e desfazem ilusões: assim se fez e faz a história da música.
Neste primeiro texto vou aflorar (estamos na Primavera) alguns assuntos que estão na ordem e na melodia.
Política financeira
Valerá a pena comprar um novo CD por 18/19 Euros e quatro meses depois vê-lo à venda com um desconto de 10 (!) Euros? O que levará as editoras a não nivelarem, baixando, o preço inicial de venda?
Esta política é má, é saloia, mas é nossa. Os artistas não ganham, iludem-se. Ganhará alguém dentro da indústria?
Esta habilidade comercial conduz o mercado a retardar a aquisição dos novos discos, que deixou de ser imperiosa, esperando-se pelos “saldos”. Perde-se assim o fenómeno da novidade/sucesso.
É sabido que são os miúdos que agitam a indústria, ou eram, miúdos como eu fui, a juntar dinheiro para comprar um disco que se começava a saborear pelo toque da capa na discoteca, semanas antes de o poder adquirir. Mas agora os miúdos usam Ipod, os novos carros já o trazem, anulando a magia do disco novo. Os miúdos de hoje trocam músicas copiadas que vão continuar a copiar, porque a política financeira das grandes editoras (com as pequenas atrás) tem sido errática, apostada no imediato, perante o sufoco dos tempos que tudo mudaram.
O CD é um produto caro para o nosso nível de vida. Na indústria discográfica o efeito Titanic está à vista.
EMI
Um exemplo e um selo: visitem a Worten e abasteçam-se do catálogo nacional da EMI. Muitos foram discos de ouro e platina. Mas ainda estão à venda, ou só agora, a baixo preço. A Universal e a Sony/BMG correm no mesmo sentido.
Nesta mais recente passagem dos UHF pela EMI, acabei por compreender o significado do copy control. Toda a gente sabe, a começar pelas trutas britânicas, que o famigerado software não passa de um disfarce, uma cerca antes do pulinho. Os entendidos da informática riem-se; as cópias mantêm-se.
Então porque se persiste na colocação do copy control que onera o valor do CD? Diria que o resto do mundo anda a pagar um tributo fixo à casa inglesa, o que sempre ajuda nas vendas em queda. Num país como Portugal, as vendas ressentem-se.
Um dia o David Ferreira (patrão da EMI) disse: andamos todos a lutar pela maior fatia de um bolo cada vez mais pequeno. Maior lucidez não ouvi. Repensar é preciso, sem maquilhagem.
O IVA
Por duas vezes, enquanto director da música ligeira da SPA, insisti com a questão do IVA, primeiro nos 17% e depois a 19. Agora que está a 21%, ou seja, mais de um quinto do preço final de um CD, que vamos fazer para colocar esta taxa ao nível da aplicada no livro?
É uma questão entre o camarão, de um lado, e o saber, do outro, uma questão de inteligência, uma questão política e cultural, mais útil do que prender os passadores de cópias pirata. A doença deve ser compreendida pela sua génese. Cuidar apenas dos sintomas é prolongar a causa.
Mas a música é feita por marginais que gostam de tocar guitarra e fumar charros por aí, incapazes de fazer uma greve, incapazes de serem uma classe, pouco respeitados e pouco respeitáveis, dirão os ilustres eleitos da nação que se baldam à Assembleia desta República das bananas a que tragicamente chegámos – maioria oblige.
A rádio que temos
Quando há mais de um ano aqui escrevi que a rádio estava a perder ouvintes de uma forma assustadora, houve quem se risse e houve quem se agitasse. Estes meses depois, com uma nova lei de protecção à música portuguesa aprovada no Parlamento, quais são os resultados práticos? Alguém se rala com este país opado por desconhecidos de renome?
Quase todas as rádios têm consultores externos – americanos, alemães, ingleses ou irlandeses – e eu não percebo porquê. Será uma forma de alijar, ou esvaziar, a responsabilidade de dirigir o conteúdo de uma estação radiofónica? Além da música que nós lhes importamos, conhecerão esses consultores a nossa? Qual será o benefício da programação estar entregue a um tipo lá longe? Quem vai ter a coragem de dar o primeiro passo e desfazer a mania e o medo? Ou será que esta rádio em Portugal já não é nossa, como não é a Avenida Fontes Pereira de Melo, a Praça do Saldanha, a Avenida da República, quase todo o bairro que tem o nome de Parque das Nações? Será que antes havia rádio em Portugal? 1640, da janela do Paço, poderá repetir-se?
Quanto à falsa questão da produção nacional ser curta: se a continuarem a estrangular, vai definhar. Um CD não pode apenas valer uma, talvez duas canções. É curto, é redutor, é cinismo puro, não define a obra. Estarei a sonhar?
Gostaria de dizer que a rádio se fez para servir a divulgação da música de cada tempo – podem-se rir deste quixotismo. Hoje a rádio programa resmas de anúncios com música envelhecida a fazer de separador e tudo acaba antes de começar.
Que tal os noticiários repetirem as notícias de há 15, 20 ou trinta anos atrás? Há canções repetidas que me lembram as minhas namoradas que já envelheceram ou casaram ou as duas coisas. Que porra faz esta canção dos Doors de 71 nos meus ouvidos? Tenho que subir as escadas para o Céu com os Led Zeppelin às nove da manhã e logo a seguir às onze e meia?
Devolvam-me a puberdade, por favor. Esta rádio a isso obriga.
A lei e o filtro
Pessoalmente estou-me borrifando para a nova lei, e a velha, também. A primeira, ufanamente erguida pela esquerda de 82, nunca foi aplicada – não foram criados mecanismos de controlo. Logo, um belíssimo trabalho para-lamentar. A nova, perdoem-me os colegas recentemente despertos para a causa, está-lhe na peugada. Mas o que custa, sinceramente, é saber que neste país é preciso ameaçar com leis para podermos ouvir o que por cá fazemos. Eu pensava que, num país que se quer europeu, civilizado e fã do choque tecnológico, passar na rádio música portuguesa para os portugueses era banal. Mas não. Há um filtro.
25 Anos de Febre
Saudades não tenho, de nada, nem do futuro. Mas estivemos lá, na Febre de Lisboa, e foi engraçado rever os meus companheiros da década de 80. Não vi por lá os Roquivários e ainda bem. Porque, é preciso dizê-lo, havia muito lixo musical naqueles tempos, muita fraude, como também hoje há.
Uma coisa ou outra retenho das duas Febres: cantávamos todos em português, falávamos da vida, das personagens e da sociedade envolvente – curiosamente, algumas daquelas canções estão actuais. Naquele tempo ninguém soprava aulas de inglês com ideias de Peniche.
Tocámos todos ao vivo, ou quase todos. Teria sido bom que a RTP tivesse a seriedade de ter referido, quer em Lisboa quer no Porto, quem o não fez. É uma questão de verdade em televisão: pelos colegas e para o público.
Quanto ao Mestre-de-cerimónias Júlio Isidro: muito lhe devemos, músicos e indústria. Já se fala que ele vai recomeçar e ainda bem. Precisamos de mais tempo naquela janela.
Uma questão de alterno
Ou uma questão alternativa. Estamos num tempo em que tudo – e a música ops! – tem de ser alternativo, valha isso o que valer: se entendermos por alternativos aqueles discos com capas onde nada se consegue ler – títulos das canções, letras, autores, músicos, estúdios e o resto.
Não que eu tenha algo contra o que é alternativo. Só não me apetece ser um fundamentalista de uma nova religião que exclui tudo o resto. As mentes pequenas criam demasiados campos de concentração para a diferença, quando é nessa quantidade diferente que está a manta feita de retalhos que é a música popular.
Este nicho, a que damos muita importância porque nós adoramos nichos e projectos, faz-me lembrar o teatro que o 25 de Abril de 74 nos trouxe e as suas companhias cogumelos: ficaram os actores e os críticos a aplaudir outros actores. O público, fugiu.
Os projectos, quase sempre, usam o martelo da indignação para se imporem. Mas é giro ser-se alternativo. Na FNAC está à venda, por exemplo, The Alternative Álbum, onde entram os Coldplay. E o avião privado que os transporta, também lá cabe?
Humanamente
Tenho tido uma imensa vontade de falar do disco póstumo sobre o António Variações, designado por “Humanos”, e sei que algumas capelinhas vão acender as luzinhas como se fosse Natal em Abril: a velha questão da vaca sagrada, aquilo que o homem de Amares não foi.
É um facto que a indústria pulou com o sucesso deste disco, os resultados foram excelentes, o que é bom para todos os que defendem a canção portuguesa. E para o autor que está na outra dimensão, que nível de continuidade?
Penso em mim, que fui seu contemporâneo, ligado ao seu aparecimento ao vivo, com quem privei na noite de Lisboa. Recordo a sua inaptidão para tudo isto, a sua timidez, e a procura pessoal de um formato musical novo, uma canção popular e ligeira que trouxesse o fado no ventre e o acaso da vida vestido. Lembro-me desse Variações, o artista kitsch que conheci, ignorado pelos seus contemporâneos que depois correram a chorar sobre o caixão a sua genialidade, esquecendo a solidão e a dúvida em que os criativos sempre naufragam.
Lembro-me do diamante que a “Canção de Engate” (enorme a versão dos Delfins) encerra e não consigo digerir a coerência na recolha destas canções proibidas. Onde é que ficou “Toma o comprimido (que isso passa)” e as maquetas que o grupo de Odivelas gravou com ele e nós ouvíamos no parque dos Estúdios da Valentim de Carvalho em 1980, enquanto ele aguardava que o deixassem gravar – o contrato era anterior ao dos UHF?
Um dia escrevi: O bom poeta / é um homem morto / Tudo lhe presta / E dói-lhe pouco (*). A evidência continua.
Não me confundam. Por ter estado calado não significa que não tenha estado lá. Uma cassete que guardo, desse dia 27 de Maio de 82 na Feira Popular, diz mais do que estas palavras e do que outras escritas por quem, de fraldas, ouviu falar de um tempo. A Manuela Gonzaga, que escreveu a sua biografia a editar brevemente, vai repor alguma verdade na estória.
António Variações mal teve tempo para iniciar uma carreira, ficou a meio de quase tudo, não lhe conheci fãs e aficionados. Enfim, em “Humanos”, salvam-se as vozes excelentes e o mérito da EMI.
(Guardo um dossier de temas aleijadinhos a que chamei Baú de Canções. Vou queimá-lo.)
(* “Um Tiro na Solidão”, in Santa Loucura, 1993)
António Manuel Ribeiro
18.4.06
UHF: Democracia participativa
Os UHF prometem muitas surpresas nas escolhas dos alinhamentos desta digressão. Segundo o grupo de Almada, "os ensaios têm sido densos, duros e recompensadores", sendo voz corrente entre o quarteto que "há muito não se preparava uma digressão nestes moldes".
É, ainda, proposto um desafio aos fãs e amigos para que participem na escolha do repertório desta digressão que irá conduzir à gravação do primeiro DVD dos UHF.
Assim, quem quiser pode votar em sete temas que gostasse de ver incluídos. O primeiro tema escolhido valerá sete pontos e o sétimo um ponto.
As votações devem ser dirigidas para info@uhfrock.com e devem ser realizadas até ao fim deste mês de Abril.
13.4.06
Eduardo Simões comenta "O outro lado"
Em primeiro lugar gostava de saudar o Canal Maldito. Não sendo um especialista em blogs mas apenas um observador ocasional, tenho lido com agrado alguns dos posts e não posso deixar de felicitar os responsáveis pelo CM por conseguirem um fórum de discussão civilizado onde a liberdade de expressão é exercida de uma forma responsável e... com assinatura!
Dito isto, tomo a liberdade de comentar o texto de Orlando Angelino, que levanta, de forma séria, questões importantes. Começo por concordar com o facto de a Internet possibilitar uma muito maior divulgação dos trabalhos dos novos talentos, Portugueses ou não. Todavia, penso que o panorama actual do mercado de concertos não se deve apenas à Net: houve uma evolução enorme no mercado do espectáculo e aí penso que foram os próprios hábitos do público que mudaram. Primeiro com os concertos de Artistas/Grupos estrangeiros, depois com o 'boom' do rock Português, mais tarde com a presença regular dos nossos músicos nas televisões, nas rádios - muitas vezes em programas "de autor" especializados na música mais actual. Para que isto fosse possível houve ainda outros contributos, tv por cabo, uma exposição enorme da música nos mais diversos locais (bares, centros comerciais, gares de transportes, centrais telefónicas, etc. etc., ao ponto de hoje quase não haver negócio digno desse nome que não esteja "sonorizado"). Há pois um conjunto de factores que alterou tudo e não um factor isolado, por mais importante que seja.
Relativamente às opções editoriais sobre a música dita "pimba" (não sou partidário de rotulagem qualitativa para qualquer tipo de música), também discordo. Este tipo de música sempre existiu, cá como lá fora, e, no passado não foi responsável por nenhuma quebra de vendas, antes pelo contrário. Também agora não deverá ser "diabolizado" como responsável por qualquer crise. De resto, no P2P, também se encontra abundantemente, esta música. Em relação á rádio, a Indústria, muito pelo contrário, tem vindo nos últimos anos a reivindicar alto e bom som, quotas para a música Portuguesa e, não menos importante, quotas para a passagem de novidades. Não defendemos nem a massificação do repertório estrangeiro, nem a "nostalgização" da rádio. Acredite, Orlando Angelino, que teria sido muito mais fácil ficarmos calados! A campanha da PLAM-Plataforma pela Música (com o apoio incondicional e desde a primeiro hora da AFP) tem sempre custos...
Quanto ao papel editorial das multinacionais, parece-me o seu comentário um bocado injusto a menos que se explique por um excesso de subjectividade. Basta darmos uma vista de olhos nas edições que se foram fazendo no período que refere.
Sobre se o fim dos "downloads ilegais" possibilitaria maior investimento em novos talentos, concerteza que sim. Editar repertório mais específico para o ver de imediato "ripado" na net em larga escala não é um investimento atraente para ninguém de bom senso. Neste ponto, cabe-me reafirmar o que já expliquei muita vez: as editoras são sociedades comerciais que, por definição, visam o lucro. Acontece que só o reinvestimento do lucro possibilita a aposta em novos talentos.
Os lucros que refere no iTunes e nos telemóveis estão, infelizmente, muito longe de poderem compensar, a quebra enorme que o mercado sofreu. Temos esperanças e trabalhamos para que isso aconteça. A campanha da AFP relativamente ao P2P, ao contrário do que alguns disseram, não é para assustar as pessoas, é para "abrir caminho" aos negócios digitais legais.
O exemplo dos Artic Monkeys, é um bom exemplo, foram eles próprios que quiseram, numa fase inicial, disponibilizar o seu trabalho gratuitamente. Foi uma opção consciente dos próprios, não foi uma decisão de terceiros, ou de milhões de terceiros. Depois, segundo julgo saber, partiram para outra via e assinaram com uma editora.
Em França, há de facto uma corrente que defende um esquema de compensações que eu diria são minimalistas. Todavia, não obteve a consagração legislativa que alguns chegaram a celebrar em Dezembro passado. De resto, esquemas de substituição de direitos exclusivos por remunerações simbólicas, é tapar o sol com a peneira: se isso fosse posto em prática em França, dentro de um ou dois anos, verificar-se-ia uma redução drástica do número de edições o que, num país com uma quota de produção nacional de cerca de 50%, seria criminoso para a Cultura Francesa.
Por último, tem toda a razão o Orlando Angelino quando diz que a Indústria foi lenta a abraçar algumas novas tecnologias. Todavia, está a recuperar a bom ritmo. Neste momento já há 3 serviços legais em Portugal para download a partir da Net. São mais de 1.100.000 de canções a cerca de 1 Euro cada uma, e ainda há descontos possíveis.
Se os preços são justos ou não, penso que a questão se deve colocar em relação a todos os bens e serviços que queremos. Se houvesse possibilidade de baixar preços para aumentar as vendas, há muito que as editoras o tinham feito. Já viu o preço a que estão outros bens culturais e o que aumentaram nos últimos 12 anos comparativamente com o que (não) aumentou o CD? Pense um pouco no que custava um bilhete de cinema, de concerto ou um livro há 12 anos.
Com os melhores cumprimentos e votos para que encontre sempre mais música que goste,
Eduardo Simões
12.4.06
O outro lado
Mas atenção que não venho aqui defender a pirataria, seja ela de música, filmes, jogos ou outra coisa qualquer. Apenas vou tentar dar uma opinião mais diversificada de quem tem cerca de 600 cds originais em casa e que não deixou de comprar os originais só porque eles existem na internet sem custos.
Antes da internet surgir, o mercado de música moderna portuguesa estava muito mais estagnado do que agora pois a divulgação que havia era 80% bandas internacionais, 17 % música popular portuguesa e devia de restar pouco mais do que 3% para divulgar a boa música moderna que se faz no nosso país.
E os concertos não decresceram, pelo contrário, aumentaram em grande número, mesmo sem as ditas salas para tocar.
Basta irmos ao site http://www.epilepsiaemocional.org/agenda ou ver as páginas do Blitz para concluirmos que há mais concertos seja em que ponto do país fôr e não só nos grandes centros.
Será que a quebra de 40% das vendas em Portugal não será devido às opções que as próprias editoras tomaram de editar artistas duvidosos e esquecer a boa música portuguesa que as pessoas querem comprar? Será que esse decréscimo não foi quase todo na dita música pimba, pois essa é direccionada para as classes com menos poder de compra?
Conheço vários músicos e bandas com projectos interessantes para editar e nenhuma editora apostou nos seus projectos; e pelo menos dois desses que acompanhei de perto tiveram que o fazer em edição de autor, sem distribuidora, porque nenhuma editora lhes pegou.
Por outro lado foi esta mesma indústria que andou anos a impigir-nos música anglo-saxónica 24 horas por dia na rádio portuguesa, porque isso lhes dava mais lucros: é que evitavam os custos de estúdio, de produção, de músicos, de criação gráfica, etc.
E a música moderna portuguesa? Tirando um ou outro caso de sucesso, se formos analisar os ultimos 15 anos pouco ou nada de novo foi editado pelas multinacionais, mas sim por pequenas editoras, muitas delas já extintas.
Espanto-me agora ao ver aqui neste blog e noutros de música portuguesa muitos a defender as editoras, quando foram eles mesmos os maiores críticos há tempos atrás.
Ou como é possível que alguns artistas que lutaram e reclamaram das explorações das editoras, do sistema fechado musical, das dificuldades que este sistema de "máquina de fazer dinheiro" levanta (principalmente aos jovens artistas), vêm "hoje" defender essa mesma máquina de fazer dinheiro?
Será que sem os dowloads ilegais havia mais música portuguesa editada e divulgada?
E nem vou falar aqui da questão do IVA, pois essa já foi abordada aqui há algum tempo atrás.
Muita gente fala do decréscimo de vendas de cd`s, mas e então os lucros enormes que estão a acontecer com sistemas como o iTunes ou os toques de telemóveis?
Quer se queira quer não a internet tem esse grande dom de tornar acessível ao grande público artistas que de outra forma nunca seriam escutados e caíriam no esquecimento. Vejamos o caso dos ingleses Artick Monkeys que se divulgaram a eles próprios através da internet e o seu álbum de estreia foi o mais vendido de sempre na Inglaterra para um artista estreante (250 mil cópias).
Nos Estados Unidos os Panic At The Disco divulgaram a sua música através dos chamados P2P (eMule, Limewire, etc) e praticamente 500 mil fãs compraram o álbum quando saiu nas lojas, mesmo tendo as músicas no computador.
Em França existe actualmente uma movimentação para a legalização da troca de música em P2P, com compensações alternativas para direitos de autor, editoras e distribuidoras, como acontece actualmente na difusão pública de música em rádios, restaurantes, bares, discotecas, etc.
Como referi no inicio deste artigo, não defendo a pirataria informática, e até defendo a punição de quem faz dowloads ilegais na internet, mas gostava apenas que existissem mais alternativas na "rede portuguesa" e a verdade é que elas não existem, tirando a compra de uma simples música por cerca de 1 euro e pouco mais do que isso.
A própria indústria (seja ela discográfica ou cinematográfica) atrasou-se muito e aos poucos vai tentando formas de contornar a tecnologia, mas acho que não é através de multas que o vai conseguir. Acho sim que deveria tentar primeiro procurar alternativas viáveis e com um preço justo para quem não se quer deslocar a uma loja para comprar um cd a 20 euros.
Já agora vejam este link: http://arstechnica.com/news.ars/post/20060406-6541.html
Dá que pensar?
Orlando Angelino
Festival Santos da Casa
Em Abril e início de Maio, Coimbra vai ser invadida pela música portuguesa, com concertos, exposições e palestras.
Paralelamente ao festival, que tem início a 19 de Abril, decorre no TAGV uma exposição de memórias de música portuguesa.
Mais informações em http://santosdacasa.blogspot.com
3.4.06
Um mergulho no saque
E se o negócio da música está mau em todo o mundo, a música portuguesa ainda se encontra em pior estado. As vendas têm baixado e as apostas das editoras têm de ser bem reflectidas. Os novos músicos não editam, não têm espaços para tocar, não passam na rádio e não surgem em programas de televisão. Esta sequência é aleatória, mas o ciclo vicioso está a provocar danos em toda uma geração de criadores sem possibilidades de furar. Contudo, não são somente os novos músicos a terem problemas com o momento presente. Tirando uma minoria de consagrados, temos um vasto leque de artistas com passado relevante que se encontram a atravessar um limbo prolongado, pouco habitual e indesejável.
Aproveito para um aparte a que voltarei em próxima crónica. Ao contrário de algumas vozes, não acredito que os veteranos tapem lugares às novas gerações. O mercado internacional mostra que coexistem novos e antigos valores. Os U2 ou Elton John não bloqueiam o surgimento de outros projectos de grande dimensão porque existe mercado para todos. Porém, para que tudo funcione é imprescindível que exista mercado e, nos dias de hoje, corremos o risco de o matar…
Há 25 anos, o “Mãozinhas” adorava ir de noite ao supermercado “fazer compras”. Costumava levar todos os bens que lhe apetecesse e depois deixava as portas escancaradas para que todos os amigos pudessem repetir os carregamentos.
Já o “Brocas” era um destravado que chegava depois do "Mãozinhas" fazer o "trabalhinho" e, além das suas “compras”, mantinha as portas abertas e distribuía tudo o que continha o supermercado.
Entrando sorrateiro, o “Pantufas” só levava umas coisinhas e tentava sumir rapidamente com medo que algum segurança o visse.
Em pleno século XXI, estes 3 rapazes modernizaram-se e deixaram o desconforto das saídas nocturnas. Operam hoje nas suas casas e são especialistas da negra arte do saque pela Internet.
O “Mãozinhas” permanece o mesmo palerma de sempre. Agora, até se dá ao luxo de comprar CD's para depois os ripar, os compactar com todas as imagens que integram os discos e os disponibilizar para que possam ser sacados na Internet.
O “Brocas” aproveita o trabalho do “Mãozinhas”, saca os discos e incentiva a continuação do vil saque ao manter esses ficheiros acessíveis para posteriores uploads.
Por último, o “Pantufas” tenta não partilhar, mas, vai sacando sempre que pode. Ainda assim, enquanto “saca e não saca” acaba por ir permitindo que outros saquem os fragmentos que ele vai conseguindo transferir para o seu computador.
A diversidade do que se encontra disponível na Internet é impressionante. Mesmo sem contribuir activamente para o fenómeno, conseguimos visualizar um vasto leque de exemplos do que se passa no presente. Quase tudo se consegue sacar pela Internet: aplicações e jogos de computador, séries de todo o género, filmes ripados de DVD's ou filmados durante a sua exibição nas salas de cinema, etc. E, no âmbito daquilo que mais nos importa nesta crónica, na música, além das edições recentes, consegue-se encontrar de tudo um pouco… até trabalhos nunca editados em formato digital!
Há 15 dias, tive oportunidade de conversar com José Cid e confirmei que o “Cantando Pessoas Vivas” (disco de rock progressivo gravado pelo Quarteto 1111 em 1975) não existia em formato CD. Todavia, este disco encontra-se disponível nos programas de partilha de ficheiros.
Também o nosso amigo António Manuel Ribeiro tem poucos trabalhos recuperados para o formato CD. Contudo, o disco ao vivo “No Jogo da Noite” (que tenho em LP) encontra-se, não só, disponível, como em versão remasterizada!
Considero que estes e muitos mais álbuns deviam ser lançados em CD, mas, o que me interessa ressalvar aqui, hoje, é o nível de sofisticação a que as coisas chegaram.
Existem pessoas que se dão ao trabalho de passarem som analógico para digital e de cuidarem profissionalmente do produto final antes de o disseminarem pela Internet…
Estes rapazes contribuem, em escalas diferentes, para o descalabro de toda a indústria musical e enganam-se aqueles que consideram que os artistas não necessitam das editoras para nada.
A principal diferença entre o pirata dos livros de história, barbudo e de arma em riste e o pirata dos nossos dias é que, antigamente, ele tinha consciência de que arriscava.
Actualmente, o sentimento de impunidade é absoluto e ninguém imagina que possa ser, num destes dias, apanhado e condenado. Considera-se impossível que sejam todos apanhados ao mesmo tempo, pelo que, a probabilidade é um argumento forte em prol da manutenção de hábitos, pois, existem dezenas de milhares de portugueses que aderiram ao sistema das borlas ilegais, muitos deles pagando upgrades aos fornecedores de Internet para usufruírem de maior quantidade de tráfego.
Apesar dos ISP’s operarem dentro da legalidade, pacotes que incluam 30, 40 ou 50 Gigas de tráfego internacional serão consumidos em quê? Em acessos à conta de email não será certamente…
Quem se habituou a sacar tem outro argumento falacioso e que se relaciona com o preço dos CD's. Como os discos são caros não faz mal piratear…
Pois, eu também sou daqueles que considera o preço dos discos elevado e sei que se os preços fossem menores a minha colecção já ocuparia o dobro dos móveis. Creio que um CD deveria ser tributado com o IVA de 5% (só aqui o custo baixava 16%) e que o preço não deveria ultrapassar um patamar de 10 ou 15 euros. E edições com mais de um ano deveriam ser sinónimo de “nice price”. Dando um exemplo aqui da “nossa casa” (alô Ulisses), encontrei, num destes dias, o primeiro CD dos k2o3, “És Capaz”, editado em 1996, à venda por 12 euros numa das maiores lojas de venda de discos deste País. Como é possível vender um CD com 10 anos a 12 euros!?
Pois, o preço dos discos pode não ser barato, contudo, eu não ando a roubar ecrãs de plasma só pelo facto de os considerar caros…
Regressando ao “sentimento de impunidade”.
A impunidade é meramente aparente porque, exceptuando alguns casos menos vulgares, o comum do cidadão faz cópias ilegais “à descarada”.
Como já dissemos, nós próprios realizámos alguns testes em que determinámos os ISP e IP's de piratas em programas P2P. Qualquer pessoa, mesmo sem grande formação tecnológica, poderá obter o mesmo resultado. Depois, bastará chegar ao responsável através dos mecanismos legais disponíveis para o efeito.
A ofensiva lançada recentemente pela AFP vai começar a dar resultados. Não que se termine em absoluto com a pirataria – nisso não acredito -, porém, não duvido que, com duras medidas restritivas, se consiga controlar esta questão.
Para primeira abordagem ao tema, centraria a preocupação na música portuguesa e seleccionaria os “Mãozinhas”, ou seja, aqueles que colocam as novidades online e faria deles exemplos a não seguir. Mais do que as dezenas de milhares de “Brocas” ou de “Pantufas” são estes “Mãozinhas” os principais responsáveis pela situação actual.
As editoras necessitam de ser rentáveis para continuarem a apostar em novidades e os músicos precisam de editar e de receberem os respectivos direitos. Esperamos que a ofensiva da AFP comece a surtir efeito dissuasivo.
Mesmo num País com um sistema judicial moroso como o nosso, ninguém gostará de arriscar ser apanhado se souber que o pode ser de facto…
Sacar não é legal, yô…
Luís Silva do Ó
P.S.: O tema é apaixonante e deve ser encarado numa perspectiva global.
1. É diferente o uso destes downloads para fins comerciais ou para fins de consumo pessoal. São casos diferentes e a Lei prevê penalizações diferentes. Contudo, o autor de uma obra é o detentor dos direitos da mesma e só o próprio (e a quem a mesma esteja licenciada) é que pode decidir disponibilizar a mesma gratuitamente ou não. O argumento, de alguns cidadãos, que afirmam "não serem piratas porque não retiram dividendos financeiros pela partilha que realizam" não anula um acto de incumprimento do respeito pelos direitos do autor e pela Lei que se encontra em vigor. O termo "pirata" pode não ser o melhor, mas, o termo "criminoso" é juridicamente correcto.
2. Existe muita gente que não "simpatiza" com as editoras. Porém, sem editoras, quem paga o investimento que é necessário realizar para gravar um disco? Quem paga o estúdio? Tirando alguns que possam ter recursos financeiros a maioria das bandas não pode dispor de centenas de contos para gravar um disco.
3. Downloads de canções protegidas e feitas de forma ilegal é uma coisa e downloads legais e gratuitos outra bem diferente. Quem disponibiliza gratuita e legalmente temas na Internet está a promover, inteligentemente, o seu produto. Pessoalmente, como já defendi diversas vezes, sou a favor do uso da Internet como meio promocional. O que nunca concordarei é com a disponibilização de qualquer música à revelia dos seus criadores.
Entrevista a David Ferreira, conduzida por BGP e LSO em 13 de Março de 2006.
"Pirataria na net" (2)
Em Portugal, o seu uso é corrente e tem aumentado ao longo dos últimos meses, enquanto o sentimento de impunidade deste tipo de actividade permanece entre os seus utilizadores.
Contudo, o sentimento de impunidade não passa de um mero "sentimento". Apesar de ser humanamente complicado responsabilizar todos os prevaricadores, a sua identificação não é tão "impossivel" como alguns pensam.
No site www.pro-music.com.pt estas e outras verdades são explicadas de forma directa e simples, enquanto algumas medidas no combate à pirataria são anunciadas para muito breve.
Durante o dia de amanhã, 4 de Abril, vão ser apresentadas as primeiras queixas-crime em Portugal relativamente à partilha não autorizada de ficheiros musicais nos serviços de partilha de ficheiros (P2P).
Todavia, esta abordagem activa e musculada por parte da AFP surge num momento em que as diversas empresas fornecedoras de internet continuam a aumentar as velocidades e os tráfegos disponibilizados para download.
Alguém acredita que tarifários com 30 Gigas de tráfego internacional sejam apenas utilizados para ler emails e outros fins lícitos?
2.4.06
"Pirataria na net" (1)
Entre 2000 e 2005, o mercado discográfico, em Portugal, desceu 47%, representando uma quebra acentuada no número de unidades vendidas, de 15.161.880 para 9.068.062.
Em termos de facturação a descida foi para quase metade: de 106 milhões de euros em 2000 para 56 milhões de euros em 2005.
O "Canal Maldito", ao longo da próxima semana, irá aprofundar este tema. Para iniciar o debate/reflexão, deixamos a opinião do Director-geral da AFP, Eduardo Simões, recolhida durante a apresentação do Plano de Combate à Pirataria Digital.
Nessa tarde foi ainda lançado um folheto-guia e apresentado o site www.pro-music.com.pt.
Entrevista a Eduardo Simões, conduzida por BGP e LSO em 13 de Março de 2006.
29.3.06
Resmas de má qualidade
Ora bem…
Sempre que se fala de música portuguesa, e no “esgrimanço” de argumentos, há sempre quem puxe para vários lados: as culpas, os méritos, as negligências…
Há, no entanto, uma premissa que nunca vi assumida, mas que me parece fundamental.
(Este raciocínio resulta de anos em garagens com bandas da mais variada proveniência estética, acompanhá-las ao vivo, gravá-las em estúdio, etc. Ora sigam…)
Se escolhermos uma banda portuguesa de garagem, que entre todos nós seja evidente a falta de qualidade ou nível ou, melhor ainda, uma banda que possamos assumir sem problemas que é má, que toca mal, que tem más canções, que tem má cena.
Se pegarmos nessa banda, e fizermos uma gravação, também má; se fizermos um CD com mau design e má apresentação… uma coisa que nos pareça a nós - que somos razoavelmente esclarecidos - MAL.
De seguida, marcamos uns concertos aos gajos. Sítios onde eles possam apresentar a sua “cagada”. Anunciamos a “tour” de apresentação por blogs, jornais, rádios, etc.
A conclusão que vamos tirar (e aposto…) é que nesses concertos vai haver gente que vai gostar, e esses vão falar com a banda e vão-lhe dizer que gostam, vão comprar o disco, vão levar para casa, ouvir, mostrar aos amigos; os amigos vão também gostar e passar aos seus amigos, and so on, and so on…
A banda, vai ouvir muitas vezes o usual… “Vocês têm muita qualidade”, “Como é que as rádios não passam a vossa música?” “Como é que nenhuma editora pegou em vocês?” “Este país é sempre a mesma merda!” “Porque é que vocês não vão tocar ao Sudoeste?”…
Ora bem, ora bem…
Mesmo não querendo ser mauzinho, eu digo (mas quem sou eu, dizem vocês… e muito bem) que destas bandas há muito por aí…
E temos muita linha escrita, e muito minuto de airplay e muito “passa a palavra” com bandas assim.
Com um bocadinho de sorte, os nossos rapazes, vão ter inúmeras referências na imprensa e rádios.
Ora bem, ora bem...
E quando, se estiver a discutir musica nacional e os seus problemas, os nossos rapazes, poderão, com alguma legitimidade, apontar o seu caso de inúmeros concertos, críticas positivas, encorajamento, referências na imprensa e no entanto, nem rádios nacionais, nem editoras, nem estrelato!
Serão, portanto, vítimas de um País que não reconhece os seus artistas e a sua cultura, ou apenas UMA MERDA????
Por difícil que vos pareça este exercício, por experiência própria vos garanto que já vi isto acontecer, à minha frente, muitas vezes.
Daí a minha postura pouco típica e pouco amada entre os meus colegas músicos.
Eu aceito que muitas músicas não entrem em playlists ou muitas bandas não consigam contratos, etc. E não coloco os meus projectos ou aqueles em que trabalhei fora deste raciocínio. Daí que muitas vezes quando levo com o tal “vocês têm muita qualidade” ou “Porque é que nenhuma editora aposta em vocês?” ou “isto devia passar na rádio” eu vou respondendo com um seráfico “talvez não passe porque não é suposto” ou “talvez não tenha editora porque não devia ter editora”.
Este raciocínio (entre outros mal amados) levou-me a colocar o seguinte post a propósito da nova lei da rádio num Fórum muito interessante (http://www.divergencias.com/)
“música é música, ou seja, alguém por esse mundo fora ker saber se os Abba são música sueca? Se a Bjork é música islandesa? Se os Rammstein são música alemã? Se os Air são música francesa? Se os Pizzicato five são música japonesa? Se os Sigur Rós são música islandesa? Se a Kylie Minogue é música australiana? Se os Rasmus são música Finlandesa?
Penso k as respostas são sempre “não”, o que as pessoas querem saber é se é música boa para os seus ouvidos.
Ainda
No futebol temos o conhecido fenómeno dos treinadores de bancada, não estará esta discussão sobre airplay de rádio, a trazer para a ribalta enormes quantidades de playlisters de bancada? (neste caso talvez playlisters de orelha).
Mais
Através de uma pesquisa simples no google ou outro, podemos encontrar por esse mundo fora emissões online de rádios segmentadas, talvez seja interessante procurar as equivalentes internacionais ás nossas nacionais… e veremos que as nacionais, nem estão fora dos parâmetros, e pessoalmente penso, que mtas vezes a vantagem é das nacionais em termos de gosto veiculado.
Isto para dizer que, obviamente, as rádios de maior preferência do público são as que divulgam conteúdos mainstream… nada de novo até aqui, o mainstream é mainstream, porque é abrangente, porque não choca porque chega ás massas.
A pergunta (do espeta a faca)
Teremos nós produção musical mainstream capaz e em quantidade de ser incluída entre o novo single do eminem, a nova dos Queens of stone age, seguida das Pussy Cat dolls, ou dos Linking Park feat Jay Z, ou dos U2, Coldplay, The Killers, etc.?
Não estou com isto a fazer juízo de valores em relação a qualidade praticada por estes nomes, estou só a afirmar, que estes nomes produzem mainstream e por isso são preferidos pelas massas e que as rádios k procuram as massas têm k se mover nestes territórios…
As restantes rádios, são de nichos e esses não são os que agregam as preferências das maiorias… mais uma vez não é um juízo de valor mas sim uma constatação que quem faz música para nichos dificilmente obterá o reconhecimento massivo do seu trabalho.
Em jeito de conclusão
Sejam estes pontos válidos ou não, cabe aos músicos de origem Lusa, a árdua tarefa de fazer música para que quem a ouve não se preocupa ou pondere a origem mas sim apenas se gosta ou não.
Ainda fundamental, perceberem que targets querem atingir e produzir trabalho em função das referências internacionais, sendo que se o objectivo é a massificação do consumo da sua música será fundamental produzirem de acordo com as oscilações artísticas e estéticas aceites pela generalidade dos consumidores.”
Espero ter contribuído para o refreshment destas discussões.
Abraços
Rui Pintado
Além das suas múltiplas actividades ligadas à música, Rui Pintado integra desde Fevereiro os Orangotang. Aqui fica "So", actualmente na playlist da Best Rock e a passar nas 5ªas feiras da Antena 3. Espero que gostem! LSO.
22.3.06
Trabalhadores do Comércio - regresso em breve
Excerto da entrevista aos Trabalhadores do Comércio, a ser transmitida, na integra, numa das próximas emissões do programa Atlântico.
18.3.06
Júlio Isidro prepara novo programa musical
Baseado na fórmula da Febre, Júlio Isidro projecta um novo programa de televisão em que o apoio à música portuguesa seja efectivo, incluindo a necessária e premente divulgação de novos valores.
Como escrevíamos na crónica, “Foi você que pediu um boom?”, será que Júlio Isidro vai surpreender e ficar, uma vez mais, ligado ao lançamento de uma nova geração de nomes?
Luís Silva do Ó
Excerto da entrevista a Júlio Isidro, a ser transmitida, na integra, numa das próximas emissões do programa Atlântico. Agradecemos à JIP as facilidades concedidas.
13.3.06
Confederação de almas
Às vezes tem de ser um rastilho a fazer-nos voltar a uma nova explosão. Assim aconteceu, a parte do núcleo duro dos “escritores” e frequentadores do Canal com a “Febre” de Júlio Isidro. Quem partiu para assistir a pensar que estava perante uma emissão do Canal de História, ao serem iniciadas as hostilidades, de imediato se apercebeu de que o sempre bom, reforçado por sangue novo e um impulso, é inspirador para os caminhos que a música tem de traçar. Júlio Isidro continua insuperável na sua forma de comunicar e no papel de divulgação da música portuguesa, ainda que tenha recorrido ao baú, sabe quem como eu viu, que esteve muito para além disso, com músicas novas a serem tocadas e o entusiasmo igual ou maior do que nos clássicos.
A conjuntura foi especial até porque durante a tarde, desse mesmo dia, estivémos à conversa com o John Watts dos Fischer-Z num hotel ali perto do Pavilhão Atlântico, um músico do imaginário, que não teve receios de experimentar coisas novas na sua carreira que além de musical é literária, no que tem uma afinidade também com o nosso amigo António Manuel Ribeiro, um momento de imaginário em plena tarde nublada mas luminosa da grande Lisboa.
Acontece que não é necessário fazer viagens no tempo – apesar de agradáveis como estas – para encontrar exemplos de persistência, constância e coerência numa carreira na música. Basta olharmos para uma série de bandas portuguesas e artistas a solo para vermos isso e, convenhamos, nem todos têm conhecidos nas editoras e rádios – como se isso fosse critério- a maior parte são gente como nós, apaixonados pela música, nada mais. Se se puder viver da arte que se perfilha, tanto melhor.
É também já recorrente e nostálgica a batida nas editoras e nas rádios, sabemos que há alguma falta de largura de vistas e as primeiras têm perdido inclusivamente bons negócios com música que valeria muito a pena, mas alguns têm despontado, todos vemos isso. Não teremos às vezes um velho do restelo a habitar em nós? Também já fiz essa pergunta ao espelho ou num local qualquer... e a resposta às vezes pende para o lado do sim. E mais irritado fico quando me vejo a justificar com a maneira de ser característica da nossa nacionalidade, e mais ainda quando na vez seguinte volto a fazê-lo.
A Rádio Arapuca
Devo dizer que sempre defendi uma quota de cerca de 20% de música exclusivamente de nacionalidade portuguesa nas rádios, excepção feita às em que o formato não o permite de todo. Também que metade dessa música fosse do último ano ou ano e meio. Não são apenas os estudos a que tive acesso, mais o bom senso, acho.
Ora aí está ela, a tão reclamada lei da rádio. Música portuguesa por decreto em airplay, ou melhor, em lista – também temos de ter ter pelo menos 60% de palavras portuguesas no texto.
A Lei aprovada em Janeiro estabelece quotas entre os 25 e os 40%, cabendo ao Governo fixar, todos os anos, o valor das quotas a cumprir.
Depois de várias revisões aí está o texto final. O diploma define como música portuguesa as composições musicais "que veiculem a língua portuguesa ou reflictam o património cultural português, inspirando-se, nomeadamente, nas suas tradições, ambientes ou sonoridades características, seja qual for a nacionalidade dos seus intérpretes." ou aquelas "que não veiculando a língua portuguesa por razões associadas à natureza dos géneros musicais praticados representem uma contribuição para a cultura portuguesa.".
A quota deve ser ocupada por "60% de música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos estados membros da União Europeia." e "35% de música cuja primeira edição fonográfica ou comunicação pública tenha sido efectuada nos últimos 12 meses".
Lemos o diploma, agora vamos interpretar e fazer futurologia, pela experiência presente de uma década de rádios nacionais e década e meia de locais, conhecendo o que as casas gastam para o bem e para o que podia ser melhor. Uma das primeiras tendências será preencher totalmente o que as quotas permitem de clássicos da naftalina portugueses, outra coisa que irá acontecer é abrasileirar ainda mais as rádios portuguesas até aos 40% da cota de nacionais permitida. A dita música de dois ou três acordes e letra magarefe a que se “convencionou” chamar “pimba” tem terreno fértil para procriar em algumas menos esclarecidas locais, felizmente as nacionais mantêm um certo tino na selecção. Também não é de admirar que os programadores / coordenadores musicais das rádios comecem a ter de fazer muitas contas de cabeça para cumprir a lei escrupolosamente, “ Ora deixa cá ver, destes 25% tenho de passar 60% de europeia portuguesa e mais 5% de portuguesa sem ser. Africana , brasileira, franceses que cantam português, 35% de música nova, aaaahhh onde é que eu ia? Ah, é verdade,o Sting contará?”. Ou até que se puxe ao incumprimento. E de que valor serão as coimas pelo não cumprimento? Uma coisa é certa, é possível passar até bem mais de música portuguesa do que exige a lei. A RDP passa em média 60% desde há algum tempo a esta parte e mantendo nível técnico nas escolhas...
Uma das primeiras coisas que salta à vista é a tristeza de ter de se legislar para se ouvir mais música portuguesa, a seguir vê-se que o que vai aumentar basicamente é a passagem de música brasileira, o que de resto já se nota em algumas rádios. E lá vamos nós, em Espanha pouco toca da América Latina, é mesmo é mais música espanhola. E sem qualquer tipo de preconceito em relação à música brasileira, mas recordem-se que do outro lado do Atlântico música portuguesa não entra e já não é uma questão de acesso, como bem sabemos, nem tão pouco de promoção. Por isso digo que a elevada passagem que existia de música de raiz brasileira já seria mais que suficiente, nem tão pouco invalida programas da especialidade.
Depois há aquela necessidade de contemplar em todos os diplomas legislativos a nossa proximidade com a lusofonia e a Europa, então, peca-se pelo exagero. Cai-se no engraçado de abrir uma possibilidade de outros nacionais da Comunidade Europeia começarem a cantar em português, sejamos realistas, alguém vai preencher este requisito, que não os próprios portugueses?
O problema da feitura de um projecto de lei parece ser recorrente, não se fala com quem percebe realmente dos assuntos, quem vive as coisas, os profissionais e académicos de cada ramo, depois o resultado prático das leis acaba por ser limitado e as intenções que acredito boas não se conseguem substanciar no plano prático, quando abrimos a porta da rádio ou passamos o cartão.
Não seria mais fácil, numa rádio de música e com dosagens de palavra cingidas a 10 minutos em cada hora aproximadamente, à parte de programas específicos, pedir duas músicas portuguesas por hora pelo menos, sempre com uma nova – sem serem sempre as mesmas duas ou três novas – e exigir, tal como se exige conteúdos informativos – planos de divulgação de música portuguesa, com informação específica do tema e spot’s promocionais a discos novos e divulgação no lançamento? E incentivo a programas de música portuguesa ao vivo?
Se calhar os nossos políticos vão aperceber-se do erro quando ouvirem as rádios desformatadas e nem por isso a música portuguesa passar a ser mais ouvida e sobretudo, comprada, que é disso que vivem os músicos e dos seus concertos, do seu trabalho que merece o maior dos respeitos.
A Lei da Rádio não vai fazer com que a música de nichos de mercado toque mais, é pouco provável que se oiça muito mais música nova – onde se ouviu já isto? – e traga mesmo do ponto de vista do incentivo à produção musical mais-valias que cheguem a ser significativas. Contudo, é um primeiro passo, tímido, mas um primeiro passo. Aponto-lhe o dedo sobretudo porque não ousou regular o sector de forma abrangente, limitou-se a tocar ao de leve na música das rádios. Ainda bem que não pode existir lei a decretar a passagem da banda A ou B, o que quer dizer que, a maior parte dos artistas que se queixam de não tocar na rádio vão ficar na mesma, uns injustamente, outros não, como muita coisa na vida. Cada um tem de fazer por si, mas a Lei da Rádio não faz muito por ela, nem pelos músicos portugueses. E as associações de rádios parecem nunca mais adquirir força, para fazerem pelos seus, talvez precisem também de sangue novo.
Confederação
Antonio Tabucci defendia no seu livro “Afirma Pereira” - passado a filme com o brilho da interpretação de Mastroianni e Mário Viegas, entre outros, e música de Morricone e Dulce Pontes- que temos um “eu” dominante que emerge de uma espécie de conjuntos de “eus” que possuímos, uma alma que emerge entre as outras, por ser o caminho. Quem quiser seguir a música, deve esquecer as editoras quando o deve fazer, procurá-las na altura supostamente certa, contar com a sorte, mas quase na totalidade com o trabalho, que foi sempre a forma de se conseguirem as coisas. E o mesmo se aplica às restantes cadeias do elo. Acredito muito na nossa música e nos nossos, que não são piores que os outros, longe disso.
O Canal tem estado de volta. E ainda bem.
Bruno Gonçalves Pereira
7.3.06
Punkpt
Também, confesso, que nunca foi minha ambição escrever elaboradas crónicas sobre o estado da música portuguesa - que não vai bem. Para isso temos os nossos ilustres cronistas jornalistas, radialistas, músicos...
Dado que a minha vida ainda se mantém ligada a este vasto universo que é a “Internet”, vou recomeçar com o primeiro desafio que me foi feito pelo Canal... Porque para ser polémico falaria na pirataria - algo que já fiz em Dezembro de 2003 - ou na “peregrina” ideia que apoio de distribuição gratuita de música... Talvez a seu tempo o faça…
“Bandas na Web” foi o meu espaço neste blogue dedicado a mostrar bandas por estas... bandas...
E irei tentar, na medida do possível, continuar a divulgar o que vir e ouvir no ciberespaço, dentro da legalidade... Claro está!
Para tal, tenho que falar no Hugo Caldeira... Homem que não conheço e com o qual nada tenho a ver, a não ser visitar o seu espaço na Web. Esse espaço é a prova viva da célebre frase “PUNK IS NOT DEAD”.
Falo, claro está, no site punkpt, onde, graças a ele e ao seu “player”, já ouvi e passei a conhecer música portuguesa e novas bandas de uma onda que vai do punk, punk-rock, passando pelo ska...
Só pela audição já vale a pena passar por lá... mas o punkpt não é apenas um “player”! Sendo um site de design simplista, o importante é o seu conteúdo.
Entrevistas, reviews oficiais e de cibernautas a concertos e festas, fotos, mp3, calendário de concertos, fórum e notícias! Muitas notícias em que o comum visitante tem a hipótese de submeter também a sua e divulgar o que acha que tem que ser divulgado.
Claro que gostos não se discutem e nem todos gostam desta “onda”... Mas quem dera a tantas outras “ondas” ter mais gente a fazer o que o punkpt tão bem faz!
E como o importante é o conteúdo deixo-vos com este link de visita obrigatória:
www.punkpt.com
João Pedro Rei
2.3.06
Duelo ao espelho
Os meses passam, os anos instalam-se dentro de nós e caminhamos para onde o nosso pensamento quiser.
A “inspiração” – doce encanto de um instante – pode permanecer sempre à tona da água ou mergulhar sem que se saiba quando regressa à superfície. Cada um tem a sua própria dose daquilo que designa por “inspiração” e a minha não tem estado. Decidiu ir para a neve de férias e eu fiquei por cá tentando vislumbrar o outro lado que passa aqui tão perto.
Os últimos tempos deste espaço têm sabor de quente e frio em pleno Inverno. Longe estão os dias e noites de grandes confusões, dos debates puros e duros, das zangas, dos amuos, das palavras duras, do quase caos lançado por participantes “anónimos” ou “conhecidos” no meio musical, das novas ideias apresentadas e exaustivamente analisadas e criticadas, das embrulhadas que acabaram por ser resolvidas em “off blogue”.
E houve um momento em que o meu tempo deixou de ser elástico para me dedicar a esta causa. Outros desafios, outros projectos, outros sonhos ousaram destronar estas horas de escrita. O mesmo terá sucedido com muitos dos cronistas e o efeito inverso à bola de neve inicial fez-se sentir.
Estamos, agora, num momento de retorno. Os regressos nem sempre são fáceis de viabilizar porque podem ter sabor de água que já passou por debaixo da ponte.
A situação da nossa música permanece semelhante. E nós ainda seremos os mesmos?
“A inconstância deita tudo a perder – ela não deixa germinar nenhuma semente”
Os queixinhas e os desesperados são uns tipos muito chatos.
Aborrecem-me imenso e nunca tive pachorra para suportar aqueles que só sabem queixar-se de tudo e de nada.
Quando queremos muito uma coisa na vida devemos lutar por ela mesmo que se afigure semelhante a um Adamastor quinhentista. Bartolomeu Dias já nos mostrou ser possível dobrar cabos complicados.
Tenho estado a ler “Crónicas – volume 1”, o livro de Bob Dylan onde nos conta experiências pessoais e onde se viaja deliciosamente no espaço e no tempo.
Muitos aspirantes a músicos deviam ler este livro; igualmente, muitos músicos reformados e/ou criativamente estagnados o deviam fazer.
Abrem-se janelas de determinação e de redescoberta em muitas destas páginas.
Dar conselhos não será concerteza o meu objectivo neste blogue, porém, creio que quem quer ser músico tem de acreditar no seu talento e tem de lutar até o conseguir provar. Muitos jovens têm o talento inato da criação musical, mas falta-lhes o foco porque são inconstantes. Perdem-se compositores e músicos excepcionais porque não têm essa certeza de que um dia vão conseguir furar e acabam por desistir de lutar.
Pedro Abrunhosa já não tinha 18 anos quando conseguiu romper o cerco; os Delfins arriscaram tudo, numa fase inicial de carreira, acreditaram e foram para estúdio, pagando a gravação do seu primeiro LP; os Xutos, já com uma legião de fãs, demoraram anos até convencerem uma multinacional a apostar neles.
Estes são casos bem conhecidos na nossa praça, exemplos de persistência, de luta. São músicos reconhecidos que acreditaram no seu valor e conseguiram singrar.
Sei que é fácil falar e, por vezes, é árduo aguentar e continuar a caminhar porque é melhor “ter uma vida” do que ser um “vagabundo errante”.
Conseguir prescindir de “quase tudo” e lançar-se à estrada, em busca de “um momento de sorte”, é uma opção de vida cada vez mais arriscada numa sociedade de consumo imediato.
Contudo, existem outros jovens, menos talentosos, mas mais determinados ou com “maior sorte”, que conseguem singrar no mundo musical.
A vida será injusta ou seremos nós a construir essa justiça?
Luís Silva do Ó
As citações utilizadas nos subtítulos têm como autor Henri Amiel (1821-1881), filósofo e escritor suíço.
Nota: Passaram 10 anos desde que os k2o3 (do nosso amigo e cronista Ulisses) entraram em estúdio para as sessões de "És Capaz!". Um abraço para o Ulisses, Mini, Chaves e Nuno que como todos os grandes amigos estão sempre "Perto de Mim".
19.2.06
Regresso ao passado
Veneno – Peste&Sida
Portem-se Bem – Peste&Sida
Censurados – Censurados
Estes trabalhos são para mim os 3 melhores discos Portugueses de Punk. O único que ainda tenho em vinil é o “Portem-se bem” dos Peste&Sida, pois, os outros dois terão sido “emprestados”, pelos vistos, a longo prazo, a algum “amigo”…
Numa das últimas semanas, o jornal Blitz trouxe-nos, na minha opinião, o melhor deste discos. “Censurados” dos Censurados é um disco ingénuo, cru, mal tocado, com mau som e rebelde a dar com um pau!!!
Voltar a cantar estes refrões fez com que desse uns pulos na minha sala com a aparelhagem aos berros! Que se lixem (para não dizer outra coisa) os vizinhos durante meia hora que eu agora quero é curtir!!!

- Angustia
- T`andar de Mota
- Animais
- Srs Políticos
- Não
- Tu o Bófia
- É difícil
- Instrumental
- Não vales nada
- Guerra Colonial
- A minha Vida
- Censurados
A maioria destas 12 letras estão ainda hoje actuais, o que é incrível, se tivermos em conta que a edição original deste trabalho é de 1990.
Ainda me lembrava de cor e cantei sem qualquer hesitação: “Angustia”, “Animais”, “Tu o Bófia” e “É difícil”.
António Côrte-Real
9.2.06
Foi você que pediu um "boom"?
O mercado continua a permitir digressões dos artistas conceituados, o que faz com que se viva numa aparente normalidade. Nada mais enganador porque são raros os novos nomes que conseguem furar, na árdua tarefa de construir uma carreira. Debalde algumas oportunidades concretizadas com operadoras de telemóveis, poucas excepções têm confirmado a regra. Vivemos, no presente, de muitos projectos com passado e que, graças à dimensão que detêm, conseguem permanecer activos.
Mesmo sem entrar na área da pirataria – que, além das desvantagens, também encerra factores positivos ao nível da divulgação – estamos claramente carentes de um novo modelo radiofónico e de uma nova legislação que fomente a produção nacional e a sua promoção e consolidação. Essa legislação não devia ser apenas uma “quota na rádio” - cega e que trata todas as estações por igual, quer se trate de uma rádio virada para música de dança ou para a informação - mas ir muito mais além.
Para que não subsistam dúvidas, devo reafirmar que concordo com as “quotas” nas condições excepcionais em que as coisas estão e, sobretudo, para as rádios generalistas que possuem um alvará atribuído pelo Estado português. Eu posso abrir uma discoteca ou uma editora, contudo, não poderei abrir uma rádio nacional, a menos que adquira uma das existentes. Alguma contrapartida deve ser dada em prol da nossa cultura colectiva. Mas, já não concordo tanto com esta medida para rádios especializadas e com franjas de público minoritário. Agora, uma coisa é óbvia. Não é admissível que a música portuguesa tenha um peso nas vendas e outro, bem menor, na elaboração das diversas playlists das rádios generalistas. Isso é um contra-senso que tem de ser modificado. Preferia é que o tivesse sido a bem e sem necessidade de novas leis porque o “ambiente” de uma obrigação pode não surtir os efeitos desejados.
Não obstante, a lei devia ir bem mais longe. Devia passar pela famosa questão do IVA sobre a música (discos ou instrumentos), como produto cultural e com taxa reduzida, assim como devia estipular a obrigatoriedade de instituições públicas, nomeadamente autarquias locais, contratarem novos projectos para as primeiras partes dos espectáculos de artistas consagrados.
Não se compreende que uma Câmara Municipal “invista” 5 mil contos num artista de topo para agradar aos seus munícipes e eleitores (sobretudo em anos de autárquicas) e não “aposte” 200 contos numa banda em início de carreira. Uma mudança a este nível implicaria uma enorme transformação nas digressões dos novos grupos que passariam a ter público (qualquer festa municipal tem toda a população em peso) e tocariam em condições técnicas que lhes possibilitariam desenvolver o seu potencial.
Com a rádio a passar projectos novos e com os grupos a conseguirem mostrar, ao público, os seus trabalhos, uma nova realidade estaria a emergir.
Ainda assim falta “qualquer coisa” em questão dos media. Pois, então e a televisão?
A televisão é, definitivamente, um motor essencial em toda esta problemática. Basta recordar a importância das telenovelas portuguesas na promoção de discos e de músicos. Claro que as telenovelas não preenchem todas as necessidades! Faltam os programas de música, as emissões e os especiais dedicados à nossa cultura – teatro, cinema, pintura, literatura, música, etc.
A recente comemoração dos 25 anos da febre de sábado de manhã mostrou que este modelo de programa televisivo poderia ser uma realidade com qualidade e audiência. Da mesma forma que, em 1980/81, Júlio Isidro conciliava artistas consagrados com os novos músicos, também, nos dias de hoje, tal poderia e deveria funcionar.
A receita utilizada por Júlio Isidro não parece ter perdido a validade e muito se pode ainda esperar dos ensinamentos deste senhor da nossa comunicação social.
Haja vontade e talento em conseguir levar por diante projectos sérios de divulgação televisiva dos nossos artistas.
Estou certo da receptividade que o público vai dispensar a programas bem estruturados e apresentados, pelo que somente necessitamos de dar o “primeiro passo”.
Será que Júlio Isidro vai surpreender e ficar, uma vez mais, ligado ao lançamento de uma nova geração de nomes?
Em 1980/81, tivemos um “boom” e, actualmente, poderemos ter uma nova explosão.
Estamos adormecidos e temos de acordar.
Temos projectos com imenso valor nas gavetas e nas garagens deste país.
Precisamos de uma nova febre de música portuguesa neste cantinho chamado Portugal.
Bastará saber acender o rastilho.
Será pedir demasiado?
Luís Silva do Ó
Como curiosidade, deixo aqui um segmento do último programa Atlântico, em que foi apresentado um especial dedicado à “Febre de Sábado de Manhã” e onde consta um depoimento de Júlio Isidro.
29.1.06
TIO JULIÃO
UHF - "Cavalos de Corrida" incendiaram o público na abertura do espectáculo e "Matas-me com o teu Olhar" foi recebido com igual loucura. Júlio Isidro não podia ter escolhido melhor grupo para o início do programa;
Grupo de Baile - Um dos projectos especialmente reagrupados para o evento. "Já Rockas à Toa" apenas aqueceu, mas "Patchouly" motivou uma onda de entusiasmo idêntica ao que sucedeu em 1981;
Taxi - Para uma banda que sumiu subitamente do circuito acabaram por ser a surpresa da noite dado o profissionalismo demonstrado. "Cairo" e "Chiclete" fizeram o público presente saltar freneticamente. Quem não conhecia Taxi ficou arrepiado. Foram brilhantes.
O espectáculo encerrou com John Watts (Fischer-Z) em grande estilo, aproveitando para apresentar 3 temas do novo disco a editar em Portugal no próximo dia 6 de Fevereiro.
Entrevistas exclusivas e reportagem sobre esta noite disponivel em http://atlanticoradio.blogspot.com
Agradecemos a colaboração da produção do evento e da EMI, pelas facilidades concedidas.






25.1.06
25 anos de febre
Falta-nos, cada vez mais, uma identidade que reflicta e permita conhecer a nossa história musical para além do que se escuta nas rádios nostalgia dos nossos dias. Acabei de assistir a um pedaço dessa história na RTP Memória, numa transmissão gravada em 1987 e dedicada à música portuguesa de sempre. Muitos daqueles temas permanecem nos arquivos da nossa história musical, mas grande parte deles são desconhecidos das novas gerações de portugueses.
Por vezes, recordo-me de um ou outro disco de música portuguesa que marcou a minha vida em determinado período e raramente o consigo encontrar disponível no mercado porque nunca foi editado em CD, ou então, depois de ter esgotado, nunca mais foi reposto. Aliás, tendo assistido ao “famoso” e “turbulento” boom do rock luso, posso pegar nessa produção dos “loucos anos” de 80/82 e referir alguns exemplos que permanecem sem edição condigna.
“Taxi” dos Taxi (assim mesmo, sem acento, ao contrário do que muita gente conhecedora insiste em escrever) foi o primeiro disco português a atingir o galardão de ouro na nossa indústria. Contudo, apesar do feito assinalável, jamais foi editado em CD.
“Independança” dos GNR (ainda com Vítor Rua e Alexandre Soares no grupo e já com Rui Reininho de corpo inteiro no projecto) foi o mais aclamado disco de música moderna portuguesa da década de 80, porém, aparte a maior ou menor dificuldade técnica, nunca viu a luz do dia em formato CD.
Verdadeiro “case study”, incluindo aspectos exteriores à música e dentro de um âmbito sociológico, os UHF do nosso amigo António Manuel Ribeiro (para quando a tua próxima crónica?) têm uma carreira feita em diversas editoras e com mais discos indisponíveis em CD do que disponíveis! Tirando o primeiro álbum “À Flor da Pele” (1981), não se encontra, actualmente, no mercado, nenhum CD dos UHF anterior à recente fase do “Rock É” (corrige-me António se estiver enganado!).
Todavia, “discos esquecidos” existem em todas as décadas. Percursores de uma nova onda musical que se vivia na década de 60, o Quarteto 1111 marcou a entrada da língua portuguesa no pop rock de qualidade. Quantos dos LP’s do Quarteto 1111 se encontram disponíveis no mercado? Pois… e que é feito do disco que foi censurado e retirado do mercado pela PIDE? E onde se encontra a colaboração entre Frei Hermano da Câmara e o Quarteto 1111, em 1973, de onde resultou “A Bruma Azul do Desejado”? José Cid toca “Moog” em mais esse disco esquecido.
Urge conseguir recuperar este vasto espólio e disponibilizá-lo com a dignidade que merece. O surgimento de uma edição especial destes trabalhos, cuidada, bem seleccionada, com pequenos bónus e a um preço reduzido poderia ser uma solução. Uma colaboração com um jornal ou revista seria outra ideia para uma primeira distribuição eficaz dessa colecção.
Um dos motivos porque gosto de música
A “Febre de Sábado de Manhã” assinala 25 anos e no meu baú das recordações continuo a não esquecer os programas que Júlio Isidro realizou e apresentou no início dos anos oitenta, em estreita ligação com o fenómeno do rock português.
Viviam-se anos muito bons para a indústria discográfica, para os novos artistas e para os homens da rádio deste nosso Portugal. Em 1980 - contava eu 10 primaveras - comecei a descobrir as novas propostas musicais e a tornar-me ouvinte compulsivo de rádio muito por culpa do trabalho de Júlio Isidro. Seguia avidamente as suas emissões, assim como as de outros grandes divulgadores, dos quais destaco Luís Filipe Barros.
Nasceu aqui um grande “bichinho” que me levou a acompanhar a nossa música e a começar a fazer rádio em 1986/87. Antes disso, em 1982, ainda espalhei colunas retiradas de velhas telefonias pelas várias divisões da casa de meus pais e, com recurso a um primitivo deck, realizei as minhas primeiras aventuras "radiofónicas". Belos tempos...
E, efectivamente, foram belos os tempos em que os programas de autor existiam e evoluíam. Eram bonitos os dias (e as noites) em que, para além de anunciarem a música seguinte, os locutores nos contavam algo mais sobre os artistas e sobre as músicas. Tudo isso, hoje em dia, é mais plástico, não por culpa dos locutores, mas por opção estratégica de quem dirige e formata as estações.
Esta época que vivemos tem novos talentos, com tanto ou maior valor do que aqueles que surgiram em 1980. Porém, salvo raras excepções, estamos a ver passar uma geração de músicos sem que o seu trabalho seja conhecido. Perdem-se criadores, perdem-se músicos, perdem-se momentos mágicos e caminha-se para uma regressão quando a actual geração arrumar as botas e for para casa gozar uma merecida reforma – daqui a muitos anos, espero.
Precisamos de uma rádio que recupere outros valores e que compreenda o potencial da inovação e do risco. Sem o assumir de riscos, nenhum de nós teria crescido e evoluído. Sem riscos, jamais as rádios de hoje teriam os sucessos do passado para usarem no presente. Por este caminho, a rádio, em 2015 (se ainda houver rádio), vai passar músicas de que década?
O que precisamos mesmo é de mais pessoas como Júlio Isidro e de uma agitação semelhante àquela que ocorreu, em Portugal, com a “Febre de Sábado de Manhã”.
Luís Silva do Ó
15.12.05
O Marreta
Chegados a este segundo parágrafo, pergunto se alguma coisa mudou nestes meses? Aparentemente, poucas coisas mudaram. O meu leitor de sala (DENON CDR-1000) continua a não conseguir ler CD’s com tecnologia anti-cópia (aspecto muito negativo), as vendas das editoras mantêm a espiral de descida (outro mau sinal), os grupos consagrados continuam a esgotar Coliseus (felizmente este ponto é bom!), as bandas novas continuam a não ter espaços de música ao vivo em quantidade e qualidade (o que é péssimo) e as rádios permanecem de costas viradas para apostas generalizadas em música nova e em programas de autor (onde é que já escrevi sobre isto!?).
A entrada da Prisa na Média Capital irá mudar alguma coisa?
Não faço a mínima ideia, contudo, alguma coisa vai ter de mudar na rádio em Portugal, senão um destes dias acordamos e a “novidade musical” é a “Rosinha dos Limões” de Artur Ribeiro, compassada com algum furo noticioso acerca do Nobel de Egas Moniz ou do Mundial de 1966…
Os problemas dos novos projectos musicais permanecem e poucas saídas parecem existir enquanto não se constatar que estamos perante uma nova realidade. A realidade das editoras com estruturas pesadas tende a desaparecer e as receitas da venda de discos físicos também tem tendência para se tornar tão residuais como as vendas actuais do vinil. Para coleccionadores, profissionais ou viciados como eu. Todavia, mesmo eu, começo a estar menos viciado em comprar discos que, depois, não podem ser escutados no meu leitor, mas que conseguem ser copiados em qualquer PC e se encontram disponíveis em qualquer sistema de partilha de ficheiros P2P.
Para descobrir o futuro basta compreender e saber perspectivar o que o presente nos mostra.
A montra do presente está bem recheada, sendo rica na vertente digital, incluindo a possibilidade de compra de músicas no formato mp3. Além da aquisição de toques para telemóveis (um excelente negócio já com taxas de implantação significativas), a compra de temas em formato digital a baixos preços tem enorme margem de crescimento e consolidação. E as novas bandas têm uma oportunidade única, com possibilidades promocionais à escala mundial, mediante uma simples aposta na distribuição da sua música de forma gratuita, livre e legal. Aliás, como muitas já fazem… umas mais novas, outras nem tanto.
As editoras vão-se lentamente adaptando aos novos tempos com o lançamento de diversos pacotes promocionais. No futuro, creio que terão de alargar horizontes e, entre outros produtos, apostar em força na comercialização de merchandising. A diversificação pode, também, passar pela prestação de serviços de promoção e distribuição a bandas que assumam as despesas de gravação dos seus trabalhos. O management e agenciamento podem ser a próxima etapa a ser conquistada pelos grupos económicos que detêm as editoras – zonas de negócio lucrativas e sem possibilidade de se tornarem “pirateadas”.
O disco vai ser, cada vez mais, um meio e não um fim em si mesmo.
Vai ser o meio para promover a banda e para vender digressões, exclusivos e merchandising. E não tarda, para que na manhã enevoada de um dia qualquer, acabe por chegar o momento em que as rádios vão ter de pagar algo mais aos artistas e às editoras do que meros direitos de autor…
Próximo do final desta crónica, nada como manter que o “marreta sou eu”, mas esclarecer que o título pretendia ser mais apelativo do que real… Ao longo de 2 anos de blogue, todos nós que por aqui escrevemos e comentámos tivemos um pouco de “velhos dos marretas”. O que foi óptimo porque gerou amplo debate e reflexão. Tudo no bom sentido, como diria o outro…
Depois de meses de silêncio, vamos fazer “barulho”?
Nota: Deixei de conseguir contactar por email com alguns dos colegas cronistas. Querem fazer o obséquio de me indicarem os vossos contactos actuais? O blogue precisa de todos e de mais alguns.
Luís Silva do Ó