No top semanal de vendas da AFP encontramos 11 projectos musicais nacionais nos 30 primeiros.
5º RE-DEFINIÇÕES (OU) - DA WEASEL (CAPITOL/EMI-VC)
6º VAGABUNDO POR AMOR (P) - TONY CARREIRA (ESPACIAL/ESPACIAL)
9º FADO CURVO (P) - MARIZA (VIRGIN/EMI-VC)
12º CINEMA (PR) - RODRIGO LEÃO (COLUMBIA/SONY MUSIC)
15º OLHAR EM FRENTE (OU) - BETO (FAROL MÚSICA)
19º ESQUISSOS (OU) - TORANJA (POLYDOR/UNIVERSAL)
22º O MUNDO AO CONTRÁRIO (OU) - XUTOS & PONTAPÉS (MERCURY/UNIVERSAL)
23º UM AMOR INFINITO (OU) - MADREDEUS (CAPITOL/EMI-VC)
24º OURO E PLATINA - MARCO PAULO (EMI/EMI-VC)
28º MESA - MESA (VIRGIN/EMI-VC)
30º GUITARRA, O MELHOR DE (P) - CARLOS PAREDES (EMI/EMI-VC)
(PR)-Prata (OU)-Ouro (P)-Platina (2P)-Dupla Platina (3P)-Tripla Platina
Dados: AFP/Copyright AC Nielsen Portugal
28.9.04
23.9.04
E eu quero lá saber...
... se vou desagradar a uma vasta maioria que pensa diferente. Não me aborrece nada porque querer ser politicamente correcto (o que é diferente de o ser) é das piores coisas que existem neste país saloio em costumes e avançado em demagogia cultural. Patrocinar filmes que ninguém vê é cultura, cobrar 19% de IVA nos discos portugueses está correcto porque é indústria. Alguém acredita nisto?
Se afirmar que qualquer pessoa estará melhor preparada a exercer uma tarefa caso receba formação adequada penso que estarei a ser consensual. Quem tem formação está melhor preparado. Sem dúvida. Contudo, não quer isto dizer que o talento inato não possa existir e um carpinteiro ser mesmo bom, sem ter tido aprendizagem na oficina do mestre (que havia sido ensinado por quem?) ou na escola profissional.
Na música, passa-se o mesmo: qualquer pessoa preparada estará mais apta, mas, isto não significa que quem tire um Conservatório seja melhor apreciador e conhecedor do que outro que não o frequentou. Quantos de nós conhecem gestores que pouco percebem de gestão, levando empresas a situações difíceis ou de falência? E quantos profissionais que trabalham com números não possuem formação académica para tal? Sem citar os milhares de casos musicais e continuando na área de negócios, António Champalimaud – o homem mais rico de Portugal - não era licenciado e isso não o impediu de chegar onde chegou.
Temos, depois, os outros casos. Aqueles em que os próprios profissionais, não “certificados academicamente”, decidem aprofundar as coisas na escola. Recordo Jorge Palma, cujo Conservatório realizou já depois de ser consagrado.
Resumindo, uns tiram curso, outros não, uns são bons, outros maus, mas, ter mais conhecimento nunca fez mal a ninguém. Por isso, algumas discussões parecem-me mais divagações filosóficas do que passos em frente no campo minado da música portuguesa.
Tirar cursos formais/informais pode limar arestas ou permitir uma entrada planeada em outros ambientes. Porém, por si só, não geram criadores de excepção. Considero o génio criativo inato. Existem uns que nascem com o talento de transformar o que tocam em ouro e outros que, por mais que se esforcem, não passam da mediania. É assim a vida, na música e na venda de tremoços. Uns são bons e outros nem por isso!
Ouvir muita música e ler muito sobre tudo é muito bom - todavia, não chega. Um factor que penso essencial e que rebate muita retórica de gabinete é a importância de viver o terreno da música ao vivo, da sala de ensaios, das garagens bafientas ou dos estúdios de gravação. Cheirar o pó da estrada, mergulhar nos décibeis dos concertos, na azáfama de uma noite de concerto, nos íntimos momentos que ocorrem no backstage e no esplendor da madrugada tornam as ideias mais claras com o cérebro a dar e a receber proporções idênticas do “sentir a música”, do “debater a música”, do “querer sempre mais e melhor”.
Não se iludam que não digo que o rosa é a cor dominante! Todos sabemos das rasteiras que se levam, do “xico esperto” que sempre lá estará, dos jantares de frango até rebentar, da exploração, etc, etc.
Mas, mesmo assim, estar nos meandros do concerto ao vivo, sendo desgastante e cansativo, é recompensador ao ponto de se ficar “viciado”.
Juntando dinamite ao incêndio, direi que quem não vive a música ao vivo pouco percebe do panorama musical deste País.
[Voltando à questão da aprendizagem e da formação musical, devo afirmar, com toda a convicção, que onde ela é absolutamente vital é na escola. Desde a pré-primária ao secundário, o ensino da música poderia fazer maravilhas por dentro. Ter educação musical nas escolas devia ser tão natural como beber água e aprender português. Não o é, assim como não é natural fomentar as artes no nosso sistema de ensino. Está errado e paga-se caro. O ouvinte não é um bom ouvinte, nem o espectador tem grande apetência pela representação. Por isso é que temos “actores” formados em agências de modelos e ninguém se chateia, nem aborrece. Porque, afinal, têm umas carinhas bonitinhas, enquanto os verdadeiros actores muitas vezes morrem de fome e de desespero...]
Luís Silva do Ó
Se afirmar que qualquer pessoa estará melhor preparada a exercer uma tarefa caso receba formação adequada penso que estarei a ser consensual. Quem tem formação está melhor preparado. Sem dúvida. Contudo, não quer isto dizer que o talento inato não possa existir e um carpinteiro ser mesmo bom, sem ter tido aprendizagem na oficina do mestre (que havia sido ensinado por quem?) ou na escola profissional.
Na música, passa-se o mesmo: qualquer pessoa preparada estará mais apta, mas, isto não significa que quem tire um Conservatório seja melhor apreciador e conhecedor do que outro que não o frequentou. Quantos de nós conhecem gestores que pouco percebem de gestão, levando empresas a situações difíceis ou de falência? E quantos profissionais que trabalham com números não possuem formação académica para tal? Sem citar os milhares de casos musicais e continuando na área de negócios, António Champalimaud – o homem mais rico de Portugal - não era licenciado e isso não o impediu de chegar onde chegou.
Temos, depois, os outros casos. Aqueles em que os próprios profissionais, não “certificados academicamente”, decidem aprofundar as coisas na escola. Recordo Jorge Palma, cujo Conservatório realizou já depois de ser consagrado.
Resumindo, uns tiram curso, outros não, uns são bons, outros maus, mas, ter mais conhecimento nunca fez mal a ninguém. Por isso, algumas discussões parecem-me mais divagações filosóficas do que passos em frente no campo minado da música portuguesa.
Tirar cursos formais/informais pode limar arestas ou permitir uma entrada planeada em outros ambientes. Porém, por si só, não geram criadores de excepção. Considero o génio criativo inato. Existem uns que nascem com o talento de transformar o que tocam em ouro e outros que, por mais que se esforcem, não passam da mediania. É assim a vida, na música e na venda de tremoços. Uns são bons e outros nem por isso!
Ouvir muita música e ler muito sobre tudo é muito bom - todavia, não chega. Um factor que penso essencial e que rebate muita retórica de gabinete é a importância de viver o terreno da música ao vivo, da sala de ensaios, das garagens bafientas ou dos estúdios de gravação. Cheirar o pó da estrada, mergulhar nos décibeis dos concertos, na azáfama de uma noite de concerto, nos íntimos momentos que ocorrem no backstage e no esplendor da madrugada tornam as ideias mais claras com o cérebro a dar e a receber proporções idênticas do “sentir a música”, do “debater a música”, do “querer sempre mais e melhor”.
Não se iludam que não digo que o rosa é a cor dominante! Todos sabemos das rasteiras que se levam, do “xico esperto” que sempre lá estará, dos jantares de frango até rebentar, da exploração, etc, etc.
Mas, mesmo assim, estar nos meandros do concerto ao vivo, sendo desgastante e cansativo, é recompensador ao ponto de se ficar “viciado”.
Juntando dinamite ao incêndio, direi que quem não vive a música ao vivo pouco percebe do panorama musical deste País.
[Voltando à questão da aprendizagem e da formação musical, devo afirmar, com toda a convicção, que onde ela é absolutamente vital é na escola. Desde a pré-primária ao secundário, o ensino da música poderia fazer maravilhas por dentro. Ter educação musical nas escolas devia ser tão natural como beber água e aprender português. Não o é, assim como não é natural fomentar as artes no nosso sistema de ensino. Está errado e paga-se caro. O ouvinte não é um bom ouvinte, nem o espectador tem grande apetência pela representação. Por isso é que temos “actores” formados em agências de modelos e ninguém se chateia, nem aborrece. Porque, afinal, têm umas carinhas bonitinhas, enquanto os verdadeiros actores muitas vezes morrem de fome e de desespero...]
Luís Silva do Ó
22.9.04
Um ano depois
O grito de nascimento deste blogue já foi há um ano e, apesar de ter sido chutado por mim, não me sinto pai solteiro. Este é um filho com carradas de pais e mães!
No meio do frenesim desta novidade cibernética, o meu grande amigo João Pedro Rei criou um blogue e eu, movido pela curiosidade, decidi criar este... só para ver como era e apagar depois. Nasceu assim o canalmaldito, em tons de brincadeira e só para ver como funcionava. O meu amigo lixou-se porque ficou com a administração informática da cena! :)
Pouco tempo passou entre a brincadeira e a realidade do novo vício da rede. O blogue foi crescendo e entraram mais viciados no confronto das palavras e das ideias. Num ano, muitos debates foram acontecendo e muita tinta virtual foi derramada.
A guerra fria a que se assiste entre alguns sectores da indústria musical fez disparar os comentários e muitos fogos foram apagados com pólvora. Não chegámos a tribunal, porém, andámos perto com ameaças. Olhando para trás, não deixo de ficar espantado com estes 365 dias e mais de 30.000 visitantes, mas, o defeito deve ser meu, ou não se chamasse este blogue “Canal Maldito”!
Novas aventuras, neste mar de blogues, se esperam para breve. Álvaro Costa (Via Rápida) prepara um encontro informal a ocorrer no Porto, restrito às áreas de espectáculo, pop, cultura, artes, onde se faça o ponto da situação e se discuta o futuro desta nova área de comunicação. A dinâmica adivinha-se boa e promissora, o interesse comum é efectivo e partilhado pelo canalmaldito. Para qualquer informação/inscrição sobre o encontro podem escrever para bloguedogg@yahoo.com.
Um abraço a todos,
Luís Silva do Ó
No meio do frenesim desta novidade cibernética, o meu grande amigo João Pedro Rei criou um blogue e eu, movido pela curiosidade, decidi criar este... só para ver como era e apagar depois. Nasceu assim o canalmaldito, em tons de brincadeira e só para ver como funcionava. O meu amigo lixou-se porque ficou com a administração informática da cena! :)
Pouco tempo passou entre a brincadeira e a realidade do novo vício da rede. O blogue foi crescendo e entraram mais viciados no confronto das palavras e das ideias. Num ano, muitos debates foram acontecendo e muita tinta virtual foi derramada.
A guerra fria a que se assiste entre alguns sectores da indústria musical fez disparar os comentários e muitos fogos foram apagados com pólvora. Não chegámos a tribunal, porém, andámos perto com ameaças. Olhando para trás, não deixo de ficar espantado com estes 365 dias e mais de 30.000 visitantes, mas, o defeito deve ser meu, ou não se chamasse este blogue “Canal Maldito”!
Novas aventuras, neste mar de blogues, se esperam para breve. Álvaro Costa (Via Rápida) prepara um encontro informal a ocorrer no Porto, restrito às áreas de espectáculo, pop, cultura, artes, onde se faça o ponto da situação e se discuta o futuro desta nova área de comunicação. A dinâmica adivinha-se boa e promissora, o interesse comum é efectivo e partilhado pelo canalmaldito. Para qualquer informação/inscrição sobre o encontro podem escrever para bloguedogg@yahoo.com.
Um abraço a todos,
Luís Silva do Ó
21.9.04
AFP: TOP 30 ARTISTAS - SEMANA 38/2004
No top semanal de vendas da AFP encontramos 11 projectos musicais nacionais nos 30 primeiros.
3º VAGABUNDO POR AMOR (P) - TONY CARREIRA (ESPACIAL/ESPACIAL)
6º RE-DEFINIÇÕES (OU) - DA WEASEL (CAPITOL/EMI-VC)
8º FADO CURVO (P) - MARIZA (VIRGIN/EMI-VC)
9º CINEMA (PR) - RODRIGO LEÃO (COLUMBIA/SONY MUSIC)
14º ESQUISSOS (OU) - TORANJA (POLYDOR/UNIVERSAL)
15º OLHAR EM FRENTE (OU) - BETO (FAROL MÚSICA)
17º O MUNDO AO CONTRÁRIO (OU) - XUTOS & PONTAPÉS (MERCURY/UNIVERSAL)
21º ANTOLOGIA (2P) - MADREDEUS (EMI/EMI-VC)
22º OURO E PLATINA - MARCO PAULO (EMI/EMI-VC)
24º UM AMOR INFINITO (OU) - MADREDEUS (CAPITOL/EMI-VC)
28º GUITARRA, O MELHOR DE (P) - CARLOS PAREDES (EMI/EMI-VC)
(PR)-Prata (OU)-Ouro (P)-Platina (2P)-Dupla Platina (3P)-Tripla Platina
Dados: AFP/Copyright AC Nielsen Portugal
3º VAGABUNDO POR AMOR (P) - TONY CARREIRA (ESPACIAL/ESPACIAL)
6º RE-DEFINIÇÕES (OU) - DA WEASEL (CAPITOL/EMI-VC)
8º FADO CURVO (P) - MARIZA (VIRGIN/EMI-VC)
9º CINEMA (PR) - RODRIGO LEÃO (COLUMBIA/SONY MUSIC)
14º ESQUISSOS (OU) - TORANJA (POLYDOR/UNIVERSAL)
15º OLHAR EM FRENTE (OU) - BETO (FAROL MÚSICA)
17º O MUNDO AO CONTRÁRIO (OU) - XUTOS & PONTAPÉS (MERCURY/UNIVERSAL)
21º ANTOLOGIA (2P) - MADREDEUS (EMI/EMI-VC)
22º OURO E PLATINA - MARCO PAULO (EMI/EMI-VC)
24º UM AMOR INFINITO (OU) - MADREDEUS (CAPITOL/EMI-VC)
28º GUITARRA, O MELHOR DE (P) - CARLOS PAREDES (EMI/EMI-VC)
(PR)-Prata (OU)-Ouro (P)-Platina (2P)-Dupla Platina (3P)-Tripla Platina
Dados: AFP/Copyright AC Nielsen Portugal
20.9.04
Disco: Yellow W Van – Ninguém faz Filmes de Olhos Abertos (Mercury/Universal)
Os Yellow W Van são uma das mais consistentes bandas Hip-Hop/Funk/Rock Portuguesas. A bateria sólida e exemplarmente executada por Fred, acompanhada pelo excelente baixo do Rui dão a este grupo da margem sul a alma que falta à maior parte dos projectos nesta área. A orgânica deste trabalho completa-se com o power, umas vezes funk outras pesado das guitarras de Fruntxas e Tomé. A raiva não (e muito bem!) contida pelo Ruas e o Manzk nas vozes completam esta banda que assim transmite as suas preocupações sociais e politicas. Concordo em tudo com vocês pessoal…
Neste “Ninguém faz filmes de olhos abertos” desfilam boas melodias, muito groove, mensagens que se querem (porque é mesmo preciso dizer aquilo que se pensa!). Revejo neste trabalho aquilo que penso em relação à sociedade Portuguesa e mundial. O mundo não está bem, Portugal ainda está pior… é preciso mudar!
Ainda não vi os Wellow W Van ao vivo (foi-me mesmo impossível estar presente no lançamento do disco no Santiago Alquimista), mas a coisa promete! Assim que tiver uma oportunidade lá estarei!
Se gostares de Hip-Hop/Funk com as guitarras a berrar! Compra urgentemente este disco porque não sabes o que andas a perder!
Força!
António Côrte-Real
Contactos:
Site – www.yellow-w-van.net
Editora – www.universalmusic.pt
Concertos – maismusica@netcabo.pt ou 21-3844439/43
Neste “Ninguém faz filmes de olhos abertos” desfilam boas melodias, muito groove, mensagens que se querem (porque é mesmo preciso dizer aquilo que se pensa!). Revejo neste trabalho aquilo que penso em relação à sociedade Portuguesa e mundial. O mundo não está bem, Portugal ainda está pior… é preciso mudar!
Ainda não vi os Wellow W Van ao vivo (foi-me mesmo impossível estar presente no lançamento do disco no Santiago Alquimista), mas a coisa promete! Assim que tiver uma oportunidade lá estarei!
Se gostares de Hip-Hop/Funk com as guitarras a berrar! Compra urgentemente este disco porque não sabes o que andas a perder!
Força!
António Côrte-Real
Contactos:
Site – www.yellow-w-van.net
Editora – www.universalmusic.pt
Concertos – maismusica@netcabo.pt ou 21-3844439/43
7.9.04
AFP: TOP 30 ARTISTAS - SEMANA 36/2004
No top semanal de vendas da AFP encontramos 12 projectos musicais nacionais nos 30 primeiros.
3º VAGABUNDO POR AMOR (P) - TONY CARREIRA (ESPACIAL/ESPACIAL)
6º RE-DEFINIÇÕES (OU) - DA WEASEL (CAPITOL/EMI-VC)
9º CINEMA (PR) - RODRIGO LEÃO (COLUMBIA/SONY MUSIC)
10º FADO CURVO (P) - MARIZA (VIRGIN/EMI-VC)
13º ESQUISSOS (OU) - TORANJA (POLYDOR/UNIVERSAL)
14º OURO E PLATINA - MARCO PAULO (EMI/EMI-VC)
16º O MUNDO AO CONTRÁRIO (PR) - XUTOS & PONTAPÉS (MERCURY/UNIVERSAL)
17º OLHAR EM FRENTE (OU) - BETO (FAROL MÚSICA)
22º UM AMOR INFINITO (OU) - MADREDEUS (CAPITOL/EMI-VC)
24º TA LAAA?... O MELHOR DE - RAUL SOLNADO (EMI/EMI-VC)
27º BAILE DE VERÃO (OU) - JOSÉ MALHOA (ESPACIAL/ESPACIAL)
29º A CABRITINHA (OU) - QUIM BARREIROS (ESPACIAL/ESPACIAL)
(PR)-Prata (OU)-Ouro (P)-Platina (2P)-Dupla Platina (3P)-Tripla Platina
Dados: AFP/Copyright AC Nielsen Portugal
3º VAGABUNDO POR AMOR (P) - TONY CARREIRA (ESPACIAL/ESPACIAL)
6º RE-DEFINIÇÕES (OU) - DA WEASEL (CAPITOL/EMI-VC)
9º CINEMA (PR) - RODRIGO LEÃO (COLUMBIA/SONY MUSIC)
10º FADO CURVO (P) - MARIZA (VIRGIN/EMI-VC)
13º ESQUISSOS (OU) - TORANJA (POLYDOR/UNIVERSAL)
14º OURO E PLATINA - MARCO PAULO (EMI/EMI-VC)
16º O MUNDO AO CONTRÁRIO (PR) - XUTOS & PONTAPÉS (MERCURY/UNIVERSAL)
17º OLHAR EM FRENTE (OU) - BETO (FAROL MÚSICA)
22º UM AMOR INFINITO (OU) - MADREDEUS (CAPITOL/EMI-VC)
24º TA LAAA?... O MELHOR DE - RAUL SOLNADO (EMI/EMI-VC)
27º BAILE DE VERÃO (OU) - JOSÉ MALHOA (ESPACIAL/ESPACIAL)
29º A CABRITINHA (OU) - QUIM BARREIROS (ESPACIAL/ESPACIAL)
(PR)-Prata (OU)-Ouro (P)-Platina (2P)-Dupla Platina (3P)-Tripla Platina
Dados: AFP/Copyright AC Nielsen Portugal
2.9.04
Sangue, suor e lágrimas.
Stressei com o patrão e ele quase que me despediu por eu ter de sair à hora para ir dar um concerto numa sexta-feira à noite em Grândola. Fui a acelerar para o alentejo. A minha namorada carregou o amplificador e a guitarra, sozinha, e foi andando mais cedo. Dei o concerto e regressei ainda com mais stress. Fui trabalhar o fim de semana todo para segurar o emprego. O Toninho ligou-me e em 3 dias tive que fazer uma versão de uma música dos UHF, preparar uma banda e gravá-la em estudio. Entretanto ganhei uns prémios internacionais de publicidade, a coisa acalmou com o patrão, preparei a festa, fiz os convites e casei-me. Fui de lua de mel e uma semana depois já o trabalho não me largava com fins de semana agarrado a livros e a programas de computador. Nos intervalos escrevia umas coisas. Enquanto fazia um bacalhau no forno tocava guitarra mas não falava francês, escrevia mais umas letras soltas. A namorada, entretanto já esposa, jogava playstation e queimava tempo. Os 3 litros de Jack Daniels vindos de Andorra esgotaram com as noitadas em frente à mesa de mistura caseira. No dia seguinte trabalhar era um suplício. Mas tinha de ser. O António Manuel Ribeiro ligava a dizer que tinha umas primeiras partes de UHF para fazer. Óptimo, mesmo sendo a um domingo. Acaba o espectáculo e regresso a casa às 3h30 da manhã. Às 9h30 já estava a trabalhar novamente. Escrevo um contrato à pressão e envio por fax para a organização de um concerto. Mais uma série de telefonemas para acertar as coisas, uns emails com o logotipo da banda para os cartazes e está tudo tratado. Entretanto é preciso falar com o pessoal para alugar uma carrinha. Mais uma semana lixada com 4 campanhas e 10 filmes para fazer. Despedida de solteiro no fim de semana seguinte com bebedeiras de sexta a domingo. O casamento do meu amigo é no sábado ao meio-dia e na sexta-feira tenho um concerto em Castelo de Vide. Vou dormir 4 horas e correr para o alentejo para estar a horas de assistir à cerimónia. Provavelmente no Domingo terei de ir trabalhar. Mas está tudo bem. Seja como for, nestes dois meses aqui representados já foi possível criar 14 novos temas para os k2o3, que irão fazer parte do novo disco, a sair no início do ano. Sinceramente é muito difícil arranjar tempo para a música quando não se depende dela. Mas a paixão que se tem por tudo isto, por querer fazer mais, por desejar subir para cima de um palco e mostrar às pessoas aquilo que mais gostamos de fazer, vale o sacrifício. Quase que me esquecia de dizer: não ganho dinheiro nenhum com isto. E como é simples algumas pessoas destruirem o trabalho de quem dá tudo o que tem, só porque estão à frente de uma editora e nem se dão ao trabalho de querer ouvir, só porque escrevem num jornal e como não gostam dizem que é mau, só porque trabalham numa rádio e a política da rádio não permite que passe. Mas também não será isso que me irá fazer baixar os braços, nem a mim nem a todos aqueles que continuam a sonhar, a acreditar de que é possível mudar alguma coisa.
Estamos vivos.
Ulisses
Estamos vivos.
Ulisses
1.9.04
In Vivo: Paredes de Coura - Take III
Mais um dia de Festival. Paredes de Coura, 2004. Mais um dia, que não é simplesmente "mais um" dia. Não só é o meu último dia de Festival, como é de alguma forma, aquele que mais expectativas me incita.
O dia corre calmo e sereno... O pessoal continua a fazer-se passear pelo cenário quase bucólico, preenchido de ar pasmacento, depois de noites agitadas sucessivas... À tarde, arrastam-se as pernas, mas mal o sol se põe, as baterias começam a dar sinais de recarregamento e a euforia faz-se notar nos olhares ansiosos e animados...
A banda que abre esta noite é Wray Gun. A formação nacional, liderada pelo front-man, Paulo "Legendary-Gun" Furtado, entra de mansinho, acompanhada pelo coro Godspell. Uma apresentação quase discreta que não deixava adivinhar o espectáculo que se ia seguir! A euforia dos blues, num cocktail com rock-soul-roll!!! A frenética e espontânea coreografia de um Show Man (com letra grande!) no seu melhor! O público assistia entre o atónito e o fervilhante, enquanto as músicas se sucediam, num crescendo, que terminou com Paulo Furtado de guitarra em punho nos braços do público, entre autógrafos e apertos de mão, entre abraços e palmas nas costas, entre gritos histéricos e assobios de quem se sentia entre "estrelas"! Os Wray Gun não só foram a banda nacional que se destacou, mas foram a banda que melhor performance apresentou. Entre nacionais e internacionais!! A confirmação de que a fasquia "cá dentro" está ao nível do que se faz lá fora, e que mais do que nunca, o argumento "ser português" não serve de desculpa nem a bandas, nem a públicos!! E por aí fora...
Por muito bom que fosse o que viesse a seguir, a imagem da "nossa" banda impunha-se na memória ainda fresca... E o tempo que demorou até "Mark Lanegan Band" subir ao palco não foi o suficiente para dissipar o entusiasmo que se instalara!... De tal forma, que o ambiente pesadamente intismista que se debruçou com a noite, não conseguiu envolver todos... muitos até se teriam esquecido, da curiosidade de ver a nova apresentação de um dos responsáveis dos Queen of the Stone Age. Mas, aqueles que conseguiram apanhar aquela nova onda, tiveram o prazer de balancear até à profundidade oceânica de uma voz hipnotizante. Mark Lanegan não falou uma palavra, e a estática do seu corpo chegava a ser comovedoramente dolorosa... Quase como se o mais infímo gesto pudesse quebrar aquele "cristal" que ganhava forma no palco e tentava abraçar o recinto, o mundo inteiro... A única palavra, foi no fim, um "obrigado", que não deixou adivinhar qualquer traço da identidade, qualquer emoção, da pessoa que abandonava o palco. Não foi "distante", mas não foi "sedutor"! Era preciso dar, entregar-se completamente, para poder sentir as moléculas vocais "bluesy" trespassarem cada célula do epitélio, até render o corpo a um estado de quase anestesia. Mais um grande concerto!
The Kills! A demora até o início do espectáculo conseguiu impacientar o público ao ponto de "estragar" alguma da predisposição para um espectáculo que prometia ser no mínimo revelador! Problemas técnicos que pareciam incontornáveis adiavam o descarregar de adrenalina que se transpirava no ar nacarado. Depois de uma partida em falso, o "show" arranca. A cumplicidade dos dois personagens, VV e Hotel, foi a luz predominante de cada tema. A garra de uma voz "colocada" à PJ Harvey, numa "dança" agressiva, entre cigarros e cabelos esvoaçantes... acompanhada pela magreza comum de um companheiro dividido entre a guitarra e as programações... Música crua num palco quente onde a sensualidade é violenta. Faltou deixá-la atravessar o véu transparente do ecrã virtual! But... we danced!!
Para completar a noite, e preencher os mais recônditos e exigentes espaços, Black Rebel Motorcycle Club! Foram tudo, e tudo o resto! Uma presença poderosa de três elementos aparentemente "«vulneráveis". Muita energia a envolver o ar molhado (a chuva caiu em força, a brindar um coroar de uma noite fantástica!), e na lamacice que se reinstalou, a multidão vibrou e esgotou as expectativas! Houve direito a "encore", que terminou num tema quase triste a prometer a melancolia feliz das recordações que ali se imprimiam.
Foi um "grande" Festival, Paredes de Coura! Mais do que "reunião", via-se "união" entre todas as partes que fazem um evento! Podia dizer simplesmente: "ADOREI!"... As tantas outras palavras que me decidi a escrever são a tentativa (tento acreditar que, não vã!) de partilhar os momentos fantásticos que lá vivi, com os que passam por aqui... e, de alguma forma também, guardá-los para mim...
Walkgirl
O dia corre calmo e sereno... O pessoal continua a fazer-se passear pelo cenário quase bucólico, preenchido de ar pasmacento, depois de noites agitadas sucessivas... À tarde, arrastam-se as pernas, mas mal o sol se põe, as baterias começam a dar sinais de recarregamento e a euforia faz-se notar nos olhares ansiosos e animados...
A banda que abre esta noite é Wray Gun. A formação nacional, liderada pelo front-man, Paulo "Legendary-Gun" Furtado, entra de mansinho, acompanhada pelo coro Godspell. Uma apresentação quase discreta que não deixava adivinhar o espectáculo que se ia seguir! A euforia dos blues, num cocktail com rock-soul-roll!!! A frenética e espontânea coreografia de um Show Man (com letra grande!) no seu melhor! O público assistia entre o atónito e o fervilhante, enquanto as músicas se sucediam, num crescendo, que terminou com Paulo Furtado de guitarra em punho nos braços do público, entre autógrafos e apertos de mão, entre abraços e palmas nas costas, entre gritos histéricos e assobios de quem se sentia entre "estrelas"! Os Wray Gun não só foram a banda nacional que se destacou, mas foram a banda que melhor performance apresentou. Entre nacionais e internacionais!! A confirmação de que a fasquia "cá dentro" está ao nível do que se faz lá fora, e que mais do que nunca, o argumento "ser português" não serve de desculpa nem a bandas, nem a públicos!! E por aí fora...
Por muito bom que fosse o que viesse a seguir, a imagem da "nossa" banda impunha-se na memória ainda fresca... E o tempo que demorou até "Mark Lanegan Band" subir ao palco não foi o suficiente para dissipar o entusiasmo que se instalara!... De tal forma, que o ambiente pesadamente intismista que se debruçou com a noite, não conseguiu envolver todos... muitos até se teriam esquecido, da curiosidade de ver a nova apresentação de um dos responsáveis dos Queen of the Stone Age. Mas, aqueles que conseguiram apanhar aquela nova onda, tiveram o prazer de balancear até à profundidade oceânica de uma voz hipnotizante. Mark Lanegan não falou uma palavra, e a estática do seu corpo chegava a ser comovedoramente dolorosa... Quase como se o mais infímo gesto pudesse quebrar aquele "cristal" que ganhava forma no palco e tentava abraçar o recinto, o mundo inteiro... A única palavra, foi no fim, um "obrigado", que não deixou adivinhar qualquer traço da identidade, qualquer emoção, da pessoa que abandonava o palco. Não foi "distante", mas não foi "sedutor"! Era preciso dar, entregar-se completamente, para poder sentir as moléculas vocais "bluesy" trespassarem cada célula do epitélio, até render o corpo a um estado de quase anestesia. Mais um grande concerto!
The Kills! A demora até o início do espectáculo conseguiu impacientar o público ao ponto de "estragar" alguma da predisposição para um espectáculo que prometia ser no mínimo revelador! Problemas técnicos que pareciam incontornáveis adiavam o descarregar de adrenalina que se transpirava no ar nacarado. Depois de uma partida em falso, o "show" arranca. A cumplicidade dos dois personagens, VV e Hotel, foi a luz predominante de cada tema. A garra de uma voz "colocada" à PJ Harvey, numa "dança" agressiva, entre cigarros e cabelos esvoaçantes... acompanhada pela magreza comum de um companheiro dividido entre a guitarra e as programações... Música crua num palco quente onde a sensualidade é violenta. Faltou deixá-la atravessar o véu transparente do ecrã virtual! But... we danced!!
Para completar a noite, e preencher os mais recônditos e exigentes espaços, Black Rebel Motorcycle Club! Foram tudo, e tudo o resto! Uma presença poderosa de três elementos aparentemente "«vulneráveis". Muita energia a envolver o ar molhado (a chuva caiu em força, a brindar um coroar de uma noite fantástica!), e na lamacice que se reinstalou, a multidão vibrou e esgotou as expectativas! Houve direito a "encore", que terminou num tema quase triste a prometer a melancolia feliz das recordações que ali se imprimiam.
Foi um "grande" Festival, Paredes de Coura! Mais do que "reunião", via-se "união" entre todas as partes que fazem um evento! Podia dizer simplesmente: "ADOREI!"... As tantas outras palavras que me decidi a escrever são a tentativa (tento acreditar que, não vã!) de partilhar os momentos fantásticos que lá vivi, com os que passam por aqui... e, de alguma forma também, guardá-los para mim...
Walkgirl
30.8.04
Disco: Plástica – The Red Light Underground (Metrodiscos 2004)
E esta?... Os Plástica lançam o segundo disco numa editora independente e volvidas umas semanas passaram em mais do dobro as vendas do primeiro trabalho!
Disponivel durante os primeiros 15 dias com o Blitz, mais um grande disco, neste momento já se encontra à venda em todas as lojas.
The Red Light Underground é excelente. Um dos melhores disco rock dos últimos anos.
À medida que vou ouvindo e repetindo este trabalho dos Plástica, vou descobrindo coisas novas, pormenores e ambientes que me fazem querer ouvir o disco outra vez.
O trabalho dos músicos é excepcional, desde a composição, à execução, ao som e atitude de cada um dos membros, formando um conjunto coeso, melodioso e poderoso.
O primeiro trabalho dos Plástica saiu via EMI, foi gravado com um orçamento confortável e produzido por um produtor inglês. Neste disco, a banda grava com meios próprios, na garagem de ensaios com os músicos à frente da produção e da gravação. Resultado: comprem o disco e digam-me! :)
Estará afastado o fantasma estrangeirista? Cá dentro também se podem fazer bem as coisas : The Red Light Underground é exemplo disso.
O disco é coeso, o bom gosto uma constante, recheado de grandes temas, riffs e experimentalismo q.b.
Visita os Plástica em www.plasticamusic.com e faz uma escuta ao disco. Se gostares vai a uma loja e compra-o. O preço anda à volta dos 9.50€.
A banda está a trabalhar a exportação deste trabalho e a marcar datas ao vivo para uma série de países europeus.
Força !
António Côrte-Real
Contactos:
Editora: metrónomo@metronomo.net
Site: www.plasticamusic.com
Concertos: 91-7519537
Disponivel durante os primeiros 15 dias com o Blitz, mais um grande disco, neste momento já se encontra à venda em todas as lojas.
The Red Light Underground é excelente. Um dos melhores disco rock dos últimos anos.
À medida que vou ouvindo e repetindo este trabalho dos Plástica, vou descobrindo coisas novas, pormenores e ambientes que me fazem querer ouvir o disco outra vez.
O trabalho dos músicos é excepcional, desde a composição, à execução, ao som e atitude de cada um dos membros, formando um conjunto coeso, melodioso e poderoso.
O primeiro trabalho dos Plástica saiu via EMI, foi gravado com um orçamento confortável e produzido por um produtor inglês. Neste disco, a banda grava com meios próprios, na garagem de ensaios com os músicos à frente da produção e da gravação. Resultado: comprem o disco e digam-me! :)
Estará afastado o fantasma estrangeirista? Cá dentro também se podem fazer bem as coisas : The Red Light Underground é exemplo disso.
O disco é coeso, o bom gosto uma constante, recheado de grandes temas, riffs e experimentalismo q.b.
Visita os Plástica em www.plasticamusic.com e faz uma escuta ao disco. Se gostares vai a uma loja e compra-o. O preço anda à volta dos 9.50€.
A banda está a trabalhar a exportação deste trabalho e a marcar datas ao vivo para uma série de países europeus.
Força !
António Côrte-Real
Contactos:
Editora: metrónomo@metronomo.net
Site: www.plasticamusic.com
Concertos: 91-7519537
29.8.04
In Vivo: Paredes de Coura - Take II
Paredes de Coura. Dia 18, 4ª feira. O sol espreita entre as nuvens que se passeiam ora mais “leves” ora mais ameaçadoras... Mas aguentam-se! Uns chuviscos a enfeitar agora e logo… “brincadeira de crianças” em comparação com o dia anterior.
Vou para o recinto mais cedo… Até porque me parece desperdício não aproveitar as “ofertas” do cartaz. Ainda assisto a uma parte considerável do concerto de Josh Rouse. Intimista, pacífico, sereno… sem tristeza mas meditativo. Um aperitivo perfeito, ainda que bem distante da “ementa” proposta para essa noite. Uma das revelações deste Festival, no Palco dos “Songwriters”.
O frio começa a cair em força e vejo-me obrigada a sair para reforçar agasalho… a noite ainda está a começar…
Chego pela segunda vez ao recinto, já tinha começado o concerto de Mão Morta, em interpretação de “as bonecas” de Braga. Surpreendem-me com uma indumentária bem coqueluche e requintada, cabeleiras e vestidos de cor… O alinhamento passa sobretudo por temas anteriores ao último álbum “Nus”, que no contexto em questão não faria tanto sentido, mas que a meu ver, podia ter sido mais explorado... Foi um bom espectáculo, que acabou naquele momento em que ganhou o “balanço”! Mão Morta, os Mão Morta de outrora, numa performance irrepreensível, mas a revelar ainda assim a falta de um “retoque final”, que não consigo identificar! Uma revelação que se manteve em segredo, um silêncio inseguro, a ausência de uma fala na peça… Encheu mas não preencheu.
Talvez o cansaço que acumulei, naquele momento começasse a repercutir efeitos! A envolvência do primeiro dia, no segundo, esmoreceu. Cheguei a sentir a falta do “chuveiro” de S. Pedro…
MC5! A voz “Godspell”, num contexto melódico distinto do habitual conseguiu despoletar a atenção do público. O ambiente era calmo, e a actuação foi envolvente, com o tempero de um passado misturado num presente indefinido, numa espécie de embriaguez que se instalava tranquilamente… Os ritmos mais agressivos conseguiam combinar-se com a ligeireza de vozes potentes, mas tranquilas… No espectáculo marcou-me o “sabor”, que foi qualquer coisa de familiar numa apresentação inesperadamente reveladora… Foi estranho…
Mondo Generator foi a banda que se seguiu… E foi, na minha opinião, aquela que menos impacto conseguiu. Os sons que pareciam colar-se uns aos outros, teve o condão de instalar um desânimo que, em mim, se reflectiu até ao fim daquela noite. Tenho consciência que a saturação de ondulações monotonamente revividas, em registos que não deixavam distinguir as formas dos objectos, esgotaram a minha predisposição para o “lugar” onde supostamente queria estar! Talvez por isso, acabei por deixar a vontade das minhas pernas sobrepor-se à vontade de ouvir o que vinha a seguir… e abandonei o recinto ao segundo tema da banda que muitos esperavam, os cabeça de cartaz, Motorhead!
No dia seguinte, perscrutando opiniões cheguei a conclusão nenhuma… Motorhead foi o grande concerto de muitos e o fim da noite de Festival para outros! É curioso observar como se conseguem misturar tão bem, gostos tão divergentes, e como um mesmo espectáculo consegue reproduzir efeitos tão desiguais…
A minha segunda noite de Festival foi um menos cúmplice… O público pareceu-me mais apático, as bandas ofereceram registos mais próximos, e a falta de alguma animosidade quer das bandas quer do povo esmoreceu a euforia… Constante foi o álcool, que continuou a rolar garganta abaixo e o fumo dos cigarros, que dava uma cor diferente ao ar da noite… A chuva marcou uma presença tímida, e como alguns, optou mesmo por se resguardar na sua tenda, à espera do dia seguinte.
Analisando, honestamente, as coisas… tenho consciência que as minhas preferências musicais se reflectiram na forma como vivi as actuações desse dia. Um reflexo que provavelmente se fez notar em muita gente que como eu abandonou o recinto mais cedo. Ainda assim, considero que a diversidade de um cartaz, como aconteceu no Festival de Paredes de Coura, é uma qualidade. Aquela que, por excelência, pode oferecer o requinte da sensibilidade. Um instrumento precioso para a avaliação de um desempenho, independentemente de nos agradar ou não. E no melhor ou no pior, há sempre qualquer coisa a absorver… e a aprender… sempre!
Walkgirl
Vou para o recinto mais cedo… Até porque me parece desperdício não aproveitar as “ofertas” do cartaz. Ainda assisto a uma parte considerável do concerto de Josh Rouse. Intimista, pacífico, sereno… sem tristeza mas meditativo. Um aperitivo perfeito, ainda que bem distante da “ementa” proposta para essa noite. Uma das revelações deste Festival, no Palco dos “Songwriters”.
O frio começa a cair em força e vejo-me obrigada a sair para reforçar agasalho… a noite ainda está a começar…
Chego pela segunda vez ao recinto, já tinha começado o concerto de Mão Morta, em interpretação de “as bonecas” de Braga. Surpreendem-me com uma indumentária bem coqueluche e requintada, cabeleiras e vestidos de cor… O alinhamento passa sobretudo por temas anteriores ao último álbum “Nus”, que no contexto em questão não faria tanto sentido, mas que a meu ver, podia ter sido mais explorado... Foi um bom espectáculo, que acabou naquele momento em que ganhou o “balanço”! Mão Morta, os Mão Morta de outrora, numa performance irrepreensível, mas a revelar ainda assim a falta de um “retoque final”, que não consigo identificar! Uma revelação que se manteve em segredo, um silêncio inseguro, a ausência de uma fala na peça… Encheu mas não preencheu.
Talvez o cansaço que acumulei, naquele momento começasse a repercutir efeitos! A envolvência do primeiro dia, no segundo, esmoreceu. Cheguei a sentir a falta do “chuveiro” de S. Pedro…
MC5! A voz “Godspell”, num contexto melódico distinto do habitual conseguiu despoletar a atenção do público. O ambiente era calmo, e a actuação foi envolvente, com o tempero de um passado misturado num presente indefinido, numa espécie de embriaguez que se instalava tranquilamente… Os ritmos mais agressivos conseguiam combinar-se com a ligeireza de vozes potentes, mas tranquilas… No espectáculo marcou-me o “sabor”, que foi qualquer coisa de familiar numa apresentação inesperadamente reveladora… Foi estranho…
Mondo Generator foi a banda que se seguiu… E foi, na minha opinião, aquela que menos impacto conseguiu. Os sons que pareciam colar-se uns aos outros, teve o condão de instalar um desânimo que, em mim, se reflectiu até ao fim daquela noite. Tenho consciência que a saturação de ondulações monotonamente revividas, em registos que não deixavam distinguir as formas dos objectos, esgotaram a minha predisposição para o “lugar” onde supostamente queria estar! Talvez por isso, acabei por deixar a vontade das minhas pernas sobrepor-se à vontade de ouvir o que vinha a seguir… e abandonei o recinto ao segundo tema da banda que muitos esperavam, os cabeça de cartaz, Motorhead!
No dia seguinte, perscrutando opiniões cheguei a conclusão nenhuma… Motorhead foi o grande concerto de muitos e o fim da noite de Festival para outros! É curioso observar como se conseguem misturar tão bem, gostos tão divergentes, e como um mesmo espectáculo consegue reproduzir efeitos tão desiguais…
A minha segunda noite de Festival foi um menos cúmplice… O público pareceu-me mais apático, as bandas ofereceram registos mais próximos, e a falta de alguma animosidade quer das bandas quer do povo esmoreceu a euforia… Constante foi o álcool, que continuou a rolar garganta abaixo e o fumo dos cigarros, que dava uma cor diferente ao ar da noite… A chuva marcou uma presença tímida, e como alguns, optou mesmo por se resguardar na sua tenda, à espera do dia seguinte.
Analisando, honestamente, as coisas… tenho consciência que as minhas preferências musicais se reflectiram na forma como vivi as actuações desse dia. Um reflexo que provavelmente se fez notar em muita gente que como eu abandonou o recinto mais cedo. Ainda assim, considero que a diversidade de um cartaz, como aconteceu no Festival de Paredes de Coura, é uma qualidade. Aquela que, por excelência, pode oferecer o requinte da sensibilidade. Um instrumento precioso para a avaliação de um desempenho, independentemente de nos agradar ou não. E no melhor ou no pior, há sempre qualquer coisa a absorver… e a aprender… sempre!
Walkgirl
26.8.04
In Vivo: Paredes de Coura - Take I
Paredes de Coura. Dia 17, 3ª feira. Depois de montar tenda num parque de campismo com uma densidade populacional bastante razoável, debaixo de um céu em ameaça permanente de chuva, sigo caminho para o recinto. Ao longe ainda consigo distinguir o “som” de Arrested Development. Um concerto, que me escapa porque o tempo corre, em vez de andar…
Mas a noite ainda está a começar… E promete! :)
Bunnyrunch! A banda entra em palco no momento em que eu entro em público. Uma sintonia simpática e encorajadora! Os Bunnyrunch são tugas!... “Sorry! We’re not Snow Patrol! We are… We are… Bunnyrunch! Bunnyrunch!”... A apresentação de um invulgar vocalista/baterista, que dispensa o banco tradicional e toca os pratos, a tarola e o bombo (isso mesmo!)… “stand up”! enquanto se passeia em volta de uma bateria que é a sua companheira de dança! Roll… rock and roll! É o mote e é a música com o dom de fazer parar a chuva! O povo salta e balança! Enquanto a festa dura, a chuva espera… para depois jorrar a cântaros, quase convidativos de gel de duche. A banda nacional agradece a presença de um público melómano, ao ponto de preterir o saco cama de uma tenda enxuta, aos sons electrizantes das guitarras aquecidas pela adrenalina de emoções levadas ao rubro!
Seguem-se John Spencer Blues Explosion! O anfitrião da noite é mesmo o rock, em misturas diversas, e não há descontentamentos! Os pés agitam-se enquanto evitam enterrar-se na matéria lamacenta em que se transformou o pó de dias quentes e secos anteriores! O público mantém-se!... Uma actuação fervilhante! Guitarras explosivas e a garra de uma voz que faz questão de se impor... Os blues a despoletar num “shake” enérgico e mais alternativo, mas intemporal!... Para muitos, o espectáculo da noite! A mim, marcou-me sobretudo pelos inesperados desvios de uma indumentária musical, com que contactei pela primeira vez na actuação no Festival da Ilha do Ermal em 2002, e que em Paredes de Coura revelou outra faceta dessa identidade que são os JSBE.
Scissor Sisters! O concerto foi de um rock-pop-roll, dançante e provocante! O sabor picante que a chuva não conseguiu dissipar! As roupas saíram molhadas, os cabelos escorreram água, a lama instalou-se definitivamente nos pés… A música entranhava-se, misturada na água da chuva, e os rostos esboçavam sorrisos, enquanto os corpos não paravam (não podiam dar-se ao luxo de arrefecer!)… Estava tudo doido! A imagem era digna de um vídeo-clip! ;) O desempenho foi o esperado, e apenas ficou a faltar aquele toque “pessoal” imprevisível, de qualquer “alive”... A banda podia talvez ter sido mais, mas o mais que lhes faltou, aconteceu no público. Um público que teimosamente insistiu em ficar e em viver aquele momento! Um momento que se tornou mais intenso porque a entrega foi a do que se pedia, e a do que não se ousava pedir!
O espectáculo é muito mais que o desempenho de uma banda, é muito mais que a paixão pela música, é muito mais que um lugar… é um conforto… Uma entrega comum, uma partilha de um momento que é especial pela aura que todo um contexto consegue criar e elevar! No final da noite, as pernas pesavam-me em direcção à tenda que sabia lá se ainda estava de pé… e enquanto ia sentindo o frio a chegar de mansinho, pensava no dócil conforto do suave regresso a um estado de “mim”... pleno de momentos recentes para recordar e reviver, ali e em distâncias inevitavelmente crescentes. Um regresso inconsciente de um estado de “nós”. O “nós” que era aquele número indeterminável de gente, debaixo de chuva, em cima de lama, no escuro, e de corpo e alma num palco de luzes... luzes que aconteciam entre as vagas de sons que iam escapando deliberadamente estudados!
A música foi o elemento unificador daquela massa humana, mas a intempérie que se abateu naquela minha primeira noite de Festival, foi a substância que consolidou a incoerência contextual do cenário. Seja lá qual for o verdadeiro “segredo”… um Festival é mesmo uma “festa” especial!... Paredes de Coura não ficou por aqui…
Walkgirl
Mas a noite ainda está a começar… E promete! :)
Bunnyrunch! A banda entra em palco no momento em que eu entro em público. Uma sintonia simpática e encorajadora! Os Bunnyrunch são tugas!... “Sorry! We’re not Snow Patrol! We are… We are… Bunnyrunch! Bunnyrunch!”... A apresentação de um invulgar vocalista/baterista, que dispensa o banco tradicional e toca os pratos, a tarola e o bombo (isso mesmo!)… “stand up”! enquanto se passeia em volta de uma bateria que é a sua companheira de dança! Roll… rock and roll! É o mote e é a música com o dom de fazer parar a chuva! O povo salta e balança! Enquanto a festa dura, a chuva espera… para depois jorrar a cântaros, quase convidativos de gel de duche. A banda nacional agradece a presença de um público melómano, ao ponto de preterir o saco cama de uma tenda enxuta, aos sons electrizantes das guitarras aquecidas pela adrenalina de emoções levadas ao rubro!
Seguem-se John Spencer Blues Explosion! O anfitrião da noite é mesmo o rock, em misturas diversas, e não há descontentamentos! Os pés agitam-se enquanto evitam enterrar-se na matéria lamacenta em que se transformou o pó de dias quentes e secos anteriores! O público mantém-se!... Uma actuação fervilhante! Guitarras explosivas e a garra de uma voz que faz questão de se impor... Os blues a despoletar num “shake” enérgico e mais alternativo, mas intemporal!... Para muitos, o espectáculo da noite! A mim, marcou-me sobretudo pelos inesperados desvios de uma indumentária musical, com que contactei pela primeira vez na actuação no Festival da Ilha do Ermal em 2002, e que em Paredes de Coura revelou outra faceta dessa identidade que são os JSBE.
Scissor Sisters! O concerto foi de um rock-pop-roll, dançante e provocante! O sabor picante que a chuva não conseguiu dissipar! As roupas saíram molhadas, os cabelos escorreram água, a lama instalou-se definitivamente nos pés… A música entranhava-se, misturada na água da chuva, e os rostos esboçavam sorrisos, enquanto os corpos não paravam (não podiam dar-se ao luxo de arrefecer!)… Estava tudo doido! A imagem era digna de um vídeo-clip! ;) O desempenho foi o esperado, e apenas ficou a faltar aquele toque “pessoal” imprevisível, de qualquer “alive”... A banda podia talvez ter sido mais, mas o mais que lhes faltou, aconteceu no público. Um público que teimosamente insistiu em ficar e em viver aquele momento! Um momento que se tornou mais intenso porque a entrega foi a do que se pedia, e a do que não se ousava pedir!
O espectáculo é muito mais que o desempenho de uma banda, é muito mais que a paixão pela música, é muito mais que um lugar… é um conforto… Uma entrega comum, uma partilha de um momento que é especial pela aura que todo um contexto consegue criar e elevar! No final da noite, as pernas pesavam-me em direcção à tenda que sabia lá se ainda estava de pé… e enquanto ia sentindo o frio a chegar de mansinho, pensava no dócil conforto do suave regresso a um estado de “mim”... pleno de momentos recentes para recordar e reviver, ali e em distâncias inevitavelmente crescentes. Um regresso inconsciente de um estado de “nós”. O “nós” que era aquele número indeterminável de gente, debaixo de chuva, em cima de lama, no escuro, e de corpo e alma num palco de luzes... luzes que aconteciam entre as vagas de sons que iam escapando deliberadamente estudados!
A música foi o elemento unificador daquela massa humana, mas a intempérie que se abateu naquela minha primeira noite de Festival, foi a substância que consolidou a incoerência contextual do cenário. Seja lá qual for o verdadeiro “segredo”… um Festival é mesmo uma “festa” especial!... Paredes de Coura não ficou por aqui…
Walkgirl
25.8.04
Radio UK
Intróito:
O fenómeno das rádios formatadas com base em estudos de mercado não é um exclusivo português. Longe disso! Sem tecer considerações sobre a forma como esses estudos são realizados e aplicados, a minha crónica de hoje recupera um episódio - delicioso - ocorrido numa semana de Junho passado, no Reino Unido.
Os intervenientes e a semana:
A rádio
Classic Gold Digital, estação destinada a um público adulto, com música adequada a esse target e com forte aposta na programação.
O animador
Tony Blackburn, 61 anos de idade, 40 de carreira, iniciou-se na lendária e pirata Radio Caroline, apresentou o mítico “Top of the Pops” e foi disk-jockey da BBC Radio One. Actualmente, é o responsável pelo programa da manhã da Classic Gold Digital e recebeu o prémio de “Oldie of the Year” em 2003.
O artista
Cliff Richard, 63 anos de idade, 46 de carreira, teve como primeiro single o sucesso “Move It” (1958), conta com o record de “hit singles” no top inglês (126, com 14 a chegaram ao nº 1) e, segundo o Channel 4, é o artista com mais singles vendidos no Reino Unido (21 milhões).
2ª feira
O irreverente Tony Blackburn decide passar dois temas de Cliff Richard (não incluídos na playlist), no seu programa da manhã. Nesse mesmo dia, a Direcção da Rádio chama-o para uma reunião, onde é avisado para não tocar mais canções de Cliff.
3ª feira
Contrariando as instruções recebidas, Blackburn coloca no ar “Summer Holiday” (1963, 1º lugar no top inglês) e o Director de Programas, Paul Baker, envia um email ao apresentador:
“Não deveríamos estar a tocar Cliff Richard. Temos uma decisão, na política da estação, de que ele não corresponde aos nossos critérios de antena. Ele não está na playlist, e deves parar de tocar os seus discos”.
4ª feira
Estando “no ar” e sem meias medidas, Tony Blackburn decide partilhar com o auditório o teor do email do Director de Programas. De seguida, rasga o papel, atira-o para o lixo e toca mais dois antigos sucessos de Cliff Richard, “Living Doll” (1959, 1ºlugar no top inglês) e “We Don’t Talk Any More” (1979, 1º lugar no top inglês, 7º lugar no top americano e Disco de Ouro, em Portugal).
Como seria de esperar, as coisas tendem a rebentar...
O Director da Classic Gold Digital, John Baish, reage de imediato, também por email, e decreta a suspensão de Blackburn:
“Estás, constantemente, a quebrar a política musical da estação. Vincámos a nossa posição de forma tão clara quanto nos era possível. Não tenho outra opção senão suspender-te até que esta situação se possa resolver”, escreveu.
Baish anuncia que Blackburn não fará o seu programa na 5ª feira, para permitir, aos dois lados, “espaço para respirar” e solucionarem as suas divergências.
“O Tony acredita que o Cliff tem algumas excelentes canções e procurava testar a adesão do público”, disse ele. “Fazê-lo no ar não é a melhor forma de tomar estas decisões – nós temos estudos muito sofisticados.”
5ª feira
Tony Blackburn encontra-se suspenso e não apresenta o programa da manhã. Entretanto, a Classic Gold Digital é verdadeiramente inundada com emails e telefonemas de suporte a Blackburn e à passagem de temas de Cliff Richard. A chuva de reclamações torna a situação insustentável. O assunto chega, mesmo, à Câmara dos Comuns, onde o respectivo Líder apoia Blackburn e as suas escolhas musicais.
6ª feira
Sem espaço de manobra, dada a amplitude dos protestos, a Classic Gold Digital divulga que Blackburn vai regressar e que a música de Cliff Richard irá passar a integrar a playlist.
À BBC News Online, o Director da Rádio, John Baish, assumiu que foram “inundados com o apoio a Cliff. Deveríamos estar a tocá-lo tanto quanto The Beatles, e tocamos The Beatles com frequência. Esta briga nunca foi, realmente, sobre o Cliff. Foi, apenas, uma situação com o Tony que saiu de controle.”
Já o Director de Programas, Paul Baker, afirmou ao Daily Mirror que a “estação tem que dar ouvidos aos seus ouvintes ou eles não escutarão a estação”. Acrescentou, ainda, que “neste momento é absolutamente óbvio que os ouvintes querem escutar Cliff”.
Tony Blackburn, por sua vez, afirmou: “Estou encantado por esta questão se ter solucionado. Foram os ouvintes que ficaram por cima”.
E que pensou Cliff Richard disto tudo? Como seria natural, estava “realmente radiante”, até porque “Tinha desistido de me preocupar com isso há 3 ou 4 anos atrás. Tentei conversar e conseguir o meu lugar nas playlists, mas, não deu resultado e não entendi porquê – eu não tinha feito nada de errado para ser banido desta forma. Agora que o Tony pegou no bastão, pensei, óptimo.”
Blackburn tinha dito antes, no programa “Today” da BBC Radio 4, que “preferiria não perder o seu emprego por causa de Cliff Richard”, mas, que a suspensão tinha “um propósito sério”. “Não estamos a tocar discos para a Direcção, estamos a tocar para os nossos ouvintes. E os ouvintes gostam de Cliff”, disse ele.
[Sobre esta história, ocorrida numa sociedade onde a indústria musical é bem mais evoluída que a nossa, não ouso tecer conclusões. Tony Blackburn, Paul Baker, John Baish e Cliff Richard são nomes concretos de um exemplo concreto, mas, a reflexão que considero importante não é a dos nomes aqui referidos. A reflexão que se torna urgente efectuar é outra, mais profunda, em que este “caso” é, mera e precisamente, um exemplo.
Os estudos de mercado, os consultores, os resultados e a aplicação desses estudos que valor têm e como devem ser usados?]
Luís Silva do Ó
O fenómeno das rádios formatadas com base em estudos de mercado não é um exclusivo português. Longe disso! Sem tecer considerações sobre a forma como esses estudos são realizados e aplicados, a minha crónica de hoje recupera um episódio - delicioso - ocorrido numa semana de Junho passado, no Reino Unido.
Os intervenientes e a semana:
A rádio
Classic Gold Digital, estação destinada a um público adulto, com música adequada a esse target e com forte aposta na programação.
O animador
Tony Blackburn, 61 anos de idade, 40 de carreira, iniciou-se na lendária e pirata Radio Caroline, apresentou o mítico “Top of the Pops” e foi disk-jockey da BBC Radio One. Actualmente, é o responsável pelo programa da manhã da Classic Gold Digital e recebeu o prémio de “Oldie of the Year” em 2003.
O artista
Cliff Richard, 63 anos de idade, 46 de carreira, teve como primeiro single o sucesso “Move It” (1958), conta com o record de “hit singles” no top inglês (126, com 14 a chegaram ao nº 1) e, segundo o Channel 4, é o artista com mais singles vendidos no Reino Unido (21 milhões).
2ª feira
O irreverente Tony Blackburn decide passar dois temas de Cliff Richard (não incluídos na playlist), no seu programa da manhã. Nesse mesmo dia, a Direcção da Rádio chama-o para uma reunião, onde é avisado para não tocar mais canções de Cliff.
3ª feira
Contrariando as instruções recebidas, Blackburn coloca no ar “Summer Holiday” (1963, 1º lugar no top inglês) e o Director de Programas, Paul Baker, envia um email ao apresentador:
“Não deveríamos estar a tocar Cliff Richard. Temos uma decisão, na política da estação, de que ele não corresponde aos nossos critérios de antena. Ele não está na playlist, e deves parar de tocar os seus discos”.
4ª feira
Estando “no ar” e sem meias medidas, Tony Blackburn decide partilhar com o auditório o teor do email do Director de Programas. De seguida, rasga o papel, atira-o para o lixo e toca mais dois antigos sucessos de Cliff Richard, “Living Doll” (1959, 1ºlugar no top inglês) e “We Don’t Talk Any More” (1979, 1º lugar no top inglês, 7º lugar no top americano e Disco de Ouro, em Portugal).
Como seria de esperar, as coisas tendem a rebentar...
O Director da Classic Gold Digital, John Baish, reage de imediato, também por email, e decreta a suspensão de Blackburn:
“Estás, constantemente, a quebrar a política musical da estação. Vincámos a nossa posição de forma tão clara quanto nos era possível. Não tenho outra opção senão suspender-te até que esta situação se possa resolver”, escreveu.
Baish anuncia que Blackburn não fará o seu programa na 5ª feira, para permitir, aos dois lados, “espaço para respirar” e solucionarem as suas divergências.
“O Tony acredita que o Cliff tem algumas excelentes canções e procurava testar a adesão do público”, disse ele. “Fazê-lo no ar não é a melhor forma de tomar estas decisões – nós temos estudos muito sofisticados.”
5ª feira
Tony Blackburn encontra-se suspenso e não apresenta o programa da manhã. Entretanto, a Classic Gold Digital é verdadeiramente inundada com emails e telefonemas de suporte a Blackburn e à passagem de temas de Cliff Richard. A chuva de reclamações torna a situação insustentável. O assunto chega, mesmo, à Câmara dos Comuns, onde o respectivo Líder apoia Blackburn e as suas escolhas musicais.
6ª feira
Sem espaço de manobra, dada a amplitude dos protestos, a Classic Gold Digital divulga que Blackburn vai regressar e que a música de Cliff Richard irá passar a integrar a playlist.
À BBC News Online, o Director da Rádio, John Baish, assumiu que foram “inundados com o apoio a Cliff. Deveríamos estar a tocá-lo tanto quanto The Beatles, e tocamos The Beatles com frequência. Esta briga nunca foi, realmente, sobre o Cliff. Foi, apenas, uma situação com o Tony que saiu de controle.”
Já o Director de Programas, Paul Baker, afirmou ao Daily Mirror que a “estação tem que dar ouvidos aos seus ouvintes ou eles não escutarão a estação”. Acrescentou, ainda, que “neste momento é absolutamente óbvio que os ouvintes querem escutar Cliff”.
Tony Blackburn, por sua vez, afirmou: “Estou encantado por esta questão se ter solucionado. Foram os ouvintes que ficaram por cima”.
E que pensou Cliff Richard disto tudo? Como seria natural, estava “realmente radiante”, até porque “Tinha desistido de me preocupar com isso há 3 ou 4 anos atrás. Tentei conversar e conseguir o meu lugar nas playlists, mas, não deu resultado e não entendi porquê – eu não tinha feito nada de errado para ser banido desta forma. Agora que o Tony pegou no bastão, pensei, óptimo.”
Blackburn tinha dito antes, no programa “Today” da BBC Radio 4, que “preferiria não perder o seu emprego por causa de Cliff Richard”, mas, que a suspensão tinha “um propósito sério”. “Não estamos a tocar discos para a Direcção, estamos a tocar para os nossos ouvintes. E os ouvintes gostam de Cliff”, disse ele.
[Sobre esta história, ocorrida numa sociedade onde a indústria musical é bem mais evoluída que a nossa, não ouso tecer conclusões. Tony Blackburn, Paul Baker, John Baish e Cliff Richard são nomes concretos de um exemplo concreto, mas, a reflexão que considero importante não é a dos nomes aqui referidos. A reflexão que se torna urgente efectuar é outra, mais profunda, em que este “caso” é, mera e precisamente, um exemplo.
Os estudos de mercado, os consultores, os resultados e a aplicação desses estudos que valor têm e como devem ser usados?]
Luís Silva do Ó
19.8.04
Saí para comprar pincéis.
Às vezes é bom desligar-mo-nos do mundo. Sermos nós mesmos. Apenas isso. Ser.
Sou músico. Sou português. Vivo um momento de (estranhamente) agradável falta de sintonia com a música. Algum desencanto, talvez, mas longe de ser triste. Nem se pense que vou desistir ou baixar os braços - Não - mas terei, talvez, mudado um pouco a minha postura.
Recordo sempre uma das metáforas que costumava usar para explicar a pessoas que precisavam de conversar e que se sentiam algo isoladas no mundo.
A vida é como um gigantesco muro que temos que pintar da nossa cor (púrpura serve perfeitamente para mim, obrigado. ou roxo. qqr coisa nesse tom)... Não o pintar é mau. Tentar pintá-lo pode acabar por nos matar. Começamos jovens, inexperientes, insensatos... com um mero pincel e uma latinha de tinta. Para tornar as coisas mais ridículas, imaginemo-nos com um pincel de aguarela na mão. Daqueles fininhos. À nossa frente, um muro até perder de vista, branco.
Começar desde logo a labuta seria condená-la ao fracasso. Há que ser inteligente. Dar umas pinceladas, ver um pouco da técnica, dar uns salpicos aqui e ali... Depois há que crescer. Sair da frente do muro. Conhecer gente, trocar ideias, aprender, ensinar, ajudar, ser ajudado. Há que mostrar o nosso trabalho a alguém. Gostas? É a cor que eu escolhi. Há que pegar no pincel, colocá-lo na mão dessa pessoa e ajudá-la a dar a primeira pincelada. Fazê-la ganhar o gosto por aquilo. Pô-la a ela a pintar. Depois, de mansinho, temos que sair e investir em nós próprios. Compremos então uma lata de tinta maior, um pincel igualmente maior. E voltemos para lá. Continuemos o trabalho, sós ou acompanhados. Dominemos novas técnicas, desenvolvamos algo que nos dê gozo apreciar, no fim do dia.
Saiamos... conheçamos mais gente, levemos o nosso amigo aprendiz de pintor. Conheçamos mais gente, troquemos ideias, experiências, façamos amizades e mostremos-lhes o nosso muro. Pintemos com eles. Há que rir, há que aproveitar esses momentos de troca de ideias.
Saiamos a meio. A cada período de aprendizagem intercalemos com um período de assimilação. Além de aprender, temos que apreender. Compremos uns bidões de tinta, uns pincéis tamanho gigante. Voltamos ao muro, pintamos, conhecemos gente, pômo-las a pintar, a ver o muro pelos nossos olhos, a ver o mundo pelos nossos olhos, pômo-las a trocar ideias entre elas, compramos rolos, máquinas de pintar, acabamos por comprar material que nós próprios não usamos, mas que é usado pela multidão de pequenos pintores que vamos encontrando e pondo a pintar um muro. Aquele muro.
Poderemos morrer, entretanto, mas morreremos com a certeza de que haverá mais gente a tentar tornar aquele enorme muro. O mesmo muro que, sozinhos, teríamos sido incapazes de pintar 1 milionésimo. Morreremos mas teremos deixado ficar algo. Dormiremos, mas outros cumprirão esse turno.
Os homens passam, mas a sua obra, a sua mensagem fica.
Finda a metáfora, julgo que atravesso, musicalmente, uma fase em que fui comprar pincéis.
Estou um pouco cansado, estou um pouco desligado, talvez até desiludido com muitas das coisas relacionadas com a música em Portugal, mas voltarei à carga, quiçá com mais meia dúzia de pintores e com uns rolos de pintar anti-salpicos?
Saí, com os The FingerTrips, um pouco das luzes da ribalta que chegaram a passar, numa reduzidíssima escala, por nós. Andamos mais reservados. Damos menos concertos, tornamo-nos mais exigentes, mas também mais generosos para com o público. Vamos tendo também a consciência de que a música dificilmente passará de um hobby. Um passatempo. Uma paixão. Algo que queremos fazer, mas que não é, fruto das exigências da vida, aquilo que pomos em primeiro plano 24 horas por dia.
Recebi recentemente em casa o pagamento de uns Royalties relativos à venda de CDs editados de um concurso em que participámos. 16 Euros. Não dá nem para os pincéis. Torna mais visíveis os contornos que definem que a música não pode ser um investimento grande demais nas nossas vidas. Por outro lado, sabe bem. É uma sensação estranha, diferente.
Entretanto, vamos aproveitando a vida, aprendendo um pouco, juntando dinheiro para pincéis, preparando novos projectos (se correr bem, tudo estará por cá antes do Natal), novas técnicas de desenho, novas maneiras de fazer aquilo que gostamos: a música.
Sou músico. Sou português. Vivo um momento de (estranhamente) agradável falta de sintonia com a música. Algum desencanto, talvez, mas longe de ser triste. Nem se pense que vou desistir ou baixar os braços - Não - mas terei, talvez, mudado um pouco a minha postura.
Recordo sempre uma das metáforas que costumava usar para explicar a pessoas que precisavam de conversar e que se sentiam algo isoladas no mundo.
A vida é como um gigantesco muro que temos que pintar da nossa cor (púrpura serve perfeitamente para mim, obrigado. ou roxo. qqr coisa nesse tom)... Não o pintar é mau. Tentar pintá-lo pode acabar por nos matar. Começamos jovens, inexperientes, insensatos... com um mero pincel e uma latinha de tinta. Para tornar as coisas mais ridículas, imaginemo-nos com um pincel de aguarela na mão. Daqueles fininhos. À nossa frente, um muro até perder de vista, branco.
Começar desde logo a labuta seria condená-la ao fracasso. Há que ser inteligente. Dar umas pinceladas, ver um pouco da técnica, dar uns salpicos aqui e ali... Depois há que crescer. Sair da frente do muro. Conhecer gente, trocar ideias, aprender, ensinar, ajudar, ser ajudado. Há que mostrar o nosso trabalho a alguém. Gostas? É a cor que eu escolhi. Há que pegar no pincel, colocá-lo na mão dessa pessoa e ajudá-la a dar a primeira pincelada. Fazê-la ganhar o gosto por aquilo. Pô-la a ela a pintar. Depois, de mansinho, temos que sair e investir em nós próprios. Compremos então uma lata de tinta maior, um pincel igualmente maior. E voltemos para lá. Continuemos o trabalho, sós ou acompanhados. Dominemos novas técnicas, desenvolvamos algo que nos dê gozo apreciar, no fim do dia.
Saiamos... conheçamos mais gente, levemos o nosso amigo aprendiz de pintor. Conheçamos mais gente, troquemos ideias, experiências, façamos amizades e mostremos-lhes o nosso muro. Pintemos com eles. Há que rir, há que aproveitar esses momentos de troca de ideias.
Saiamos a meio. A cada período de aprendizagem intercalemos com um período de assimilação. Além de aprender, temos que apreender. Compremos uns bidões de tinta, uns pincéis tamanho gigante. Voltamos ao muro, pintamos, conhecemos gente, pômo-las a pintar, a ver o muro pelos nossos olhos, a ver o mundo pelos nossos olhos, pômo-las a trocar ideias entre elas, compramos rolos, máquinas de pintar, acabamos por comprar material que nós próprios não usamos, mas que é usado pela multidão de pequenos pintores que vamos encontrando e pondo a pintar um muro. Aquele muro.
Poderemos morrer, entretanto, mas morreremos com a certeza de que haverá mais gente a tentar tornar aquele enorme muro. O mesmo muro que, sozinhos, teríamos sido incapazes de pintar 1 milionésimo. Morreremos mas teremos deixado ficar algo. Dormiremos, mas outros cumprirão esse turno.
Os homens passam, mas a sua obra, a sua mensagem fica.
Finda a metáfora, julgo que atravesso, musicalmente, uma fase em que fui comprar pincéis.
Estou um pouco cansado, estou um pouco desligado, talvez até desiludido com muitas das coisas relacionadas com a música em Portugal, mas voltarei à carga, quiçá com mais meia dúzia de pintores e com uns rolos de pintar anti-salpicos?
Saí, com os The FingerTrips, um pouco das luzes da ribalta que chegaram a passar, numa reduzidíssima escala, por nós. Andamos mais reservados. Damos menos concertos, tornamo-nos mais exigentes, mas também mais generosos para com o público. Vamos tendo também a consciência de que a música dificilmente passará de um hobby. Um passatempo. Uma paixão. Algo que queremos fazer, mas que não é, fruto das exigências da vida, aquilo que pomos em primeiro plano 24 horas por dia.
Recebi recentemente em casa o pagamento de uns Royalties relativos à venda de CDs editados de um concurso em que participámos. 16 Euros. Não dá nem para os pincéis. Torna mais visíveis os contornos que definem que a música não pode ser um investimento grande demais nas nossas vidas. Por outro lado, sabe bem. É uma sensação estranha, diferente.
Entretanto, vamos aproveitando a vida, aprendendo um pouco, juntando dinheiro para pincéis, preparando novos projectos (se correr bem, tudo estará por cá antes do Natal), novas técnicas de desenho, novas maneiras de fazer aquilo que gostamos: a música.
18.8.04
O Primário
Este calmo Agosto de Lisboa, dá-me para falar, entre chuviscos e ameaços de intempérie, do que está para lá das fachadas. Desta vez, literalmente, dos edifícios.
A cidade antiga, esta como outras, esconde o mundo ininteligível das escolas de música e dos conservatórios. Isto a propósito da escrita dos músicos, que também se aprende. Assim se passa com a música propriamente dita, entender e saber harmonizar sons. Apesar do mérito do reino “de ouvido”, como se pode continuar a encarar como saber menor a teoria e técnica musical?
Até entendo que os preços sejam proibitivos e as entradas por demais condicionadas em conservatórios e mesmo em instituições de todo privadas. Se calhar conhecem através de alguém a dificuldade de graus de equivalência entre conservatórios e demais escolas, bem como a aberração constituída por algumas audições de acesso.
Os programas de ensino nas escolas públicas deviam dar importância à música desde o primário. Não se fazem poetas com domínio de técnica sem estudos na área, tal como duvido que se façam verdadeiros músicos que saibam o estão a fazer e onde podem chegar no campo da harmonia dos sons, sem estudos de música. Saber música abre horizontes até para se entender o que se ouve, sem ser apenas pelos tradicionais “soa bem, é bonito”, “ganda som”.
Tive o privilégio de estudar música numa sociedade filarmónica – a União Artística, em Santiago do Cacém. Foi nesse conservatório de amadores que o grande Ti António – Donana de alcunha e Cipriano de nome – foi dando as lições de solfejo pelo surrado livro de Freitas Gazul, mais tarde, a vinte e cinco quilómetros de casa, com Ilda Maria pelo clássico compêndio de Artur Fão. Na SFUA, pela passagem da lição 100 do velho livro azul, foi-me entregue uma requinta (clarinete em mi bemol, vocacionado para os sons mais agudos), indiscritível a sensação de poder por em prática a teoria, com a tradicional passagem pelas escalas antes das pautas de músicas, propriamente ditas. E os estudos continuaram, não até onde queria, mas até onde me foi possível, com passagens pelo clarinete, saxofone tenor (esporádica) e acordeão clássico. Acompanhei bem de perto amigos meus que tiraram estudos nos conservatórios, nas escolas superiores de educação e que continuaram a aprender nas bandas militares. Quando oiço uma canção, não me consigo afastar do que aprendi e conheço, por isso muitas vezes não me agrada nada o que me chega aos ouvidos, mas admito que seja exigente em demasia, o que se pode tornar defeito.
Os da minha geração daquela Santiago, como de outros micro – climas, naquela parte final dos anos oitenta, agradecem por certo às suas famílias o facto de lhes terem permitido e incentivado até, o aprender de música, a prática desportiva, a leitura nas bibliotecas da terra e, por outro lado, adquirindo livros, instrumentos musicais, pagando para que os filhos, sobrinhos e netos soubessem mais do que eles próprios do mundo das artes.
Sei que temos agora o cenário das play stations , da música já feita dos outros, o pronto a vestir há muito que saiu da zona exclusiva das roupas.
Sobre o que as famílias fomentarem hoje, estamos nós aqui a conversar, daqui a uns anos, dos efeitos e mais uma vez, do que haveria de ter sido feito. Triste sina esta, de aqui sim, correr –se atrás do prejuízo. Como serão os músicos de amanhã?
Como se pode esperar que um ver de coisas que dá conta de termos poetas que não lêem e não aprendem a escrever para lá de alguns limites, de músicos que não sabem uma nota e de faltas de visão assombrosas, nos leve muito além do lugar onde agora estamos?
É fácil, ainda que pouco original ou mesmo vulgar, criticar um dos intervenientes no processo de divulgação de música cá no burgo, esquecendo outros e o papel próprio. Ser-se tapado passa por tomar isto e aquilo como verdades absolutas e não ter espírito crítico. Não menosprezo indicadores, nem opiniões – desde que dadas para acrescentar algo de bom – ser refém das próprias palavras e de posturas radicais à força, nada traz que não seja banalidade e alguma forma aparentemente discreta de ignorância.
Quando é que alguém pede satisfações à televisão pela medíocre divulgação de música, que à parte de um top que – utilizando a mais preferida das expressões de análise – vale o que vale, de alguns programas de música alternativa como o “músicas do mundo”, de alguma coisa da SIC Radical, pouco tem? Quase que vale já às vezes mais o franchising da MTV, porque o canal nacional de música, que de sol só tem o nome é, em minha opinião, uma nulidade na divulgação, sem critério, e é por isso não têm audiência. O serviço público da RTP passou pela brilhante iniciativa de fazer um debate sobre o estado da música em Portugal, lançou a bomba e fugiu. Um debate onde todos os que falaram tinham a sua razão e onde se disseram muitas verdades e não se chegou a um conjunto palpável de linhas de orientação, com concessões e arredar de medos.
A música é uma indústria, em Portugal insiste em funcionar como uma micro – empresa. Antes que alguém se ofenda por equiparar a música à metalomecânica, siderurgia e comunicação, digo que por mais nuvens de embelezamento que se coloquem, com rótulos bonitos e laçarotes, não há mais forma de esconder essa parte da verdade. A música é feita para vender, tal como tudo. Há quem a faça por amadorismo, louvável, mas não paga os custos da vida moderna. Temos de apoiar a nossa música, pois claro, mas quem a faz e comercializa, mais do que o interesse na música em si, quer é vender. E nem sequer há nada para condenar. As indústrias fabricam e vendem. A música é mais uma, ainda que a nossa preferida.
As rádios e as televisões necessitam de audiência, que vende a publicidade que as sustenta – tendo funções sociais ainda melhor, trata-se de uma mais – valia.
Os editores, têm de vender discos para existir, de todo, ou em determinado país. Os catálogos nacionais justificam a permanência cá sempre bem-vinda e de cooperação de colegas de mundo da música, não são é uma bandeira, se venderem discos não portugueses o lucro também chega, não vai é para os nossos artistas, o que, de facto, é de lamentar.
Os autores, músicos (e staff) precisam de vender discos e concertos, produzir para vender. Só há que, em todos estes casos, não ter vergonha de o admitir ou arranjar palavras dissimuladas para o fazer, é preciso vender e pronto.
Quem me explica porque é que toda a gente canta nos concertos as músicas de cor de imensos grupos, estão nesses concertos milhares de pessoas e como é que depois, na própria altura ou na semana seguinte, nas lojas, não é adquirida a mesma quantia de discos dessa banda?
A banda não fica o tempo suficiente na memória?
Será que os discos estão demasiado caros?
Como depois a rádio não tocou os temas todos ou algum que fosse, o público – tal qual não tivesse pensar próprio – seguindo os lideres espirituais que são as mulheres e homens dos microfones – boicotou a compra dos discos?
A liberdade existe para tudo, pode ouvir a estação de rádio ou televisão que quiser, ou nem sequer se aproximar de nenhuma. Pode gostar de música ou não. Pode gostar de música portuguesa ou preferir outra. O que não gosta, com certeza, é que lhe impinjam o que não quer. Respeito as liberdades de escolha.
Penso que aproveita aos músicos e grupos portugueses a ideia do Luís Silva do Ó, a figura em boa hora sugerida do gestor de carreira. Estou certo que este, a ser um bom profissional não permitiria a um grupo, por exemplo, editar uma série de discos no mesmo ano e a fazer uma travessia de deserto durante um bom par deles. Importa a estrutura, não a conjuntura.
Antes da demão definitiva no lançamento ou retoque de um grupo, é necessário um primário, que lhe dê consistência, base e ajude ao brilho final da obra e seus autores. Assim, podem ser utilizadas quaisquer latas que tenham no rótulo as inscrições “gestor de carreira”, “ensino de música”, “atenção ao mercado”, “relações públicas” ou outras e variadas que tragam benefício claro e acetinado, para que não seja só fachada. Sem receios de manchar a pintura, ou estalar o verniz.
Bruno Gonçalves Pereira
O ensino da música. Ensino público, conservatórios e outras formas de aprender.
Os músicos de amanhã.
A televisão e a música.
A música é uma indústria.
Porque é que os largos milhares que assistem aos concertos não compram o disco da banda?
Subscrição de apoio à figura do gestor de carreira dos músicos.
A estrutura, o todo, como sempre.
A cidade antiga, esta como outras, esconde o mundo ininteligível das escolas de música e dos conservatórios. Isto a propósito da escrita dos músicos, que também se aprende. Assim se passa com a música propriamente dita, entender e saber harmonizar sons. Apesar do mérito do reino “de ouvido”, como se pode continuar a encarar como saber menor a teoria e técnica musical?
Até entendo que os preços sejam proibitivos e as entradas por demais condicionadas em conservatórios e mesmo em instituições de todo privadas. Se calhar conhecem através de alguém a dificuldade de graus de equivalência entre conservatórios e demais escolas, bem como a aberração constituída por algumas audições de acesso.
Os programas de ensino nas escolas públicas deviam dar importância à música desde o primário. Não se fazem poetas com domínio de técnica sem estudos na área, tal como duvido que se façam verdadeiros músicos que saibam o estão a fazer e onde podem chegar no campo da harmonia dos sons, sem estudos de música. Saber música abre horizontes até para se entender o que se ouve, sem ser apenas pelos tradicionais “soa bem, é bonito”, “ganda som”.
Tive o privilégio de estudar música numa sociedade filarmónica – a União Artística, em Santiago do Cacém. Foi nesse conservatório de amadores que o grande Ti António – Donana de alcunha e Cipriano de nome – foi dando as lições de solfejo pelo surrado livro de Freitas Gazul, mais tarde, a vinte e cinco quilómetros de casa, com Ilda Maria pelo clássico compêndio de Artur Fão. Na SFUA, pela passagem da lição 100 do velho livro azul, foi-me entregue uma requinta (clarinete em mi bemol, vocacionado para os sons mais agudos), indiscritível a sensação de poder por em prática a teoria, com a tradicional passagem pelas escalas antes das pautas de músicas, propriamente ditas. E os estudos continuaram, não até onde queria, mas até onde me foi possível, com passagens pelo clarinete, saxofone tenor (esporádica) e acordeão clássico. Acompanhei bem de perto amigos meus que tiraram estudos nos conservatórios, nas escolas superiores de educação e que continuaram a aprender nas bandas militares. Quando oiço uma canção, não me consigo afastar do que aprendi e conheço, por isso muitas vezes não me agrada nada o que me chega aos ouvidos, mas admito que seja exigente em demasia, o que se pode tornar defeito.
Os da minha geração daquela Santiago, como de outros micro – climas, naquela parte final dos anos oitenta, agradecem por certo às suas famílias o facto de lhes terem permitido e incentivado até, o aprender de música, a prática desportiva, a leitura nas bibliotecas da terra e, por outro lado, adquirindo livros, instrumentos musicais, pagando para que os filhos, sobrinhos e netos soubessem mais do que eles próprios do mundo das artes.
Sei que temos agora o cenário das play stations , da música já feita dos outros, o pronto a vestir há muito que saiu da zona exclusiva das roupas.
Sobre o que as famílias fomentarem hoje, estamos nós aqui a conversar, daqui a uns anos, dos efeitos e mais uma vez, do que haveria de ter sido feito. Triste sina esta, de aqui sim, correr –se atrás do prejuízo. Como serão os músicos de amanhã?
Como se pode esperar que um ver de coisas que dá conta de termos poetas que não lêem e não aprendem a escrever para lá de alguns limites, de músicos que não sabem uma nota e de faltas de visão assombrosas, nos leve muito além do lugar onde agora estamos?
É fácil, ainda que pouco original ou mesmo vulgar, criticar um dos intervenientes no processo de divulgação de música cá no burgo, esquecendo outros e o papel próprio. Ser-se tapado passa por tomar isto e aquilo como verdades absolutas e não ter espírito crítico. Não menosprezo indicadores, nem opiniões – desde que dadas para acrescentar algo de bom – ser refém das próprias palavras e de posturas radicais à força, nada traz que não seja banalidade e alguma forma aparentemente discreta de ignorância.
Quando é que alguém pede satisfações à televisão pela medíocre divulgação de música, que à parte de um top que – utilizando a mais preferida das expressões de análise – vale o que vale, de alguns programas de música alternativa como o “músicas do mundo”, de alguma coisa da SIC Radical, pouco tem? Quase que vale já às vezes mais o franchising da MTV, porque o canal nacional de música, que de sol só tem o nome é, em minha opinião, uma nulidade na divulgação, sem critério, e é por isso não têm audiência. O serviço público da RTP passou pela brilhante iniciativa de fazer um debate sobre o estado da música em Portugal, lançou a bomba e fugiu. Um debate onde todos os que falaram tinham a sua razão e onde se disseram muitas verdades e não se chegou a um conjunto palpável de linhas de orientação, com concessões e arredar de medos.
A música é uma indústria, em Portugal insiste em funcionar como uma micro – empresa. Antes que alguém se ofenda por equiparar a música à metalomecânica, siderurgia e comunicação, digo que por mais nuvens de embelezamento que se coloquem, com rótulos bonitos e laçarotes, não há mais forma de esconder essa parte da verdade. A música é feita para vender, tal como tudo. Há quem a faça por amadorismo, louvável, mas não paga os custos da vida moderna. Temos de apoiar a nossa música, pois claro, mas quem a faz e comercializa, mais do que o interesse na música em si, quer é vender. E nem sequer há nada para condenar. As indústrias fabricam e vendem. A música é mais uma, ainda que a nossa preferida.
As rádios e as televisões necessitam de audiência, que vende a publicidade que as sustenta – tendo funções sociais ainda melhor, trata-se de uma mais – valia.
Os editores, têm de vender discos para existir, de todo, ou em determinado país. Os catálogos nacionais justificam a permanência cá sempre bem-vinda e de cooperação de colegas de mundo da música, não são é uma bandeira, se venderem discos não portugueses o lucro também chega, não vai é para os nossos artistas, o que, de facto, é de lamentar.
Os autores, músicos (e staff) precisam de vender discos e concertos, produzir para vender. Só há que, em todos estes casos, não ter vergonha de o admitir ou arranjar palavras dissimuladas para o fazer, é preciso vender e pronto.
Quem me explica porque é que toda a gente canta nos concertos as músicas de cor de imensos grupos, estão nesses concertos milhares de pessoas e como é que depois, na própria altura ou na semana seguinte, nas lojas, não é adquirida a mesma quantia de discos dessa banda?
A banda não fica o tempo suficiente na memória?
Será que os discos estão demasiado caros?
Como depois a rádio não tocou os temas todos ou algum que fosse, o público – tal qual não tivesse pensar próprio – seguindo os lideres espirituais que são as mulheres e homens dos microfones – boicotou a compra dos discos?
A liberdade existe para tudo, pode ouvir a estação de rádio ou televisão que quiser, ou nem sequer se aproximar de nenhuma. Pode gostar de música ou não. Pode gostar de música portuguesa ou preferir outra. O que não gosta, com certeza, é que lhe impinjam o que não quer. Respeito as liberdades de escolha.
Penso que aproveita aos músicos e grupos portugueses a ideia do Luís Silva do Ó, a figura em boa hora sugerida do gestor de carreira. Estou certo que este, a ser um bom profissional não permitiria a um grupo, por exemplo, editar uma série de discos no mesmo ano e a fazer uma travessia de deserto durante um bom par deles. Importa a estrutura, não a conjuntura.
Antes da demão definitiva no lançamento ou retoque de um grupo, é necessário um primário, que lhe dê consistência, base e ajude ao brilho final da obra e seus autores. Assim, podem ser utilizadas quaisquer latas que tenham no rótulo as inscrições “gestor de carreira”, “ensino de música”, “atenção ao mercado”, “relações públicas” ou outras e variadas que tragam benefício claro e acetinado, para que não seja só fachada. Sem receios de manchar a pintura, ou estalar o verniz.
Bruno Gonçalves Pereira
O ensino da música. Ensino público, conservatórios e outras formas de aprender.
Os músicos de amanhã.
A televisão e a música.
A música é uma indústria.
Porque é que os largos milhares que assistem aos concertos não compram o disco da banda?
Subscrição de apoio à figura do gestor de carreira dos músicos.
A estrutura, o todo, como sempre.
17.8.04
AFP: TOP 30 ARTISTAS - SEMANA 33/2004
No top semanal de vendas da AFP encontramos 12 projectos musicais nacionais nos 30 primeiros.
2º VAGABUNDO POR AMOR - TONY CARREIRA (ESPACIAL/ESPACIAL)
3º RE-DEFINIÇÕES (PR) - DA WEASEL (CAPITOL/EMI-VC)
4º CINEMA (PR) - RODRIGO LEÃO (COLUMBIA/SONY MUSIC)
6º FADO CURVO (P) - MARIZA (VIRGIN/EMI-VC)
7º ESQUISSOS (OU) - TORANJA (POLYDOR/UNIVERSAL)
11º O MUNDO AO CONTRÁRIO (PR) - XUTOS & PONTAPÉS (MERCURY/UNIVERSAL)
14º OLHAR EM FRENTE (OU) - BETO (FAROL MÚSICA)
15º UM AMOR INFINITO (OU) - MADREDEUS (CAPITOL/EMI-VC)
17º TA O BALHO ARMADO - ADIAFA (COLUMBIA/SONY MUSIC)
18º GUITARRA, O MELHOR DE (P) - CARLOS PAREDES (EMI/EMI-VC)
21º A CABRITINHA - QUIM BARREIROS (ESPACIAL/ESPACIAL)
22º ALL'BOUT SMOKE'N MIRRORS (PR) - FINGERTIPS (METROSONIC/ZONA MÚSICA)
(PR)-Prata (OU)-Ouro (P)-Platina (2P)-Dupla Platina (3P)-Tripla Platina
Dados: AFP/Copyright AC Nielsen Portugal
2º VAGABUNDO POR AMOR - TONY CARREIRA (ESPACIAL/ESPACIAL)
3º RE-DEFINIÇÕES (PR) - DA WEASEL (CAPITOL/EMI-VC)
4º CINEMA (PR) - RODRIGO LEÃO (COLUMBIA/SONY MUSIC)
6º FADO CURVO (P) - MARIZA (VIRGIN/EMI-VC)
7º ESQUISSOS (OU) - TORANJA (POLYDOR/UNIVERSAL)
11º O MUNDO AO CONTRÁRIO (PR) - XUTOS & PONTAPÉS (MERCURY/UNIVERSAL)
14º OLHAR EM FRENTE (OU) - BETO (FAROL MÚSICA)
15º UM AMOR INFINITO (OU) - MADREDEUS (CAPITOL/EMI-VC)
17º TA O BALHO ARMADO - ADIAFA (COLUMBIA/SONY MUSIC)
18º GUITARRA, O MELHOR DE (P) - CARLOS PAREDES (EMI/EMI-VC)
21º A CABRITINHA - QUIM BARREIROS (ESPACIAL/ESPACIAL)
22º ALL'BOUT SMOKE'N MIRRORS (PR) - FINGERTIPS (METROSONIC/ZONA MÚSICA)
(PR)-Prata (OU)-Ouro (P)-Platina (2P)-Dupla Platina (3P)-Tripla Platina
Dados: AFP/Copyright AC Nielsen Portugal
16.8.04
Noites Ritual Rock 2004
Jardins do Palácio de Cristal, 27 e 28 de Agosto
Ritual em comum: a música que é indiscutivelmente nossa, a capacidade para manter em festa as noites de Agosto, agitando o Porto com um regresso entusiástico ao Palácio de Cristal e às propostas nacionais.
Ritual diferente: dois palcos que se distanciam cada vez mais em termos de proposta + um programa que cresce em outras direcções, procurando os trilhos recentes do som e da imagem (com fotoprojecção, exposições e até um workshop de fotografia).
As Noites Ritual estão de regresso, com rock, como sempre, mas não só.
Da bit electrónica ao hip-hop total, das novas apostas aos nomes confirmados, está cá tudo e todos.
Cartaz a abrir com a prestação única e intensa de Tiger Man, depois a irreverência dos Fat Freddy , a estreia no festival da nova banda de Manel Cruz e Peixe (Pluto), a finalizar e a encher o palco de Rosa Carne, com os Clã. E rendendo-se, depois, ao rock-electrónico dos X-Wife, à força dos Blunder; à nova fase dos Zen ou à confirmação dos Mão Morta.
Com espaço, no Palco Ritual, para cantautores a solo e novos valores do hip-hop. Porque há sempre lugar para mais um. Músicos / espectadores, nos palcos mais próximos de todos.
Duas noites sem as quais o mapa da música português não fica completo.
O Ritual vai começar.
Programa |
Sex. 27 Agosto
Palco 1: The Legendary Tiger Man Fat| Freddy | Pluto | Clã
Palco Ritual: Fritz Kahn | Nuno.Nico | Jorge Cruz
Sáb. 28 Agosto
Palco 1: X Wife | Blunder | Zen | Mão Morta
Palco Ritual: Capull | Nbc | Matozoo
Programa e Informação Detalhada
Fonte: Xinfrim
Ritual diferente: dois palcos que se distanciam cada vez mais em termos de proposta + um programa que cresce em outras direcções, procurando os trilhos recentes do som e da imagem (com fotoprojecção, exposições e até um workshop de fotografia).
As Noites Ritual estão de regresso, com rock, como sempre, mas não só.
Da bit electrónica ao hip-hop total, das novas apostas aos nomes confirmados, está cá tudo e todos.
Cartaz a abrir com a prestação única e intensa de Tiger Man, depois a irreverência dos Fat Freddy , a estreia no festival da nova banda de Manel Cruz e Peixe (Pluto), a finalizar e a encher o palco de Rosa Carne, com os Clã. E rendendo-se, depois, ao rock-electrónico dos X-Wife, à força dos Blunder; à nova fase dos Zen ou à confirmação dos Mão Morta.
Com espaço, no Palco Ritual, para cantautores a solo e novos valores do hip-hop. Porque há sempre lugar para mais um. Músicos / espectadores, nos palcos mais próximos de todos.
Duas noites sem as quais o mapa da música português não fica completo.
O Ritual vai começar.
Programa |
Sex. 27 Agosto
Palco 1: The Legendary Tiger Man Fat| Freddy | Pluto | Clã
Palco Ritual: Fritz Kahn | Nuno.Nico | Jorge Cruz
Sáb. 28 Agosto
Palco 1: X Wife | Blunder | Zen | Mão Morta
Palco Ritual: Capull | Nbc | Matozoo
Fonte: Xinfrim
15.8.04
13.8.04
12.8.04
Blogue-se à Força – Oito
"Não sou do fado, sou do rock, não me resigno."
A modos que...
...é por estas e por outras que me esquivo de aceitar compromissos – todos – de uma forma solene, sobretudo se acho difícil cumpri-los. Mas a vida é assim e hoje o dever de escrever esta crónica chama por mim.
Andei por Lisboa seca e molhada em tarefas lassas de um verão que espreita o olho ao clima da savana. Os portugueses adoram guiar mal, faz parte da sua pequena aventura de todos os dias a diatribe privada ao volante, finalmente o bardamerda ao chefe ou ao cônjuge que não houve coragem para gritar, vingado, vingadinho no entalanço feito ao gajo que se queria meter à frente: "À minha frente, ora pois, vai-te f...", rematou o bigodes ao meu lado. Será por isto que tantos portugueses penduram no espelho retrovisor um terço, depositando na divindade a reparação das suas aselhices? Entretanto, na segunda circular, a modorra do trânsito assemelhava-se a uma serpente gorda de digestão a deslizar para o fim da tarde.
Cento e nove quilómetros e duas horas e doze minutos depois, regressei ao convívio do Rafa, um pastor alemão que de há três anos e meio para cá estuda a linguagem dos homens, o cheiro e o perfil dos sujeitos amigáveis e dos outros.
Profética nação
Pensei muito sobre o que haveria hoje de escrever, mesmo durante o almoço prolongado com um jornalista nas Docas de Alcântara. O tempo sobrava nas filas do trânsito apressado para o acidente, a rádio escorria o baú do costume, indiferente se as pessoas que ouvem rádio são deste tempo e gostam da música actual ou múmias. Juro: nos anos de 1980 não tinha esta idade, esta lata, este carro e um telemóvel.
Para um tipo como eu, duas vezes e meia divorciado, ouvir certas canções fora do seu contexto temporal traz à memória momentos passados e enterrados com os refrães desses tempos: é este o serviço primário e primeiro da música popular, marcar a vida em cada momento das nossas vidas. Mas, como todos sabemos, ao fim de muitos anos de éter ficámos todos burros, os radialistas ainda mais burros estão, levando em conta que os famosos consultores é que a sabem toda.
Aqui para nós: recentes estudos de mercado revelam novas e continuadas percas para o mundo radiofónico, fazendo lembrar a história do PC que vê fugirem-lhe votos eleição atrás de eleição apesar de, pelo discurso dos seus líderes, continuar a reforçar a sua posição "junto do povo eleitor" (dixit).
No país dos enormes equívocos – já tínhamos a história dos fenómenos do Entroncamento – mais um, o equívoco da rádio que não passa a música destes dias, portuguesa ou estrangeira, torna-se fastidioso, chato, sem piada.
Depois de ter lido há dias nas páginas de A Bola como a própria Marktest dirige o jogo, percebem-se melhor os comentários que aqui travei em duelo de amizade com o Bruno G. Pereira, e como anda a ser difícil à malta da rádio dar o braço a torcer e avançar para a ruptura, a mudança, uma rádio que não espezinhe o trabalho editorial discográfico, antes o divulgue, como a história ocidental da pop music ensinou.
As cores nacionais e o desígnio
Vimos e ainda vemos o pano verde-rubro nas janelas, nas varandas, nas antenas e nos carros. O fenómeno partiu de um brasileiro treinador de bola, campeão e meio campeão, que mistura táctica futebolística com adorações religiosas: desta vez não deu, só para provar que da outra vez houve acaso em vez de desígnio.
Não seria bom que, para além do convite para manter a bandeira à mostra até ao apuramento da nossa selecção para o campeonato do mundo de futebol, conforme nos foi pedido, ultrapassássemos o futebol como desígnio nacional, e nos encontrássemos como nação com gente dentro? E, já agora: que tal uma rádio e depois outra e outra irem garimpando o filão do que é português, sem xenofobias, com auto-estima, dando estímulo aos seus criadores?
Deixo aqui o desafio e convido-vos a assistir a um qualquer concerto dos UHF – grupo de palavras portuguesas com estórias: as pessoas gostam de cantar as canções que foram quadros nas suas vidas.
Porque...
...há uma poética...
...que nos é intrínseca, a nós portugueses, apesar do nível assustador de analfabetos totais e funcionais: mesmo o mais grotesco português é capaz de repetir que "somos um país de poetas". Porque será?
Escreve-se mal por aqui. Fala-se mal, na rádio, na TV, nas nossas canções. Abandalhando a pátria cultural, começámos em 95 a levar com as novas rimas ajustadas ao brasileirismo de Odivelas para servir o despertar da música pimba: mais do que o brejeiro, a facilidade grosseira assaz picante chegava ao poder, sim porque os tugas são uns vivaços sempre jeitosos (actual versão Fernando Rocha). Vejam no que deu: o esgoto está entupido e os artistas de arte falidos. Mas no rock, Senhor, ou nesta música pop ou moderna ou outra conversa, escreve-se tão mal, amanha-se também tão mal uma ideia poética que às vezes pergunto: que fazemos nós aqui?
Quando acabei a Ópera dos UHF e mais tarde o meu segundo livro de poemas pus-me a mesma questão: será que alguém vai perceber isto, será que alguém me vai ouvir ou ler?
Temos por aí imensos amigos professores, eu próprio fugi de uma carreira que haveria de me pôr maluco, a pão e água ou exilado. Não é apenas o léxico dos Kapas que me preocupa: hoje ainda mal se sente mas daqui a uns anos, sem correcção, a malta vai pensar que assim é que é.
O que me atormenta é uma escrita oca, feia e foleira, utilizada e usada com a arrogância dos justos e dos certos: a história do mundo sabe o que tem sido o reino da ignorância na história do homem; o que me preocupa é não haver uma crítica discográfica em Portugal onde se esventre a temática que, grupos como os UHF ou os Xutos ou os Delfins ou outros, abordam nas suas canções e, ao invés, tanto se fale – pateticamente – de produção; o que me chateia é ficar só a pregar neste deserto e perceber que dez, quinze, vinte anos depois, o que antes foi escrito permanece actual e actuante: é bom pelo engenho, dói pelos sintomas da doença.
Dou-vos alguns exemplos:
"Cavalos de Corrida" (não é sobre droga dura mas sobre a vida rotineira nas grandes cidades);
"Rua do Carmo" (uma fotografia de um tempo sem tempo, Lisboa romântica e naif);
"Cheio" (porque às vezes um murro na mesa desentope as ideias);
"Comédia Humana" (porque continua a hipocrisia do mundo);
"Esta Dança Não me Interessa" (interessa a alguém?);
"Lisboa Hotel" (não façam reservas que o Hotel está cheio);
"Meninos Angolanos" (eu sei que este postal ilustrado não interessa aos Negócios Estrangeiros);
"Quando (dentro de ti) " (essa força é tua e minha e ninguém no-la pode roubar);
"Sarajevo (verão 92) " (quando é que esta porra acaba?);
"Um Copo Contigo" (não é a amizade, uma forma profética de amor, o melhor do mundo?);
Ou,
"Uma Palavra Tua" (contra a corte da indiferença).
No resto escrevo canções em que me descrevo, o espelho do homem e os necessários paraísos do amor ganho e perdido. Mas estarei eu aqui no papel do cabotino que promove o que escreve? Não e talvez.
Estou-me nas tintas para o sagrado elemento da patetice e da inveja e, magnanimamente, para o santuário lusitano do "parece mal". Afirmo o que acredito e o que sou. Escrevo e reescrevo, mato-me a corrigir, rasgo e deito fora o resto, que é muito e do qual desconfio.
Depois do liceu continuei a estudar literatura na Faculdade e, sobretudo, continuei a ler, a aprender, a abrir necessariamente um dicionário de Língua Portuguesa. Por isso não tenho vergonha do meu passado, acreditando que, pela forma e conteúdo das suas canções, os UHF têm contribuído para elevar o intelecto das pessoas, divertindo necessariamente, mas suscitando questões que a indiferença adormece. À volta só terra árida: TV, imprensa e até rádio, doem; os políticos, os homens da bola e o jet set, com microfone e câmara à frente, doem.
Perguntar-me-ão: mas é preciso ir à Faculdade para escrever a letra de uma música rock?
Respondo: não sei, o poeta Aleixo era analfabeto e... sabiamente inspirado. Mas é evidente que estudar os clássicos ajuda, formar uma mentalidade crítica é necessário, ser corrigido molda a consciência formal do aprendiz: se um médico tem de estudar, um homem de leis e um futuro engenheiro também, colocamos a formação do escritor de canções a que nível? Só vamos lá pelo jeito? E o saber e a técnica, e a comparação histórica?
Para expressarmos aos outros imagens da nossa visão pessoal é preciso mais do que configurar as palavras que a malta usa nas conversas na net, no dia a dia, repetindo expressões tribais. Ergo aqui a pena por três companheiros de escrita pop: Carlos Tê, Rui Reininho e Jorge Palma.
Os outros
Não consigo criticar os textos de outros colegas com discos a rodar por aí. Não consigo porque essa não é uma tarefa minha, mas tenho consciência das banalidades e dos equívocos que algumas capelinhas (o país é muito pequeno) permitem e promovem: apesar dos dislates, o melhor da música ainda é alguns músicos. Mas posso contribuir com esta reflexão para elevar a exigência das pessoas deste Portugal acomodado, cobarde e que adora repetir: "que se há-de fazer, sempre foi assim".
Apesar do gueto em que a querem colocar, a música moderna portuguesa não é pobre, é nobre e resiste por puro gozo: pessoalmente não sou do fado, sou do rock, não me resigno.
No final: os últimos concertos dos UHF têm decorrido tão bem que, por vezes, no palco, enquanto uma canção se esvai, pergunto-me se o que está ali a acontecer é mesmo real. E é. Tem sido: Mafra a 30/07, Benavente a 2/08 e 9/08 em Santa Maria da Feira.
Pelo meio, a 31/07, a solo, deu para tocar "Por Três Minutos na Vida", voz e piano, e, magistralmente, "Sierra Maestra", em noite de Lua Cheia.
A vida de músico tem estas coisas pequenas e bonitas: momentos irrepetíveis que o suor da noite guarda.
(No próximo dia 20/08, pelas 22:00 horas, eu e o poeta Paulo Anes vamos andar à volta das palavras da poesia profética, bebendo "Um Chá no Paraíso", no salão de chá Tea For Two, na Costa de Caparica – montando a aldeia dos irredutíveis gauleses da cultura.)
11 de Agosto de 2004
António Manuel Ribeiro
...é por estas e por outras que me esquivo de aceitar compromissos – todos – de uma forma solene, sobretudo se acho difícil cumpri-los. Mas a vida é assim e hoje o dever de escrever esta crónica chama por mim.
Andei por Lisboa seca e molhada em tarefas lassas de um verão que espreita o olho ao clima da savana. Os portugueses adoram guiar mal, faz parte da sua pequena aventura de todos os dias a diatribe privada ao volante, finalmente o bardamerda ao chefe ou ao cônjuge que não houve coragem para gritar, vingado, vingadinho no entalanço feito ao gajo que se queria meter à frente: "À minha frente, ora pois, vai-te f...", rematou o bigodes ao meu lado. Será por isto que tantos portugueses penduram no espelho retrovisor um terço, depositando na divindade a reparação das suas aselhices? Entretanto, na segunda circular, a modorra do trânsito assemelhava-se a uma serpente gorda de digestão a deslizar para o fim da tarde.
Cento e nove quilómetros e duas horas e doze minutos depois, regressei ao convívio do Rafa, um pastor alemão que de há três anos e meio para cá estuda a linguagem dos homens, o cheiro e o perfil dos sujeitos amigáveis e dos outros.
Profética nação
Pensei muito sobre o que haveria hoje de escrever, mesmo durante o almoço prolongado com um jornalista nas Docas de Alcântara. O tempo sobrava nas filas do trânsito apressado para o acidente, a rádio escorria o baú do costume, indiferente se as pessoas que ouvem rádio são deste tempo e gostam da música actual ou múmias. Juro: nos anos de 1980 não tinha esta idade, esta lata, este carro e um telemóvel.
Para um tipo como eu, duas vezes e meia divorciado, ouvir certas canções fora do seu contexto temporal traz à memória momentos passados e enterrados com os refrães desses tempos: é este o serviço primário e primeiro da música popular, marcar a vida em cada momento das nossas vidas. Mas, como todos sabemos, ao fim de muitos anos de éter ficámos todos burros, os radialistas ainda mais burros estão, levando em conta que os famosos consultores é que a sabem toda.
Aqui para nós: recentes estudos de mercado revelam novas e continuadas percas para o mundo radiofónico, fazendo lembrar a história do PC que vê fugirem-lhe votos eleição atrás de eleição apesar de, pelo discurso dos seus líderes, continuar a reforçar a sua posição "junto do povo eleitor" (dixit).
No país dos enormes equívocos – já tínhamos a história dos fenómenos do Entroncamento – mais um, o equívoco da rádio que não passa a música destes dias, portuguesa ou estrangeira, torna-se fastidioso, chato, sem piada.
Depois de ter lido há dias nas páginas de A Bola como a própria Marktest dirige o jogo, percebem-se melhor os comentários que aqui travei em duelo de amizade com o Bruno G. Pereira, e como anda a ser difícil à malta da rádio dar o braço a torcer e avançar para a ruptura, a mudança, uma rádio que não espezinhe o trabalho editorial discográfico, antes o divulgue, como a história ocidental da pop music ensinou.
As cores nacionais e o desígnio
Vimos e ainda vemos o pano verde-rubro nas janelas, nas varandas, nas antenas e nos carros. O fenómeno partiu de um brasileiro treinador de bola, campeão e meio campeão, que mistura táctica futebolística com adorações religiosas: desta vez não deu, só para provar que da outra vez houve acaso em vez de desígnio.
Não seria bom que, para além do convite para manter a bandeira à mostra até ao apuramento da nossa selecção para o campeonato do mundo de futebol, conforme nos foi pedido, ultrapassássemos o futebol como desígnio nacional, e nos encontrássemos como nação com gente dentro? E, já agora: que tal uma rádio e depois outra e outra irem garimpando o filão do que é português, sem xenofobias, com auto-estima, dando estímulo aos seus criadores?
Deixo aqui o desafio e convido-vos a assistir a um qualquer concerto dos UHF – grupo de palavras portuguesas com estórias: as pessoas gostam de cantar as canções que foram quadros nas suas vidas.
Porque...
...há uma poética...
...que nos é intrínseca, a nós portugueses, apesar do nível assustador de analfabetos totais e funcionais: mesmo o mais grotesco português é capaz de repetir que "somos um país de poetas". Porque será?
Escreve-se mal por aqui. Fala-se mal, na rádio, na TV, nas nossas canções. Abandalhando a pátria cultural, começámos em 95 a levar com as novas rimas ajustadas ao brasileirismo de Odivelas para servir o despertar da música pimba: mais do que o brejeiro, a facilidade grosseira assaz picante chegava ao poder, sim porque os tugas são uns vivaços sempre jeitosos (actual versão Fernando Rocha). Vejam no que deu: o esgoto está entupido e os artistas de arte falidos. Mas no rock, Senhor, ou nesta música pop ou moderna ou outra conversa, escreve-se tão mal, amanha-se também tão mal uma ideia poética que às vezes pergunto: que fazemos nós aqui?
Quando acabei a Ópera dos UHF e mais tarde o meu segundo livro de poemas pus-me a mesma questão: será que alguém vai perceber isto, será que alguém me vai ouvir ou ler?
Temos por aí imensos amigos professores, eu próprio fugi de uma carreira que haveria de me pôr maluco, a pão e água ou exilado. Não é apenas o léxico dos Kapas que me preocupa: hoje ainda mal se sente mas daqui a uns anos, sem correcção, a malta vai pensar que assim é que é.
O que me atormenta é uma escrita oca, feia e foleira, utilizada e usada com a arrogância dos justos e dos certos: a história do mundo sabe o que tem sido o reino da ignorância na história do homem; o que me preocupa é não haver uma crítica discográfica em Portugal onde se esventre a temática que, grupos como os UHF ou os Xutos ou os Delfins ou outros, abordam nas suas canções e, ao invés, tanto se fale – pateticamente – de produção; o que me chateia é ficar só a pregar neste deserto e perceber que dez, quinze, vinte anos depois, o que antes foi escrito permanece actual e actuante: é bom pelo engenho, dói pelos sintomas da doença.
Dou-vos alguns exemplos:
"Cavalos de Corrida" (não é sobre droga dura mas sobre a vida rotineira nas grandes cidades);
"Rua do Carmo" (uma fotografia de um tempo sem tempo, Lisboa romântica e naif);
"Cheio" (porque às vezes um murro na mesa desentope as ideias);
"Comédia Humana" (porque continua a hipocrisia do mundo);
"Esta Dança Não me Interessa" (interessa a alguém?);
"Lisboa Hotel" (não façam reservas que o Hotel está cheio);
"Meninos Angolanos" (eu sei que este postal ilustrado não interessa aos Negócios Estrangeiros);
"Quando (dentro de ti) " (essa força é tua e minha e ninguém no-la pode roubar);
"Sarajevo (verão 92) " (quando é que esta porra acaba?);
"Um Copo Contigo" (não é a amizade, uma forma profética de amor, o melhor do mundo?);
Ou,
"Uma Palavra Tua" (contra a corte da indiferença).
No resto escrevo canções em que me descrevo, o espelho do homem e os necessários paraísos do amor ganho e perdido. Mas estarei eu aqui no papel do cabotino que promove o que escreve? Não e talvez.
Estou-me nas tintas para o sagrado elemento da patetice e da inveja e, magnanimamente, para o santuário lusitano do "parece mal". Afirmo o que acredito e o que sou. Escrevo e reescrevo, mato-me a corrigir, rasgo e deito fora o resto, que é muito e do qual desconfio.
Depois do liceu continuei a estudar literatura na Faculdade e, sobretudo, continuei a ler, a aprender, a abrir necessariamente um dicionário de Língua Portuguesa. Por isso não tenho vergonha do meu passado, acreditando que, pela forma e conteúdo das suas canções, os UHF têm contribuído para elevar o intelecto das pessoas, divertindo necessariamente, mas suscitando questões que a indiferença adormece. À volta só terra árida: TV, imprensa e até rádio, doem; os políticos, os homens da bola e o jet set, com microfone e câmara à frente, doem.
Perguntar-me-ão: mas é preciso ir à Faculdade para escrever a letra de uma música rock?
Respondo: não sei, o poeta Aleixo era analfabeto e... sabiamente inspirado. Mas é evidente que estudar os clássicos ajuda, formar uma mentalidade crítica é necessário, ser corrigido molda a consciência formal do aprendiz: se um médico tem de estudar, um homem de leis e um futuro engenheiro também, colocamos a formação do escritor de canções a que nível? Só vamos lá pelo jeito? E o saber e a técnica, e a comparação histórica?
Para expressarmos aos outros imagens da nossa visão pessoal é preciso mais do que configurar as palavras que a malta usa nas conversas na net, no dia a dia, repetindo expressões tribais. Ergo aqui a pena por três companheiros de escrita pop: Carlos Tê, Rui Reininho e Jorge Palma.
Os outros
Não consigo criticar os textos de outros colegas com discos a rodar por aí. Não consigo porque essa não é uma tarefa minha, mas tenho consciência das banalidades e dos equívocos que algumas capelinhas (o país é muito pequeno) permitem e promovem: apesar dos dislates, o melhor da música ainda é alguns músicos. Mas posso contribuir com esta reflexão para elevar a exigência das pessoas deste Portugal acomodado, cobarde e que adora repetir: "que se há-de fazer, sempre foi assim".
Apesar do gueto em que a querem colocar, a música moderna portuguesa não é pobre, é nobre e resiste por puro gozo: pessoalmente não sou do fado, sou do rock, não me resigno.
No final: os últimos concertos dos UHF têm decorrido tão bem que, por vezes, no palco, enquanto uma canção se esvai, pergunto-me se o que está ali a acontecer é mesmo real. E é. Tem sido: Mafra a 30/07, Benavente a 2/08 e 9/08 em Santa Maria da Feira.
Pelo meio, a 31/07, a solo, deu para tocar "Por Três Minutos na Vida", voz e piano, e, magistralmente, "Sierra Maestra", em noite de Lua Cheia.
A vida de músico tem estas coisas pequenas e bonitas: momentos irrepetíveis que o suor da noite guarda.
(No próximo dia 20/08, pelas 22:00 horas, eu e o poeta Paulo Anes vamos andar à volta das palavras da poesia profética, bebendo "Um Chá no Paraíso", no salão de chá Tea For Two, na Costa de Caparica – montando a aldeia dos irredutíveis gauleses da cultura.)
11 de Agosto de 2004
António Manuel Ribeiro
11.8.04
Sugestão: "1"
No âmbito da promoção ao seu disco de estreia 1 - Poesia e Percussão, os 1 vão estar amanhã, dia 12, quinta-feira, na primeira edição do programa Curto Circuito da Sic Radical 12.30h, com entrevista e ainda lugar a uma pequena performance.
Uma boa oportunidade para a conferir ao vivo o interesse deste colectivo.
Fonte: no agency
Uma boa oportunidade para a conferir ao vivo o interesse deste colectivo.
Fonte: no agency
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