Escrever sobre editoras, músicos e rádios é uma tentação cada vez maior, cada vez menos original e termina, normalmente, em violenta tourada.
Tudo, porque o tema conduz a quentes e apaixonadas discussões, em que a razão dá lugar à “latina” emoção, motivando acalorados debates – muitos deles vazios de sentido – culminando com ofensas e amuos de diversa ordem.
Extremar posições não levará a lado nenhum, nem contribuirá para uma serena e lúcida solução dos problemas; é como colocar Bush Jr. a moderar uma cimeira de paz…
A força da música portuguesa encontra-se no sucesso popular, gerado por uma boa canção, munida de um grande refrão – elemento primordial para o êxito.
Este é o início de tudo; o verbo, neste caso, é o refrão! Sempre foi assim, o segredo está bem divulgado e é do conhecimento de toda a gente.
Apesar de outras décadas com boas castas, a receita daquilo que o povo gosta tem a sua melhor colheita nos anos 80, como os estudos de mercado bem atestam. Foram os tempos do “boom” do rock português e de grandes sucessos internacionais, com temas fortes e refrões orelhudos.
Talvez o que falte neste momento seja uma clara aposta na canção, pensada e elaborada numa perspectiva de consumo radiofónico e televisivo – não defendo uma “canção comercial”, stricto sensu, mas, sim, uma canção forte e em que essa força seja sinónimo de que o público gosta; e se o povo gostar é porque é comercial!
É estranho constatar que, dos novos projectos, poucos chegam ao grande público, ao invés dos nomes consagrados, sábios na elaboração do sucesso, mas, cada vez menos aptos a surpreender ou a ousarem na criatividade, contribuindo, assim, para o pântano actual.
Porém, existindo novos projectos, com potencial, porque motivo poucos são editados?
Ou, porque razão, aqueles que são editados não alcançam uma projecção adequada?
As nossas editoras deviam adaptar-se aos tempos modernos, seleccionando projectos na óptica do consumidor. Para tal, umas sessões – semelhantes àquelas que as rádios fazem nos seus estudos – em que os temas (de novos grupos e, porque não, de pré-produções de novos trabalhos de consagrados?) fossem apresentados e votados, por uma plateia representativa, mostrariam o “eco do povo”.
Bastavam estudos, como, sabiamente, o músico Ulisses defendeu na crónica “Os EUgénios da música portuguesa”.
Tendo por base esse e outros dados comerciais, estou certo de que o trabalho das editoras seria mais profícuo e que a divulgação nas rádios seria mais efectiva, porque todos estariam a falar no mesmo idioma. Por exemplo, as editoras deviam usar temas promocionais adequados ao target de cada estação (um pop-rock numa rádio adulta, um rock mais a abrir numa rádio jovem). Se os públicos de cada segmento de rádios é diferente, porque motivo um mesmo trabalho só pode ter um tema promocional de cada vez?
E, nisto, tenho de ser directo: as rádios vivem em pleno século XXI, as editoras permanecem num trabalho à século XX português.
Nesta história, os músicos são os menos culpados, mas, sendo as principais vítimas, devem reflectir.
Os novos nomes devem saber ponderar a sua posição e os compromissos que possam vir a assumir, com ou sem concessões, dependendo da sua própria opção artística e conscientes das implicações da opção tomada.
Todavia, apesar das rádios estarem mais evoluídas do que as editoras, não terão, também, a sua quota parte de responsabilidade no marasmo em que se transformou a nossa indústria musical?
Claro que têm e por motivos bem diversos... Primeiro, porque parecem ter abandonado a vertente formativa do auditório, em segundo, porque os animadores cada vez se preocupam menos em perceber de música e, por último, porque não se compreendem algumas omissões nas apostas musicais.
No final destas linhas constato o evidente: o objectivo geral é comum aos diversos intervenientes do meio musical.
As editoras procuram promover e vender as suas edições discográficas.
Os músicos ambicionam gravar, mostrar o seu trabalho, ao vivo e em estúdio.
Como as principais rádios não se querem transformar em “rádios nostalgia” precisam de novas canções e de novos sucessos.
Em nome da evolução da música e das próprias rádios, é necessária uma aposta conjunta.
Um trabalho conjugado e honesto seria vantajoso para todos.
Um trabalho forte como um bom refrão.
Porque a força de um refrão é a força de uma canção; e isso reflecte-se em qualquer votação.
Ora, meus amigos, não será a música a causa de tudo isto?
Que tal esquecer guerras antigas e beber o champagne do futuro?
Em época de paz, aguardo boas colheitas no próximo ano.
A todos, Feliz Natal, Próspero Ano Novo.
Lisboa, 23 de Dezembro de 2003
Luís Silva do Ó, jornalista
31.12.03
17.12.03
O Mercado
Haverá uma luta entre o génio inventivo da criação artística e o que o “mercado” quer?
Algumas vozes se levantam nos fóruns da Telefonia Virtual e por outros sítios mais, contra o que apelidam de formatação das rádios. Acredito que existam ecos para além das naturais frustrações de carreira radiofónica e musical, mas deixem ficar uma ideia, por mais bizarra que vos pareça... o que impede uma banda ou artista, uma editora, produtora ou um departamento de promoção de aplicar estudos de mercado a um produto de música? E com a expressão “produto” não estou em desconsideração com ninguém. Qual é o atrito?
Será a ideia de se juntar ao “inimigo”? A incredulidade solitária no método? O conformismo? O achar melhor um bom disco mais introspectivo na prateleira do que outro igualmente bom mas mais próximo do público a ter saída?
Sabendo que há discos que se vendem razoavelmente mas que pouco passam na rádio, não nos esqueçamos de que também nós temos música que gostamos de ouvir na alta fidelidade lá em casa e se passar na rádio não nos faz sentir aquele tal estado de alma...
Gosto muito de muita música portuguesa mas não gosto menos da minha rádio...
Com largueza de horizontes, é irreal falar de cotas de passagem de música portuguesa, penso que os artistas não quereriam ver as pessoas do outro lado do éter obrigadas a ouvir a sua música. O que se deve sempre tentar, sem cruzar os braços e perder a motivação é que se passe cada vez mais música portuguesa na rádio e de preferência não só em número de canções mas também de artistas. Penso que tenho tentado fazer a minha parte, mas, como diz bem o nosso povo, sem ovos não se fazem omeletes... tenho bons discos de música portuguesa que oiço no carro e em casa, mas sei com conhecimento de causa que os ouvintes desta ou daquela estação não apreciam ouvir a mesma música a tocar na rádio. E agora, fazer o quê? Contrariar os ouvintes que são o suporte da rádio para colocar uma capa protectora nos nossos artistas? Felizes dos que conseguem conciliar um pouco as duas fontes de respeitabilidade. Porque razão as pessoas das rádios haveriam de ter algo contra a música portuguesa? Eu gosto do que é nosso e já vai um pouco distante o tempo em que se notava quando surgia no ar uma música portuguesa, por fraca qualidade técnica de som. Quem diz que as rádios não apostam no que é novo e passam várias vezes ao dia o mesmo “clássico” só pode ser porque não conhece bem a rádio que temos e vive com uma certa obsessão pelo espectro das máquinas e das importações estrangeiras, por cá, seja português ou estrangeiro, se é bom por decisão de quem nos ouve, vai para o ar... até se fazem campanhas para apoiar a música portuguesa, tenta-se estar cada vez mais perto dos ouvintes e como alguém diria, o tempo é o grande mestre...
Não deve ser altura de ninguém se fazer de vítima. Quando a curva de audiência geral de rádio estava em queda, ao contrário do que agora acontece, não andaram as rádios a chorar pelos cantos e a pedir protecções legais ao estado...
Também sou músico, ainda que amador e já passei por alguns agrupamentos, sei em certa medida o que se sente quando se sobe a um palco, quando toca na rádio uma música de um grupo nosso, quando há um aplauso... agora imagine-se o que seria obrigar o público a estar presente num estádio, num pavilhão a ouvir alguém que não aprecia particularmente... Estamos todos do mesmo lado, a industria da música em minha opinião é que avança demasiado devagar, travada por preconceitos que nem são dos artistas...
Tão bom seria que parte grande dos projectos fosse sucesso de vendas e de passagem na rádio! Que o génio inventivo vá de encontro ao público é o que mais desejo... estaremos cá todos para de tal dar conta... o mercado somos todos, com toda a emoção!
Bruno Gonçalves Pereira
Algumas vozes se levantam nos fóruns da Telefonia Virtual e por outros sítios mais, contra o que apelidam de formatação das rádios. Acredito que existam ecos para além das naturais frustrações de carreira radiofónica e musical, mas deixem ficar uma ideia, por mais bizarra que vos pareça... o que impede uma banda ou artista, uma editora, produtora ou um departamento de promoção de aplicar estudos de mercado a um produto de música? E com a expressão “produto” não estou em desconsideração com ninguém. Qual é o atrito?
Será a ideia de se juntar ao “inimigo”? A incredulidade solitária no método? O conformismo? O achar melhor um bom disco mais introspectivo na prateleira do que outro igualmente bom mas mais próximo do público a ter saída?
Sabendo que há discos que se vendem razoavelmente mas que pouco passam na rádio, não nos esqueçamos de que também nós temos música que gostamos de ouvir na alta fidelidade lá em casa e se passar na rádio não nos faz sentir aquele tal estado de alma...
Gosto muito de muita música portuguesa mas não gosto menos da minha rádio...
Com largueza de horizontes, é irreal falar de cotas de passagem de música portuguesa, penso que os artistas não quereriam ver as pessoas do outro lado do éter obrigadas a ouvir a sua música. O que se deve sempre tentar, sem cruzar os braços e perder a motivação é que se passe cada vez mais música portuguesa na rádio e de preferência não só em número de canções mas também de artistas. Penso que tenho tentado fazer a minha parte, mas, como diz bem o nosso povo, sem ovos não se fazem omeletes... tenho bons discos de música portuguesa que oiço no carro e em casa, mas sei com conhecimento de causa que os ouvintes desta ou daquela estação não apreciam ouvir a mesma música a tocar na rádio. E agora, fazer o quê? Contrariar os ouvintes que são o suporte da rádio para colocar uma capa protectora nos nossos artistas? Felizes dos que conseguem conciliar um pouco as duas fontes de respeitabilidade. Porque razão as pessoas das rádios haveriam de ter algo contra a música portuguesa? Eu gosto do que é nosso e já vai um pouco distante o tempo em que se notava quando surgia no ar uma música portuguesa, por fraca qualidade técnica de som. Quem diz que as rádios não apostam no que é novo e passam várias vezes ao dia o mesmo “clássico” só pode ser porque não conhece bem a rádio que temos e vive com uma certa obsessão pelo espectro das máquinas e das importações estrangeiras, por cá, seja português ou estrangeiro, se é bom por decisão de quem nos ouve, vai para o ar... até se fazem campanhas para apoiar a música portuguesa, tenta-se estar cada vez mais perto dos ouvintes e como alguém diria, o tempo é o grande mestre...
Não deve ser altura de ninguém se fazer de vítima. Quando a curva de audiência geral de rádio estava em queda, ao contrário do que agora acontece, não andaram as rádios a chorar pelos cantos e a pedir protecções legais ao estado...
Também sou músico, ainda que amador e já passei por alguns agrupamentos, sei em certa medida o que se sente quando se sobe a um palco, quando toca na rádio uma música de um grupo nosso, quando há um aplauso... agora imagine-se o que seria obrigar o público a estar presente num estádio, num pavilhão a ouvir alguém que não aprecia particularmente... Estamos todos do mesmo lado, a industria da música em minha opinião é que avança demasiado devagar, travada por preconceitos que nem são dos artistas...
Tão bom seria que parte grande dos projectos fosse sucesso de vendas e de passagem na rádio! Que o génio inventivo vá de encontro ao público é o que mais desejo... estaremos cá todos para de tal dar conta... o mercado somos todos, com toda a emoção!
Bruno Gonçalves Pereira
10.12.03
BLOGUE-SE À FORÇA – Um
Eu fui aos DOORS
Fui no sábado ao concerto dos Doors Século XXI (pois). Sem expectativas, sem ansiedade, sem saudosismo algum.
Juntei-me no Pavilhão Atlântico a alguns amigos, mordi a cena em redor, apanhei com o perfume do charuto-charuto a meu lado e cheguei a emocionar-me com três ou quatro canções.
Na tarde anterior participei no lançamento do livro “Contigo Torno-me Real”, do portuense Rui Pedro Silva, sobre Jim Morrison e os Doors.
Há uns meses o rapaz pediu-me um texto, eu disse vagamente que sim, duvidei das suas intenções – mistura de admirador e tese de licenciatura – , cheguei a julgá-lo mais um tontinho à cata do Jim Morrison português, mas acabei por lhe enviar o relatório de alguns momentos importantes da minha adolescência, o tempo que tentei descortinar nas fisionomias, no vestuário, na atitude dos espectadores de sábado, dia 6 de Dezembro, no Pavilhão Atlântico: uns novos, nascidos depois da morte do primo, com adornos alusivos; outros mais velhos, como eu, saídos do jantar da família.
Lembrei-me então que os americanos celebram o 4 de Julho, e nós, os que mergulhámos na força que uma voz pode suscitar (e somos o resto do mundo), celebramos o 3 de Julho, o dia em que ele morreu.
É bom dizer-vos que até meados dos anos oitenta, quando os primeiros vídeos sobre as digressões dos Doors apareceram no mercado, nós, os fãs, os conhecedores, os de 67 (com 13 anos), nunca tínhamos visto o malandro do Jim ao vivo, o tal gajo obsceno que um tribunal da Florida (o mesmo estado americano onde o actual irmão do presidente Bush controla processos eleitorais) levou a julgamento.
Rezam as crónicas, pelo menos as que eu li, que, depois do espectáculo da justiça à americana, o pregador americano atravessou os States numa viagem de carro com amigos (Jim Morrison não tinha carta de condução), partiu para a Europa (festival da ilha de Wight) e avançou para a zona sombria que daria a poética e o canto de “L.A. Woman”. Paul A. Rothchild, o produtor, desconfiou da qualidade da obra e partiu.
Mais tarde, o filme do fã Oliver Stone produziu para menos de duas horas uma nova e caricata leitura da fama da estrela americana. Achei aquilo o disparate normal que o consumo exige, a moda proporciona, e que os europeus órfãos de mitos adoram: não esqueçamos que Morrison acabou numa banheira de Paris.
Mas os Doors que eu aprendi a ouvir, mal dominando o inglês, eram um grupo marginal, fora do grande mercado americano do disco. Antes da morte do seu cantor, os Doors apenas tiveram dois grandes sucessos: “Light my Fire” (1967), que foi numero 1 da Billboard, e depois “Hello I Love You” (1968). “Touch Me” (1969) ou “Roadhouse Blues” (1970), nunca atingiram o primeiro lugar de vendas na América. Aliás esta última canção só muito mais tarde se torna uma referência das pistas de dança. No ano seguinte, “Riders on the Storm” alastra como um adeus ao cantor desaparecido.
Voltando à assistência que andava pelas dez ou doze mil pessoas no dia 6: será que todos eles teriam em casa os discos dos Doors que nunca estiveram na moda em Portugal? Não sei, a banda nunca foi um sucesso de vendas por cá e isso viu-se quando Ray Manzarek informou que iriam tocar alguns temas de “L.A. Woman”, explicando que nunca tinham promovido o disco em cena porque Jim partira para Paris. Em canções como “Cars Hiss by my Window” ou “Hyacinth House”, as palmas foram patéticas.
Assinalo quatro grandes momentos: “Roadhouse Blues” a abrir, “Break on Through (to the other side)”, a seguir, “L.A. Woman” (que grande baixo) depois, e a finalizar “Riders on the Storm”, soberbo com a mistura do som da tempestade.
Dois reparos: Ray Manzarek não precisa de se parodiar (o pé ou a pata em cima do teclado acordou Morrison); Ian Astbury é demasiado rude em momentos de grande sensualidade morrisiana. Quando Jim caía no palco, ajoelhava-se, ou andava de gatas, a maior parte das vezes buscava o equilíbrio perdido (os cocktails explosivos que ingeria não permitiam mais), apesar de muitos historiadores alastrarem teorias sobre colagens meritórias à crueldade teatral de Antonin Artaud. Pois.
Acredito piamente que, à imagem histórica de um Jesus Cristo libertário, que seria hoje sumariamente liquidado pelas igrejas que usam o seu nome, também Morrison, no seu exemplo continuado de vivências, estaria hoje sepultado (com 60 anos feitos a 8/12) pelo esquecimento.
Estariam os Doors vivos, obrigados a shows pelos casinos de Las Vegas? Uma carreira a solo, finalmente um dueto com Neil Young? Livros de poemas e guiões para filmes em circuitos marginais?
Teria Morrison permitido a edição dos opúsculos “The Lords and the New Creatures” e “American Prayer”? Haverá espaço para celebrarmos os poetas vivos nesta sociedade? Os nossos grandes poetas são pomposamente glorificados depois de mortos e bem mortos: Verlaine, Blake, Byron, Pessoa, Neruda, Cesário Verde, admitem hoje tudo, até o uso de um verso patético numa campanha publicitária. Será por tudo isto que há anos rasgo tudo o que não uso e de cuja qualidade estética duvido?
Uma última farpa: depois de ler alguns dos meus parceiros musicais com texto impresso no livro do Rui Pedro Silva, pergunto: alguma vez ouviram, para lá da evidência das quatro passagens diárias de “Light my Fire” na Rádio Comercial, a música dos Doors?
Ressalvo dois textos: o de Rui Veloso, pragmático, e o de Rui Reininho, cínico.
(Não sei se estavam no pavilhão Atlântico no sábado alguns dos nossos políticos idiotas que chamam democracia à actual América e presidente eleito ao inquilino da Casa Branca. Também era um concerto para eles, um revival, tal a profusão de comparações com os concertos de Roger Waters, de quem não gosto, e de Carlos Santana, porque estava a trabalhar. Mas os Doors, na sua essência, são muito mais do que um bibelô que se guarda ao lado da porcelana familiar. Ele convocou-nos para acordar. Acordámos? )
10 de Dezembro de 2003,
António Manuel Ribeiro, músico e produtor dos UHF
Juntei-me no Pavilhão Atlântico a alguns amigos, mordi a cena em redor, apanhei com o perfume do charuto-charuto a meu lado e cheguei a emocionar-me com três ou quatro canções.
Na tarde anterior participei no lançamento do livro “Contigo Torno-me Real”, do portuense Rui Pedro Silva, sobre Jim Morrison e os Doors.
Há uns meses o rapaz pediu-me um texto, eu disse vagamente que sim, duvidei das suas intenções – mistura de admirador e tese de licenciatura – , cheguei a julgá-lo mais um tontinho à cata do Jim Morrison português, mas acabei por lhe enviar o relatório de alguns momentos importantes da minha adolescência, o tempo que tentei descortinar nas fisionomias, no vestuário, na atitude dos espectadores de sábado, dia 6 de Dezembro, no Pavilhão Atlântico: uns novos, nascidos depois da morte do primo, com adornos alusivos; outros mais velhos, como eu, saídos do jantar da família.
Lembrei-me então que os americanos celebram o 4 de Julho, e nós, os que mergulhámos na força que uma voz pode suscitar (e somos o resto do mundo), celebramos o 3 de Julho, o dia em que ele morreu.
É bom dizer-vos que até meados dos anos oitenta, quando os primeiros vídeos sobre as digressões dos Doors apareceram no mercado, nós, os fãs, os conhecedores, os de 67 (com 13 anos), nunca tínhamos visto o malandro do Jim ao vivo, o tal gajo obsceno que um tribunal da Florida (o mesmo estado americano onde o actual irmão do presidente Bush controla processos eleitorais) levou a julgamento.
Rezam as crónicas, pelo menos as que eu li, que, depois do espectáculo da justiça à americana, o pregador americano atravessou os States numa viagem de carro com amigos (Jim Morrison não tinha carta de condução), partiu para a Europa (festival da ilha de Wight) e avançou para a zona sombria que daria a poética e o canto de “L.A. Woman”. Paul A. Rothchild, o produtor, desconfiou da qualidade da obra e partiu.
Mais tarde, o filme do fã Oliver Stone produziu para menos de duas horas uma nova e caricata leitura da fama da estrela americana. Achei aquilo o disparate normal que o consumo exige, a moda proporciona, e que os europeus órfãos de mitos adoram: não esqueçamos que Morrison acabou numa banheira de Paris.
Mas os Doors que eu aprendi a ouvir, mal dominando o inglês, eram um grupo marginal, fora do grande mercado americano do disco. Antes da morte do seu cantor, os Doors apenas tiveram dois grandes sucessos: “Light my Fire” (1967), que foi numero 1 da Billboard, e depois “Hello I Love You” (1968). “Touch Me” (1969) ou “Roadhouse Blues” (1970), nunca atingiram o primeiro lugar de vendas na América. Aliás esta última canção só muito mais tarde se torna uma referência das pistas de dança. No ano seguinte, “Riders on the Storm” alastra como um adeus ao cantor desaparecido.
Voltando à assistência que andava pelas dez ou doze mil pessoas no dia 6: será que todos eles teriam em casa os discos dos Doors que nunca estiveram na moda em Portugal? Não sei, a banda nunca foi um sucesso de vendas por cá e isso viu-se quando Ray Manzarek informou que iriam tocar alguns temas de “L.A. Woman”, explicando que nunca tinham promovido o disco em cena porque Jim partira para Paris. Em canções como “Cars Hiss by my Window” ou “Hyacinth House”, as palmas foram patéticas.
Assinalo quatro grandes momentos: “Roadhouse Blues” a abrir, “Break on Through (to the other side)”, a seguir, “L.A. Woman” (que grande baixo) depois, e a finalizar “Riders on the Storm”, soberbo com a mistura do som da tempestade.
Dois reparos: Ray Manzarek não precisa de se parodiar (o pé ou a pata em cima do teclado acordou Morrison); Ian Astbury é demasiado rude em momentos de grande sensualidade morrisiana. Quando Jim caía no palco, ajoelhava-se, ou andava de gatas, a maior parte das vezes buscava o equilíbrio perdido (os cocktails explosivos que ingeria não permitiam mais), apesar de muitos historiadores alastrarem teorias sobre colagens meritórias à crueldade teatral de Antonin Artaud. Pois.
Acredito piamente que, à imagem histórica de um Jesus Cristo libertário, que seria hoje sumariamente liquidado pelas igrejas que usam o seu nome, também Morrison, no seu exemplo continuado de vivências, estaria hoje sepultado (com 60 anos feitos a 8/12) pelo esquecimento.
Estariam os Doors vivos, obrigados a shows pelos casinos de Las Vegas? Uma carreira a solo, finalmente um dueto com Neil Young? Livros de poemas e guiões para filmes em circuitos marginais?
Teria Morrison permitido a edição dos opúsculos “The Lords and the New Creatures” e “American Prayer”? Haverá espaço para celebrarmos os poetas vivos nesta sociedade? Os nossos grandes poetas são pomposamente glorificados depois de mortos e bem mortos: Verlaine, Blake, Byron, Pessoa, Neruda, Cesário Verde, admitem hoje tudo, até o uso de um verso patético numa campanha publicitária. Será por tudo isto que há anos rasgo tudo o que não uso e de cuja qualidade estética duvido?
Uma última farpa: depois de ler alguns dos meus parceiros musicais com texto impresso no livro do Rui Pedro Silva, pergunto: alguma vez ouviram, para lá da evidência das quatro passagens diárias de “Light my Fire” na Rádio Comercial, a música dos Doors?
Ressalvo dois textos: o de Rui Veloso, pragmático, e o de Rui Reininho, cínico.
(Não sei se estavam no pavilhão Atlântico no sábado alguns dos nossos políticos idiotas que chamam democracia à actual América e presidente eleito ao inquilino da Casa Branca. Também era um concerto para eles, um revival, tal a profusão de comparações com os concertos de Roger Waters, de quem não gosto, e de Carlos Santana, porque estava a trabalhar. Mas os Doors, na sua essência, são muito mais do que um bibelô que se guarda ao lado da porcelana familiar. Ele convocou-nos para acordar. Acordámos? )
10 de Dezembro de 2003,
António Manuel Ribeiro, músico e produtor dos UHF
3.12.03
Pirata? Aquele jovem?
Pois é... se calhar é...
Mas quem lhe dá uma razão válida para ele comprar um álbum original?
É certo que se calhar ele, e muitos como ele, contribuem para que as editoras e, por conseguinte, os artistas não ganhem o que lhes é devido...
O que é certo é que o ouvir antes de comprar ajuda, mas a pirataria informática é de tal ordem que hoje se arranjam rips (nome comum de obra discográfica copiada) de alta qualidade com capas e tudo...
Mesmo sendo ele admirador de uma banda (desculpem mas não gosto da palavra fã - soa-me a fanático)... daqueles de querer ter tudo... porque razão há-de gastar € 20 ou € 30 num CD?
Se um concerto fica por esse preço?
Se se arranja um CD virgem a € 0,35?
Se gravar um CD não custa assim tanto (quer para qualquer pessoa com um PC em casa, quer, concerteza, para uma editora numa produção de 10.000 unidades)?
A esses preços não admira...
Por outro lado, temos as bandas, que graças a este mundo que é a Internet, tiveram sucesso. Lembro-me de 2 ou 3 casos de grupos que não conseguiam contratos e, graças aos chamados ripers, que fizeram uma release (nome técnico de rip completo), obtiveram sucesso junto da comunidade "cybernauta" e conseguiram bons contratos de editoras (certo que tudo bandas estrangeiras e por norma nórdicas).
Aquele jovem é pirata? Talvez...
Orgulhoso disso? Talvez não...
E, agora, o mais importante de tudo:
Uma boa razão para ele deixar de o fazer?
João Pedro Rei, Lisboa
Mas quem lhe dá uma razão válida para ele comprar um álbum original?
É certo que se calhar ele, e muitos como ele, contribuem para que as editoras e, por conseguinte, os artistas não ganhem o que lhes é devido...
O que é certo é que o ouvir antes de comprar ajuda, mas a pirataria informática é de tal ordem que hoje se arranjam rips (nome comum de obra discográfica copiada) de alta qualidade com capas e tudo...
Mesmo sendo ele admirador de uma banda (desculpem mas não gosto da palavra fã - soa-me a fanático)... daqueles de querer ter tudo... porque razão há-de gastar € 20 ou € 30 num CD?
Se um concerto fica por esse preço?
Se se arranja um CD virgem a € 0,35?
Se gravar um CD não custa assim tanto (quer para qualquer pessoa com um PC em casa, quer, concerteza, para uma editora numa produção de 10.000 unidades)?
A esses preços não admira...
Por outro lado, temos as bandas, que graças a este mundo que é a Internet, tiveram sucesso. Lembro-me de 2 ou 3 casos de grupos que não conseguiam contratos e, graças aos chamados ripers, que fizeram uma release (nome técnico de rip completo), obtiveram sucesso junto da comunidade "cybernauta" e conseguiram bons contratos de editoras (certo que tudo bandas estrangeiras e por norma nórdicas).
Aquele jovem é pirata? Talvez...
Orgulhoso disso? Talvez não...
E, agora, o mais importante de tudo:
Uma boa razão para ele deixar de o fazer?
João Pedro Rei, Lisboa
26.11.03
Terra chama A&R
Não sei se vivem num universo paralelo, num planeta distante ou noutra galáxia, mas eu sou daqueles que acredita que eles estão entre nós.
Mas o que é certo é que nós, músicos, tentamos contactá-los através das mais diversas formas, inventamos formatos inovadores e criativos, e o silêncio é assustador.
Das duas uma, ou eles andam sempre ocupados em viagens inter-planetárias ou então fazem parte de um fenómeno que só existe nos EUA.
Todos nós já ouvimos relatos de pessoas que os viram na televisão, a produzir discos, no continente a fazer compras de Natal. Mas quando se trata de opinar sobre um trabalho que é colocado a apreciação nunca dão sinal.
Será uma nova espécie de A&R nunca dantes vista que tem como objectivo o extermínio total da nossa raça?
Se virem algum por aí avisem. Mas eu começo a duvidar dessa iluminada existência.
Pedro Silva, músico
Mas o que é certo é que nós, músicos, tentamos contactá-los através das mais diversas formas, inventamos formatos inovadores e criativos, e o silêncio é assustador.
Das duas uma, ou eles andam sempre ocupados em viagens inter-planetárias ou então fazem parte de um fenómeno que só existe nos EUA.
Todos nós já ouvimos relatos de pessoas que os viram na televisão, a produzir discos, no continente a fazer compras de Natal. Mas quando se trata de opinar sobre um trabalho que é colocado a apreciação nunca dão sinal.
Será uma nova espécie de A&R nunca dantes vista que tem como objectivo o extermínio total da nossa raça?
Se virem algum por aí avisem. Mas eu começo a duvidar dessa iluminada existência.
Pedro Silva, músico
19.11.03
Sem carga de trabalho
Adormeci, extenuado, depois de mais um dia de trabalho.
“John Mayall tem concertos agendados para Portugal!”, diz-me Sara, acercando-se de mim e mostrando-me uma pequena publicidade inserida na revista Visão.
Com os olhos brilhantes de satisfação, esbocei um convincente “Óptimo!”.
Afinal, realizara, para o programa Atlântico, de Bruno Pereira, uma crónica e uma crítica sobre o excelente CD “Stories” – último álbum de estúdio do pai dos blues britânicos, editado no ano passado.
“Vou agendar uma entrevista” – pensei.
40 anos de Bluesbreakers e 70 anos de idade (neste mês de Novembro) comemorados num grande concerto de reunião com Mick Taylor, Chris Barber e Eric Clapton (DVD a sair brevemente), eram motivos acrescidos para essa entrevista.
No dia seguinte, salvaguardei um bom lugar e comprei bilhetes para o concerto na Aula Magna em Lisboa. Estaria presente, com ou sem trabalho, pelo que, não procurei acreditações gratuitas…
Nesse mesmo dia, contactei a empresa promotora do evento que me direccionou para a editora portuguesa responsável pela distribuição e promoção das edições da EAGLE.
Numa primeira conversa, fiquei a saber ser o único (!) interessado numa entrevista…
“Tudo bem”, disseram-me, “é o primeiro jornalista a pedir-nos uma entrevista, vamos contactar o John Mayall e depois telefonamos”.
Dias passaram e, à boa maneira lusitana, o prometido contacto não dobrava o Cabo das Tormentas.
Nas 48 horas anteriores ao concerto, foram diversos os contactos que tive de estabelecer.
Na véspera, ficara a saber que, segundo a EAGLE, “John Mayall é uma pessoa muito acessível e que, certamente, não se importaria de dar a entrevista. Na noite do concerto talvez não, mas no dia seguinte, sem qualquer problema.”
Agendar a dita é que não, pois, decorridos estes dias, ainda não tinham conseguido conversar com o músico.
Uma hora antes do espectáculo começar e após insistentes telefonemas, escutei um “duvidoso”, mas definitivo, “nada feito”.
Pouco depois, assisti a um estrondoso e monumental concerto de blues.
Profissional e com grande humildade (pediu luz para ver o público, dialogou, sorriu imenso e cedeu, mesmo, autógrafos no decurso do encore!), John Mayall arrasou, esquecendo e fazendo esquecer a sua idade.
Foi um monstro do principio ao fim; uma lenda viva.
Saí arrepiado da Aula Magna.
E, arrepiado, acordei do sonho com que iniciara esta crónica.
Muitas das editoras portuguesas continuam iguais a si próprias: não promovem e não deixam promover!
Por algum motivo, “Stories” subiu ao primeiro lugar do top de blues da Billboard, mas, por cá, ninguém conhece o disco.
Uns geram milhões, outros preferem tostões.
Vou adormecer, desolado, sem ter feito a entrevista programada.
E não a fiz, porque alguém não soube (ou não quis), fazer aquilo que é “só” o seu trabalho.
[Aqueles que são maus intervenientes na nossa indústria musical não podem continuar a encarar a sua profissão como um mero emprego. Trabalhar em música exige alguns predicados… para começar, é essencial “perceber da poda”, que é como quem diz, perceber de música.
Depois, é necessário ter consciência que a música é uma arte, uma emoção, uma criação.
Os músicos são artistas e quem trabalha neste meio tem de saber o seu real significado e o seu efectivo lugar. O “famoso” é o músico e não o próprio profissional que trabalha na editora.
A “vedeta”, aqui, não é o promotor discográfico; mas, por vezes, este é uma “vedeta” inebriada por “neons” alheios e, pior – muito pior – que o verdadeiro artista!
John Mayall não necessita deste Portugal dos pequeninos para cimentar a sua carreira, ao invés, os nossos músicos sem as editoras estariam numa carga de trabalhos…
Ou pelo contrário, vão aumentar, exponencialmente, os discos em edições de autor, aproveitando as potencialidades da internet e com promoções lideradas e controladas pelos próprios autores?]
Luís Silva do Ó, jornalista
“John Mayall tem concertos agendados para Portugal!”, diz-me Sara, acercando-se de mim e mostrando-me uma pequena publicidade inserida na revista Visão.
Com os olhos brilhantes de satisfação, esbocei um convincente “Óptimo!”.
Afinal, realizara, para o programa Atlântico, de Bruno Pereira, uma crónica e uma crítica sobre o excelente CD “Stories” – último álbum de estúdio do pai dos blues britânicos, editado no ano passado.
“Vou agendar uma entrevista” – pensei.
40 anos de Bluesbreakers e 70 anos de idade (neste mês de Novembro) comemorados num grande concerto de reunião com Mick Taylor, Chris Barber e Eric Clapton (DVD a sair brevemente), eram motivos acrescidos para essa entrevista.
No dia seguinte, salvaguardei um bom lugar e comprei bilhetes para o concerto na Aula Magna em Lisboa. Estaria presente, com ou sem trabalho, pelo que, não procurei acreditações gratuitas…
Nesse mesmo dia, contactei a empresa promotora do evento que me direccionou para a editora portuguesa responsável pela distribuição e promoção das edições da EAGLE.
Numa primeira conversa, fiquei a saber ser o único (!) interessado numa entrevista…
“Tudo bem”, disseram-me, “é o primeiro jornalista a pedir-nos uma entrevista, vamos contactar o John Mayall e depois telefonamos”.
Dias passaram e, à boa maneira lusitana, o prometido contacto não dobrava o Cabo das Tormentas.
Nas 48 horas anteriores ao concerto, foram diversos os contactos que tive de estabelecer.
Na véspera, ficara a saber que, segundo a EAGLE, “John Mayall é uma pessoa muito acessível e que, certamente, não se importaria de dar a entrevista. Na noite do concerto talvez não, mas no dia seguinte, sem qualquer problema.”
Agendar a dita é que não, pois, decorridos estes dias, ainda não tinham conseguido conversar com o músico.
Uma hora antes do espectáculo começar e após insistentes telefonemas, escutei um “duvidoso”, mas definitivo, “nada feito”.
Pouco depois, assisti a um estrondoso e monumental concerto de blues.
Profissional e com grande humildade (pediu luz para ver o público, dialogou, sorriu imenso e cedeu, mesmo, autógrafos no decurso do encore!), John Mayall arrasou, esquecendo e fazendo esquecer a sua idade.
Foi um monstro do principio ao fim; uma lenda viva.
Saí arrepiado da Aula Magna.
E, arrepiado, acordei do sonho com que iniciara esta crónica.
Muitas das editoras portuguesas continuam iguais a si próprias: não promovem e não deixam promover!
Por algum motivo, “Stories” subiu ao primeiro lugar do top de blues da Billboard, mas, por cá, ninguém conhece o disco.
Uns geram milhões, outros preferem tostões.
Vou adormecer, desolado, sem ter feito a entrevista programada.
E não a fiz, porque alguém não soube (ou não quis), fazer aquilo que é “só” o seu trabalho.
[Aqueles que são maus intervenientes na nossa indústria musical não podem continuar a encarar a sua profissão como um mero emprego. Trabalhar em música exige alguns predicados… para começar, é essencial “perceber da poda”, que é como quem diz, perceber de música.
Depois, é necessário ter consciência que a música é uma arte, uma emoção, uma criação.
Os músicos são artistas e quem trabalha neste meio tem de saber o seu real significado e o seu efectivo lugar. O “famoso” é o músico e não o próprio profissional que trabalha na editora.
A “vedeta”, aqui, não é o promotor discográfico; mas, por vezes, este é uma “vedeta” inebriada por “neons” alheios e, pior – muito pior – que o verdadeiro artista!
John Mayall não necessita deste Portugal dos pequeninos para cimentar a sua carreira, ao invés, os nossos músicos sem as editoras estariam numa carga de trabalhos…
Ou pelo contrário, vão aumentar, exponencialmente, os discos em edições de autor, aproveitando as potencialidades da internet e com promoções lideradas e controladas pelos próprios autores?]
Luís Silva do Ó, jornalista
12.11.03
A minha banda é maior que a tua
Uma coisa que me irrita solenemente é a relação que alguns músicos têm uns com os outros.
E quando digo isto falo não só de artistas consagrados como também dos desconhecidos. Não sei se é um comportamento populista compulsivo ou se é apenas um instinto animal de defesa territorial. Sei que irrita e que atrapalha, estilo pedra no sapato.
Ainda não há muito tempo tive o prazer de ir a um bar assistir um concerto onde estavam também vários músicos que, supostamente, eram amigos dos que estavam a tocar, e os comentários eram assustadores. Não só falavam mal como gozavam em conversas uns com os outros mostrando falta de respeito e de consideração.
No final do espectáculo lá estavam eles com os músicos a dar palmadinhas nas costas e a dizer que tinha sido "excelente". Isto é apenas um exemplo do que se passa um pouco por todo o lado.
Também há uns meses atrás, num concurso de música moderna com várias bandas de todo o país, pude constatar que a falta de solidariedade e de companheirismo é uma constante. Os músicos não se falam, cada banda ocupa o seu "nicho" e quando alguém tenta quebrar o "gelo" parece que o céu está prestes a cair sobre as cabeças dos presentes.
Quase que apetece pedir desculpas pelo incómodo.
O vedetismo embrionário de quem nunca fez nada, de quem nunca gravou discos, de quem nunca pisou grandes palcos tende a crescer desmesuradamente, e isso é preocupante.
Num país onde não há sítios para tocar, onde as editoras estão falidas, onde o lobbie ganha cada vez mais peso e onde os músicos se preocupam em olhar apenas para os seus umbigos, pouco mais há a fazer. E eu sei que todas as bandas são maiores do que a minha.
Na minha somos só três:-)
Ulisses, músico dos Dayoff
E quando digo isto falo não só de artistas consagrados como também dos desconhecidos. Não sei se é um comportamento populista compulsivo ou se é apenas um instinto animal de defesa territorial. Sei que irrita e que atrapalha, estilo pedra no sapato.
Ainda não há muito tempo tive o prazer de ir a um bar assistir um concerto onde estavam também vários músicos que, supostamente, eram amigos dos que estavam a tocar, e os comentários eram assustadores. Não só falavam mal como gozavam em conversas uns com os outros mostrando falta de respeito e de consideração.
No final do espectáculo lá estavam eles com os músicos a dar palmadinhas nas costas e a dizer que tinha sido "excelente". Isto é apenas um exemplo do que se passa um pouco por todo o lado.
Também há uns meses atrás, num concurso de música moderna com várias bandas de todo o país, pude constatar que a falta de solidariedade e de companheirismo é uma constante. Os músicos não se falam, cada banda ocupa o seu "nicho" e quando alguém tenta quebrar o "gelo" parece que o céu está prestes a cair sobre as cabeças dos presentes.
Quase que apetece pedir desculpas pelo incómodo.
O vedetismo embrionário de quem nunca fez nada, de quem nunca gravou discos, de quem nunca pisou grandes palcos tende a crescer desmesuradamente, e isso é preocupante.
Num país onde não há sítios para tocar, onde as editoras estão falidas, onde o lobbie ganha cada vez mais peso e onde os músicos se preocupam em olhar apenas para os seus umbigos, pouco mais há a fazer. E eu sei que todas as bandas são maiores do que a minha.
Na minha somos só três:-)
Ulisses, músico dos Dayoff
5.11.03
Muito me contas....
Esta surgiu durante um jantar, onde um promotor de espectáculos me contou como correu a organização do concerto dos Rolling Stones, mais concretamente sobre as creditações dos Jornalistas da nossa praça.
Ele disse-me que os pedidos foram completamente absurdos, tal a quantidade que foi pedida.
Ora vejamos; os nossos jornais que se limitam a ter algumas páginas sobre cultura e pouco mais que uma página sobre música, e que normalmente pedem duas credenciais aos produtores dos eventos, pediram dezenas delas...
Seria giro ver nos Classificados "Keith Richards vende guitarra usada com 35 anos, com alguns problemas, necessita restauro" ou no Desporto "Mick Jagger, antes do concerto faz 10 abdominais e 6 flexões com a ajuda do seu preparador físico".
Bem, com tantas credenciais por jornal, só faltou o pessoal da Necrologia ...
Mas com tantos Jornalistas por lá, pelo menos não se cometeram erros como os que tem havido nos espectáculos que vão acontecendo por aí.
Pois eu sei... já vos vou contar mais umas histórias.
Ok, hoje tirei o dia para os Jornalistas. Não se preocupem que não será hábito. Espero eu...
Esta passou-se no Festival do Tejo e refere-se à crítica que o Jornalista do Diário de Noticias fez sobre os Mundo Complexo.
A crítica diz que o concerto foi interessante e que a banda esteve muito bem em palco interagindo com o pouco público que se espalhava pelo recinto. Até aqui tudo bem, mas o problema vem quando vos digo que os Mundo Complexo estavam em suas casas descansados e nem sequer faziam parte do cartaz do festival.
Agora, uma crítica das Noites Ritual Rock no único (infelizmente para todos) jornal de música deste nosso país, o Blitz.
É fantástico ler a crítica das duas primeiras bandas que lá tocaram este ano. Para começar, o Jornalista até nem diz mal, o que já é bastante estranho, e revela-nos umas boas prestações por parte dos Fingertrips e Grace.
Já sei... estão a pensar "Mas então, o que está errado?"
Pois é, o Jornalista , autor dessa crítica, só pediu a credencial às dez da noite, e ainda por cima perguntando à organização se o festival estava atrasado....é que ainda estava em casa e como tal queria saber como estavam as coisas.
Já sei...os jornalistas da nossa praça são visionários e portanto não necessitam de estar presentes nos locais...não, não é isso.
É simples: o jornalista chega ao local, atrasadíssimo, mas facilmente se inteira do assunto perguntando a um amigo como correram as coisas...depois consoante goste ou não da banda atira uma linhas para o seu bloco de notas e consequentemente para as páginas de jornal. Ora aí está o verdadeiro profissional!!!
Promotores e bandas deste país não se apoquentem tá tudo sobre controle com esta nova geração de jornalistas superdotados.
CALV
Ele disse-me que os pedidos foram completamente absurdos, tal a quantidade que foi pedida.
Ora vejamos; os nossos jornais que se limitam a ter algumas páginas sobre cultura e pouco mais que uma página sobre música, e que normalmente pedem duas credenciais aos produtores dos eventos, pediram dezenas delas...
Seria giro ver nos Classificados "Keith Richards vende guitarra usada com 35 anos, com alguns problemas, necessita restauro" ou no Desporto "Mick Jagger, antes do concerto faz 10 abdominais e 6 flexões com a ajuda do seu preparador físico".
Bem, com tantas credenciais por jornal, só faltou o pessoal da Necrologia ...
Mas com tantos Jornalistas por lá, pelo menos não se cometeram erros como os que tem havido nos espectáculos que vão acontecendo por aí.
Pois eu sei... já vos vou contar mais umas histórias.
Ok, hoje tirei o dia para os Jornalistas. Não se preocupem que não será hábito. Espero eu...
Esta passou-se no Festival do Tejo e refere-se à crítica que o Jornalista do Diário de Noticias fez sobre os Mundo Complexo.
A crítica diz que o concerto foi interessante e que a banda esteve muito bem em palco interagindo com o pouco público que se espalhava pelo recinto. Até aqui tudo bem, mas o problema vem quando vos digo que os Mundo Complexo estavam em suas casas descansados e nem sequer faziam parte do cartaz do festival.
Agora, uma crítica das Noites Ritual Rock no único (infelizmente para todos) jornal de música deste nosso país, o Blitz.
É fantástico ler a crítica das duas primeiras bandas que lá tocaram este ano. Para começar, o Jornalista até nem diz mal, o que já é bastante estranho, e revela-nos umas boas prestações por parte dos Fingertrips e Grace.
Já sei... estão a pensar "Mas então, o que está errado?"
Pois é, o Jornalista , autor dessa crítica, só pediu a credencial às dez da noite, e ainda por cima perguntando à organização se o festival estava atrasado....é que ainda estava em casa e como tal queria saber como estavam as coisas.
Já sei...os jornalistas da nossa praça são visionários e portanto não necessitam de estar presentes nos locais...não, não é isso.
É simples: o jornalista chega ao local, atrasadíssimo, mas facilmente se inteira do assunto perguntando a um amigo como correram as coisas...depois consoante goste ou não da banda atira uma linhas para o seu bloco de notas e consequentemente para as páginas de jornal. Ora aí está o verdadeiro profissional!!!
Promotores e bandas deste país não se apoquentem tá tudo sobre controle com esta nova geração de jornalistas superdotados.
CALV
29.10.03
Os reis do quintal
Os músicos portugueses têm vindo a reclamar uma maior divulgação da produção nacional nas nossas rádios.
Curioso que esse movimento tenha surgido agora, quando se sabe que a divulgação nunca promoveu franjas significativas das edições de novos nomes.
O que terá preocupado, então, um conjunto tão vasto de compositores e de músicos, ao ponto de terem criado uma Associação?
Estarão apreensivos com a perda dos valores culturais portugueses, com a falta de apoio aos novos nomes, ou ficaram, subitamente, preocupados com o pouco airplay dos seus próprios reportórios?
É sabido que os concertos ao vivo são dominados pelos mesmos de sempre, ano após ano.
Esporadicamente, surge um “fenómeno”, como os Silence 4 ou o Pedro Abrunhosa, mas, são excepções!
Esta falta de novos nomes está relacionada com a ausência de novos projectos musicais?
Claro que não!
Temos novos grupos de sobra para que cresçam e para que se assumam, enquanto nova geração, na nossa música.
Quem se recorda das dezenas e dezenas de maquetas analisadas na extinta Revista Ritual, pergunta “onde estão, em 2003, aqueles projectos, alguns deles com grande potencial?”.
Para além de outras coisas, igualmente importantes, falta algo essencial no meio musical português.
Falta que os músicos consagrados estendam a mão aos novos valores, apostando em bandas que toquem nas suas primeiras partes.
Xutos & Pontapés ou UHF já o fizeram, ou ainda o fazem, mas, são meros exemplos num mar de excepções.
E quando tal acontece, raramente representa uma digressão completa, mas, apenas, actuações pontuais, quando as organizações dos eventos a isso estão dispostas.
Se estes nomes grandes, nas suas digressões anuais, incluíssem uma primeira parte, estariam a auxiliar a geração vindoura da nossa indústria musical.
Tal não acontece por uma questão de custos?
Não; qualquer banda nova toca por valores ridiculamente pequenos e nada significativos no bolo que qualquer nome de relevo pratica.
Mas, para que estas primeiras partes sejam possíveis, o valor do cachet do grupo de topo deve incluir, logo, todo o pacote.
Isto, porque o típico promotor português prefere poupar uns trocados, em vez de ter um espectáculo com mais qualidade e maior interesse…
Este principio pedagógico, em que músicos com maior projecção ajudassem artistas em fase inicial de carreira, poderia proporcionar uma alteração positiva.
Os pequenos grupos podiam crescer, musicalmente, ao vivo e seria mais fácil mostrarem o seu valor às editoras e ao público em geral.
Que motivos não permitem que isto aconteça?
O facto dos veteranos terem subido a pulso e sem ajuda de ninguém?
Naturalmente que isso aconteceu em 1980/82, mas, nessa altura, pouco ou nada existia na estrutura rock da nossa indústria.
Os tempos actuais são outros e a própria forma de encarar o negócio musical também.
Creio que a sensibilidade e a vontade de apoiar estão a aumentar, mas, em jeito de provocação saudável, não posso deixar de questionar:
Será que os nossos músicos veteranos e com carreira cimentada não se preocupam com o desenvolvimento e com o futuro da música portuguesa?
Ou, por outro lado, estes mesmos músicos, na sua esmagadora maioria, não querem criar condições que levem ao surgimento de novos valores?
Terão receio de perder quota de mercado nesta área de negócio?
Terão medo de deixarem de ser os reis neste quintal?
Luís Silva do Ó, jornalista
Curioso que esse movimento tenha surgido agora, quando se sabe que a divulgação nunca promoveu franjas significativas das edições de novos nomes.
O que terá preocupado, então, um conjunto tão vasto de compositores e de músicos, ao ponto de terem criado uma Associação?
Estarão apreensivos com a perda dos valores culturais portugueses, com a falta de apoio aos novos nomes, ou ficaram, subitamente, preocupados com o pouco airplay dos seus próprios reportórios?
É sabido que os concertos ao vivo são dominados pelos mesmos de sempre, ano após ano.
Esporadicamente, surge um “fenómeno”, como os Silence 4 ou o Pedro Abrunhosa, mas, são excepções!
Esta falta de novos nomes está relacionada com a ausência de novos projectos musicais?
Claro que não!
Temos novos grupos de sobra para que cresçam e para que se assumam, enquanto nova geração, na nossa música.
Quem se recorda das dezenas e dezenas de maquetas analisadas na extinta Revista Ritual, pergunta “onde estão, em 2003, aqueles projectos, alguns deles com grande potencial?”.
Para além de outras coisas, igualmente importantes, falta algo essencial no meio musical português.
Falta que os músicos consagrados estendam a mão aos novos valores, apostando em bandas que toquem nas suas primeiras partes.
Xutos & Pontapés ou UHF já o fizeram, ou ainda o fazem, mas, são meros exemplos num mar de excepções.
E quando tal acontece, raramente representa uma digressão completa, mas, apenas, actuações pontuais, quando as organizações dos eventos a isso estão dispostas.
Se estes nomes grandes, nas suas digressões anuais, incluíssem uma primeira parte, estariam a auxiliar a geração vindoura da nossa indústria musical.
Tal não acontece por uma questão de custos?
Não; qualquer banda nova toca por valores ridiculamente pequenos e nada significativos no bolo que qualquer nome de relevo pratica.
Mas, para que estas primeiras partes sejam possíveis, o valor do cachet do grupo de topo deve incluir, logo, todo o pacote.
Isto, porque o típico promotor português prefere poupar uns trocados, em vez de ter um espectáculo com mais qualidade e maior interesse…
Este principio pedagógico, em que músicos com maior projecção ajudassem artistas em fase inicial de carreira, poderia proporcionar uma alteração positiva.
Os pequenos grupos podiam crescer, musicalmente, ao vivo e seria mais fácil mostrarem o seu valor às editoras e ao público em geral.
Que motivos não permitem que isto aconteça?
O facto dos veteranos terem subido a pulso e sem ajuda de ninguém?
Naturalmente que isso aconteceu em 1980/82, mas, nessa altura, pouco ou nada existia na estrutura rock da nossa indústria.
Os tempos actuais são outros e a própria forma de encarar o negócio musical também.
Creio que a sensibilidade e a vontade de apoiar estão a aumentar, mas, em jeito de provocação saudável, não posso deixar de questionar:
Será que os nossos músicos veteranos e com carreira cimentada não se preocupam com o desenvolvimento e com o futuro da música portuguesa?
Ou, por outro lado, estes mesmos músicos, na sua esmagadora maioria, não querem criar condições que levem ao surgimento de novos valores?
Terão receio de perder quota de mercado nesta área de negócio?
Terão medo de deixarem de ser os reis neste quintal?
Luís Silva do Ó, jornalista
22.10.03
O Triunfo das Bolachas
É de comer e enjoar por mais.
Poderia ser este o "Slogan" de mais um festim televisivo de trazer por casa.
Mas não é. Estou a falar da Operação Triunfo, claro.
Com pompa e circunstância, "artistas" de laboratório, concebidos em 3 meses, desfilam na passerelle da fama com sonhos, ambições e, acima de tudo, muitas desilusões.
E não é de esperar outra coisa.
Num país de pretensos "cantores", toda a gente acha que pode aspirar a uma carreira musical de um dia para o outro.
O único problema é que se esquecem de que para isso é preciso ter uma coisa que não se aprende e nem se compra na farmácia: talento.
Para além disso, editoras discográficas com prestígio dão-se ao luxo de pactuar com este frenesim efémero ao editar os respectivos "álbuns", uns a seguir aos outros, aproveitando a maré de promoção que a TV e alguma imprensa sensacionalista está a dar antes que o tempo expire definitivamente para dar lugar a uma nova leva de "músicos".
Para tornar a "coisa" ainda mais surreal, a diversidade musical dos projectos não existe, ou seja, temos todos os aspirantes a tocar e a cantar o mesmo, com músicas românticas e letras sofríveis.
Se é este o empurrão que se pretende dar à música portuguesa que seja por uma ribanceira abaixo, porque assim não vamos a lado nenhum.
Só é pena é que algumas pessoas não sejam suficientemente inteligentes para perceber que não é assim que conseguirão fazer carreira, que a exposição mediática de programas como este é negativa, que não basta ter uma carinha laroca e uma voz melodiosa.
A música portuguesa precisa é de autores, de músicos que saibam compor, escrever, que saibam tocar, que saibam estar num palco, que saibam que não é em 3 meses que se compõe e produz um disco, que tudo o que é bem feito demora tempo, muito tempo.
Trabalho. É a palavra de ordem de tudo isto.
A palavra chave é Talento.
Mas essa não vem nos pacotes de bolachas, por muito que se coma.
Ulisses, músico dos Dayoff
Poderia ser este o "Slogan" de mais um festim televisivo de trazer por casa.
Mas não é. Estou a falar da Operação Triunfo, claro.
Com pompa e circunstância, "artistas" de laboratório, concebidos em 3 meses, desfilam na passerelle da fama com sonhos, ambições e, acima de tudo, muitas desilusões.
E não é de esperar outra coisa.
Num país de pretensos "cantores", toda a gente acha que pode aspirar a uma carreira musical de um dia para o outro.
O único problema é que se esquecem de que para isso é preciso ter uma coisa que não se aprende e nem se compra na farmácia: talento.
Para além disso, editoras discográficas com prestígio dão-se ao luxo de pactuar com este frenesim efémero ao editar os respectivos "álbuns", uns a seguir aos outros, aproveitando a maré de promoção que a TV e alguma imprensa sensacionalista está a dar antes que o tempo expire definitivamente para dar lugar a uma nova leva de "músicos".
Para tornar a "coisa" ainda mais surreal, a diversidade musical dos projectos não existe, ou seja, temos todos os aspirantes a tocar e a cantar o mesmo, com músicas românticas e letras sofríveis.
Se é este o empurrão que se pretende dar à música portuguesa que seja por uma ribanceira abaixo, porque assim não vamos a lado nenhum.
Só é pena é que algumas pessoas não sejam suficientemente inteligentes para perceber que não é assim que conseguirão fazer carreira, que a exposição mediática de programas como este é negativa, que não basta ter uma carinha laroca e uma voz melodiosa.
A música portuguesa precisa é de autores, de músicos que saibam compor, escrever, que saibam tocar, que saibam estar num palco, que saibam que não é em 3 meses que se compõe e produz um disco, que tudo o que é bem feito demora tempo, muito tempo.
Trabalho. É a palavra de ordem de tudo isto.
A palavra chave é Talento.
Mas essa não vem nos pacotes de bolachas, por muito que se coma.
Ulisses, músico dos Dayoff
15.10.03
Pois é... pagar para tocar
Para os mais atentos a nova música nacional tem vindo a crescer. De facto não faltam novos projectos, novas bandas, mais discos e bons músicos, mas em contrapartida não há um crescimento sustentado, ou seja as bandas crescem e depois ficam como que atrofiadas, sem espaços para progredir mais... o país é pequeno e pequenos são todos os meios que acompanham os músicos, falemos por exemplo dos concertos ao vivo:
Nos anos 80 e inícios de 90, existia um circuito que permitia às novas bandas, a então chamada música moderna portuguesa, apresentarem-se com condições remuneradas.
Uma banda de maqueta conseguia fazer cerca de 50 concertos num ano, em bares e discotecas, conseguindo cativar a atenção de um público com propensão para a descoberta, as pessoas estavam receptivas a novos sons. Esse era um dado fundamental... estar receptivo. Nos anos noventa a “moda” das bandas de versões atirou literalmente com as bandas de originais para fora do circuito... os donos dos locais e as pessoas preferiam ouvir “aquela música” que todos cantarolavam, mesmo que a banda fosse má... e acreditem havia bandas de fazer corar o mais surdo dos mortais.
O que é certo é que o circuito ficou muito apertado, sem espaço para um número cada vez maior de bandas que queriam mostrar o seu trabalho. A pergunta era sempre a mesma: “ tocam versões ? “...”não?!”, “pois assim não dá”.....
Muitas bandas não resistiram a este cenário e durante alguns bons anos a música ao vivo estagnou.
Agora é pagar para tocar... os bares não querem apostar em novas bandas e os que o fazem oferecem cachets ridículos e ou irrisórios... já não há respeito e os novos músicos têm que se sujeitar......não me venham com a “tanga” de que há que fazer... é para promover... desculpem-me mas pelo menos tem que haver dignidade. Esta mania de tocar "em qualquer condição", não eleva nem ajuda a música nacional. Depois é ver a “selva” em que se tornou o circuito de concertos: nos festivais ou pagam pouco ou então paga-se... sim paga-se.... nas recepções e queimas das fitas o sistema é o mesmo "é pá vão tocar para muita gente...fazer a primeira parte de um grande artista" ( seja lá isso o que for). E as bandas aceitam!!! Mesmo que se saiba que no final o promotor fez uma pipa de massa, pagou um gordo cheque ao tal "cabeça de cartaz", e ainda sobrou para umas boas férias... um carro...
A música é uma arma e a luta continua.
CALV
Nos anos 80 e inícios de 90, existia um circuito que permitia às novas bandas, a então chamada música moderna portuguesa, apresentarem-se com condições remuneradas.
Uma banda de maqueta conseguia fazer cerca de 50 concertos num ano, em bares e discotecas, conseguindo cativar a atenção de um público com propensão para a descoberta, as pessoas estavam receptivas a novos sons. Esse era um dado fundamental... estar receptivo. Nos anos noventa a “moda” das bandas de versões atirou literalmente com as bandas de originais para fora do circuito... os donos dos locais e as pessoas preferiam ouvir “aquela música” que todos cantarolavam, mesmo que a banda fosse má... e acreditem havia bandas de fazer corar o mais surdo dos mortais.
O que é certo é que o circuito ficou muito apertado, sem espaço para um número cada vez maior de bandas que queriam mostrar o seu trabalho. A pergunta era sempre a mesma: “ tocam versões ? “...”não?!”, “pois assim não dá”.....
Muitas bandas não resistiram a este cenário e durante alguns bons anos a música ao vivo estagnou.
Agora é pagar para tocar... os bares não querem apostar em novas bandas e os que o fazem oferecem cachets ridículos e ou irrisórios... já não há respeito e os novos músicos têm que se sujeitar......não me venham com a “tanga” de que há que fazer... é para promover... desculpem-me mas pelo menos tem que haver dignidade. Esta mania de tocar "em qualquer condição", não eleva nem ajuda a música nacional. Depois é ver a “selva” em que se tornou o circuito de concertos: nos festivais ou pagam pouco ou então paga-se... sim paga-se.... nas recepções e queimas das fitas o sistema é o mesmo "é pá vão tocar para muita gente...fazer a primeira parte de um grande artista" ( seja lá isso o que for). E as bandas aceitam!!! Mesmo que se saiba que no final o promotor fez uma pipa de massa, pagou um gordo cheque ao tal "cabeça de cartaz", e ainda sobrou para umas boas férias... um carro...
A música é uma arma e a luta continua.
CALV
9.10.03
Cromos que não descolam
Guardo memórias muito positivas das cadernetas de cromos que coleccionei, há muitos anos atrás.
Recordo-me que, em qualquer caderneta, existiam, sempre, alguns cromos mais raros e que dificultavam o finalizar da colecção: eram cromos raros, mas, bons.
Quando a infância e a adolescência se fartaram de mim, essas cadernetas sumiram da minha vista.
O estranho é que, à medida que isso foi acontecendo, os cromos de papel foram sendo substituídos pelos cromos de carne e osso.
Dizer que Portugal é um pais com muitos cromos, não é novidade para ninguém.
A música, então, é um mundo cheio de cromos…
Sem esquecer os cromos que existem em maior fartura (organizações “manhosas”, intermediários “duvidosos”, etc, etc, etc…), tenho especial aversão a uns, em particular.
Refiro-me aos maus críticos, àqueles que escrevem umas coisas e que destroem outras.
Julgo que todos os trabalhos musicais merecem respeito, mesmo aqueles que são, na minha visão, muito maus.
Ao analisar um novo álbum, é essencial saber “escutar” e saber “avaliar”. Depois, é necessário ter a arte, a sensibilidade e o engenho de colocar, no papel, uma opinião sólida, válida e honesta sobre esse CD.
Redigir críticas discográficas às dúzias, enquanto se realizam reportagens de concertos e entrevistas avulsas, não pode possibilitar tempo suficiente para uma audição de todos os CD’s, sobre os quais se devem emitir opiniões. Nem permitirá que o crítico escute trabalhos anteriores do artista em questão ou que se documente sobre o mesmo, numa busca de informação e de contextualização musical.
Qualquer artista, mais jovem ou veterano, pode ver a sua carreira em cheque por uma crítica menos séria.
O que me preocupa não são as opiniões lúcidas e correctas, negativas ou positivas, mas, tão só, a falta de profissionalismo e de respeito como muitas outras são feitas.
Dizer que um artista veterano está “senil” ou que um grupo novo “devia ir trabalhar nas obras” são opiniões que não pertencem à categoria de “crítica discográfica”.
Seria interessante verificar que formação e conhecimentos musicais possuem tais pessoas…
Pessoas, que aparecem vindas do vazio e que acabam por desaparecer, deixando mau rasto…
Isto porque uma análise negativa, apresentada de uma forma destrutiva, num jornal de grande âmbito, pode ser motivo suficiente para que um grupo, numa primeira edição, veja a sua vida desaparecer.
Estes são os cromos que prejudicam qualquer colecção.
E, ao contrário dos que tinha de colar nas cadernetas, são frequentes e maus.
Luís Silva do Ó, jornalista
Recordo-me que, em qualquer caderneta, existiam, sempre, alguns cromos mais raros e que dificultavam o finalizar da colecção: eram cromos raros, mas, bons.
Quando a infância e a adolescência se fartaram de mim, essas cadernetas sumiram da minha vista.
O estranho é que, à medida que isso foi acontecendo, os cromos de papel foram sendo substituídos pelos cromos de carne e osso.
Dizer que Portugal é um pais com muitos cromos, não é novidade para ninguém.
A música, então, é um mundo cheio de cromos…
Sem esquecer os cromos que existem em maior fartura (organizações “manhosas”, intermediários “duvidosos”, etc, etc, etc…), tenho especial aversão a uns, em particular.
Refiro-me aos maus críticos, àqueles que escrevem umas coisas e que destroem outras.
Julgo que todos os trabalhos musicais merecem respeito, mesmo aqueles que são, na minha visão, muito maus.
Ao analisar um novo álbum, é essencial saber “escutar” e saber “avaliar”. Depois, é necessário ter a arte, a sensibilidade e o engenho de colocar, no papel, uma opinião sólida, válida e honesta sobre esse CD.
Redigir críticas discográficas às dúzias, enquanto se realizam reportagens de concertos e entrevistas avulsas, não pode possibilitar tempo suficiente para uma audição de todos os CD’s, sobre os quais se devem emitir opiniões. Nem permitirá que o crítico escute trabalhos anteriores do artista em questão ou que se documente sobre o mesmo, numa busca de informação e de contextualização musical.
Qualquer artista, mais jovem ou veterano, pode ver a sua carreira em cheque por uma crítica menos séria.
O que me preocupa não são as opiniões lúcidas e correctas, negativas ou positivas, mas, tão só, a falta de profissionalismo e de respeito como muitas outras são feitas.
Dizer que um artista veterano está “senil” ou que um grupo novo “devia ir trabalhar nas obras” são opiniões que não pertencem à categoria de “crítica discográfica”.
Seria interessante verificar que formação e conhecimentos musicais possuem tais pessoas…
Pessoas, que aparecem vindas do vazio e que acabam por desaparecer, deixando mau rasto…
Isto porque uma análise negativa, apresentada de uma forma destrutiva, num jornal de grande âmbito, pode ser motivo suficiente para que um grupo, numa primeira edição, veja a sua vida desaparecer.
Estes são os cromos que prejudicam qualquer colecção.
E, ao contrário dos que tinha de colar nas cadernetas, são frequentes e maus.
Luís Silva do Ó, jornalista
7.10.03
Inquérito a Animadores Radiofónicos - Resultados Finais
A questão da divulgação de música portuguesa, pelas principais estações de rádio, continua na ordem do dia. Na passada semana, foi aprovada nova legislação e o tema tem apaixonado intervenientes e dividido opiniões.
O Canal Maldito elaborou um pequeno inquérito com 7 questões e contactou 49 animadores radiofónicos de rádios locais, obtendo resposta em 22 dos casos.
Este inquérito decorreu entre 15 e 23 de Setembro e agradecemos aos animadores que connosco colaboraram.
Não foi nossa intenção aprofundar a questão, pois, podíamos correr o risco de “ter mais olhos do que barriga”.
Consideramos que os radialistas, que têm a “mão na massa”, possuem importante e essencial contributo nesta questão da música portuguesa, tendo um conhecimento lúcido e valioso, fruto do seu dia-a-dia profissional.
Quando um destes animadores divulga uma canção, abre uma janela sonora a quem a escuta.
É o genial mundo da fantasia que a rádio possibilita.
Recordamo-nos de tantos êxitos saídos das mãos destes profissionais!
Aliás, esta conversa faz-nos lembrar uma compilação recentemente editada, dedicada ao rock português que reúne temas de 1980 até 1984. Muitos deles foram grandes sucessos e proporcionaram vendas chorudas às editoras.
Neste CD, constam músicas como “Chico Fininho”, “Cavalos de Corrida”, “Chiclete”, “Patchouly” ou “Portugal na CEE”.
Foi um momento importante, o vivido em 1980/82, mas, uma dúvida faz-nos estremecer…
Caso, em 1980, as rádios nacionais estivessem formatadas pelo actual modelo, teria existido “boom” do rock português?
Artistas como GNR, Xutos & Pontapés, UHF, Rui Veloso ou Rádio Macau teriam singrado no meio musical?
Será que a música moderna portuguesa existiria em 2003?
Persona Non Grata & Um Mau Rapaz
(texto de 2003/10/01)
O Canal Maldito elaborou um pequeno inquérito com 7 questões e contactou 49 animadores radiofónicos de rádios locais, obtendo resposta em 22 dos casos.
Este inquérito decorreu entre 15 e 23 de Setembro e agradecemos aos animadores que connosco colaboraram.
Não foi nossa intenção aprofundar a questão, pois, podíamos correr o risco de “ter mais olhos do que barriga”.
Consideramos que os radialistas, que têm a “mão na massa”, possuem importante e essencial contributo nesta questão da música portuguesa, tendo um conhecimento lúcido e valioso, fruto do seu dia-a-dia profissional.
Quando um destes animadores divulga uma canção, abre uma janela sonora a quem a escuta.
É o genial mundo da fantasia que a rádio possibilita.
Recordamo-nos de tantos êxitos saídos das mãos destes profissionais!
Aliás, esta conversa faz-nos lembrar uma compilação recentemente editada, dedicada ao rock português que reúne temas de 1980 até 1984. Muitos deles foram grandes sucessos e proporcionaram vendas chorudas às editoras.
Neste CD, constam músicas como “Chico Fininho”, “Cavalos de Corrida”, “Chiclete”, “Patchouly” ou “Portugal na CEE”.
Foi um momento importante, o vivido em 1980/82, mas, uma dúvida faz-nos estremecer…
Caso, em 1980, as rádios nacionais estivessem formatadas pelo actual modelo, teria existido “boom” do rock português?
Artistas como GNR, Xutos & Pontapés, UHF, Rui Veloso ou Rádio Macau teriam singrado no meio musical?
Será que a música moderna portuguesa existiria em 2003?
Persona Non Grata & Um Mau Rapaz
(texto de 2003/10/01)
Pergunta nº 7
A diminuição nas vendas globais de discos deve-se a:
(indicar os 3 principais motivos)
Cópias de músicas pela Internet – 86,36%
Pirataria de discos – 54,55%
Preço elevado dos discos – 50,00%
Falta de divulgação das rádios nacionais – 45,45%
Falta de promoção das editoras – 27,27%
Outras razões – 22,73%
NS/NR – 13,64%
(22 respostas obtidas; NS/NR - Não sabe ou não responde)
(indicar os 3 principais motivos)
Cópias de músicas pela Internet – 86,36%
Pirataria de discos – 54,55%
Preço elevado dos discos – 50,00%
Falta de divulgação das rádios nacionais – 45,45%
Falta de promoção das editoras – 27,27%
Outras razões – 22,73%
NS/NR – 13,64%
(22 respostas obtidas; NS/NR - Não sabe ou não responde)
6.10.03
Pergunta nº 6
Considera que o tema "A Lágrima Caiu" dos UHF é comercialmente forte?
SIM - 72,73%
NÃO - 18,18%
NS/NR - 9,09%
(22 respostas obtidas; NS/NR - Não sabe ou não responde)
SIM - 72,73%
NÃO - 18,18%
NS/NR - 9,09%
(22 respostas obtidas; NS/NR - Não sabe ou não responde)
5.10.03
Pergunta nº 5
Os UHF lançaram recentemente um novo disco que não passa nas rádios nacionais. Considera que o tema "A Lágrima Caiu" devia ser divulgado pelas rádios nacionais?
SIM – 86,36%
NÃO – 9,09%
NS/NR – 4,55%
(22 respostas obtidas; NS/NR - Não sabe ou não responde)
SIM – 86,36%
NÃO – 9,09%
NS/NR – 4,55%
(22 respostas obtidas; NS/NR - Não sabe ou não responde)
4.10.03
Pergunta nº 4
Os grupos RR e MCR apostaram num formato de rádio baseado em playlists, com mais música e menos intervenção dos animadores radiofónicos. Considera este o formato correcto para a rádio do futuro?
SIM – 4,55%
NÃO – 90,90%
NS/NR – 4,55%
(22 respostas obtidas; NS/NR - Não sabe ou não responde)
SIM – 4,55%
NÃO – 90,90%
NS/NR – 4,55%
(22 respostas obtidas; NS/NR - Não sabe ou não responde)
3.10.03
Pergunta nº 3
É normal que um disco seja um sucesso de vendas se as rádios nacionais não divulgarem esse trabalho?
SIM – 27,27%
NÃO – 72,73%
(22 respostas obtidas)
SIM – 27,27%
NÃO – 72,73%
(22 respostas obtidas)
2.10.03
Pergunta nº 2
Quando uma rádio nacional aposta e divulga um música nova, considera que essa divulgação tem influência directa nas vendas desse disco?
SIM – 90,91%
NÃO – 9,09%
(22 respostas obtidas)
SIM – 90,91%
NÃO – 9,09%
(22 respostas obtidas)
1.10.03
Pergunta nº 1
Considera que as rádios nacionais deviam fazer uma maior divulgação dos novos discos de música portuguesa que são editados?
SIM – 95,45%
NÃO – 4,55%
(22 respostas obtidas)
SIM – 95,45%
NÃO – 4,55%
(22 respostas obtidas)
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