Ora bem…
Sempre que se fala de música portuguesa, e no “esgrimanço” de argumentos, há sempre quem puxe para vários lados: as culpas, os méritos, as negligências…
Há, no entanto, uma premissa que nunca vi assumida, mas que me parece fundamental.
(Este raciocínio resulta de anos em garagens com bandas da mais variada proveniência estética, acompanhá-las ao vivo, gravá-las em estúdio, etc. Ora sigam…)
Se escolhermos uma banda portuguesa de garagem, que entre todos nós seja evidente a falta de qualidade ou nível ou, melhor ainda, uma banda que possamos assumir sem problemas que é má, que toca mal, que tem más canções, que tem má cena.
Se pegarmos nessa banda, e fizermos uma gravação, também má; se fizermos um CD com mau design e má apresentação… uma coisa que nos pareça a nós - que somos razoavelmente esclarecidos - MAL.
De seguida, marcamos uns concertos aos gajos. Sítios onde eles possam apresentar a sua “cagada”. Anunciamos a “tour” de apresentação por blogs, jornais, rádios, etc.
A conclusão que vamos tirar (e aposto…) é que nesses concertos vai haver gente que vai gostar, e esses vão falar com a banda e vão-lhe dizer que gostam, vão comprar o disco, vão levar para casa, ouvir, mostrar aos amigos; os amigos vão também gostar e passar aos seus amigos, and so on, and so on…
A banda, vai ouvir muitas vezes o usual… “Vocês têm muita qualidade”, “Como é que as rádios não passam a vossa música?” “Como é que nenhuma editora pegou em vocês?” “Este país é sempre a mesma merda!” “Porque é que vocês não vão tocar ao Sudoeste?”…
Ora bem, ora bem…
Mesmo não querendo ser mauzinho, eu digo (mas quem sou eu, dizem vocês… e muito bem) que destas bandas há muito por aí…
E temos muita linha escrita, e muito minuto de airplay e muito “passa a palavra” com bandas assim.
Com um bocadinho de sorte, os nossos rapazes, vão ter inúmeras referências na imprensa e rádios.
Ora bem, ora bem...
E quando, se estiver a discutir musica nacional e os seus problemas, os nossos rapazes, poderão, com alguma legitimidade, apontar o seu caso de inúmeros concertos, críticas positivas, encorajamento, referências na imprensa e no entanto, nem rádios nacionais, nem editoras, nem estrelato!
Serão, portanto, vítimas de um País que não reconhece os seus artistas e a sua cultura, ou apenas UMA MERDA????
Por difícil que vos pareça este exercício, por experiência própria vos garanto que já vi isto acontecer, à minha frente, muitas vezes.
Daí a minha postura pouco típica e pouco amada entre os meus colegas músicos.
Eu aceito que muitas músicas não entrem em playlists ou muitas bandas não consigam contratos, etc. E não coloco os meus projectos ou aqueles em que trabalhei fora deste raciocínio. Daí que muitas vezes quando levo com o tal “vocês têm muita qualidade” ou “Porque é que nenhuma editora aposta em vocês?” ou “isto devia passar na rádio” eu vou respondendo com um seráfico “talvez não passe porque não é suposto” ou “talvez não tenha editora porque não devia ter editora”.
Este raciocínio (entre outros mal amados) levou-me a colocar o seguinte post a propósito da nova lei da rádio num Fórum muito interessante (http://www.divergencias.com/)
“música é música, ou seja, alguém por esse mundo fora ker saber se os Abba são música sueca? Se a Bjork é música islandesa? Se os Rammstein são música alemã? Se os Air são música francesa? Se os Pizzicato five são música japonesa? Se os Sigur Rós são música islandesa? Se a Kylie Minogue é música australiana? Se os Rasmus são música Finlandesa?
Penso k as respostas são sempre “não”, o que as pessoas querem saber é se é música boa para os seus ouvidos.
Ainda
No futebol temos o conhecido fenómeno dos treinadores de bancada, não estará esta discussão sobre airplay de rádio, a trazer para a ribalta enormes quantidades de playlisters de bancada? (neste caso talvez playlisters de orelha).
Mais
Através de uma pesquisa simples no google ou outro, podemos encontrar por esse mundo fora emissões online de rádios segmentadas, talvez seja interessante procurar as equivalentes internacionais ás nossas nacionais… e veremos que as nacionais, nem estão fora dos parâmetros, e pessoalmente penso, que mtas vezes a vantagem é das nacionais em termos de gosto veiculado.
Isto para dizer que, obviamente, as rádios de maior preferência do público são as que divulgam conteúdos mainstream… nada de novo até aqui, o mainstream é mainstream, porque é abrangente, porque não choca porque chega ás massas.
A pergunta (do espeta a faca)
Teremos nós produção musical mainstream capaz e em quantidade de ser incluída entre o novo single do eminem, a nova dos Queens of stone age, seguida das Pussy Cat dolls, ou dos Linking Park feat Jay Z, ou dos U2, Coldplay, The Killers, etc.?
Não estou com isto a fazer juízo de valores em relação a qualidade praticada por estes nomes, estou só a afirmar, que estes nomes produzem mainstream e por isso são preferidos pelas massas e que as rádios k procuram as massas têm k se mover nestes territórios…
As restantes rádios, são de nichos e esses não são os que agregam as preferências das maiorias… mais uma vez não é um juízo de valor mas sim uma constatação que quem faz música para nichos dificilmente obterá o reconhecimento massivo do seu trabalho.
Em jeito de conclusão
Sejam estes pontos válidos ou não, cabe aos músicos de origem Lusa, a árdua tarefa de fazer música para que quem a ouve não se preocupa ou pondere a origem mas sim apenas se gosta ou não.
Ainda fundamental, perceberem que targets querem atingir e produzir trabalho em função das referências internacionais, sendo que se o objectivo é a massificação do consumo da sua música será fundamental produzirem de acordo com as oscilações artísticas e estéticas aceites pela generalidade dos consumidores.”
Espero ter contribuído para o refreshment destas discussões.
Abraços
Rui Pintado
Além das suas múltiplas actividades ligadas à música, Rui Pintado integra desde Fevereiro os Orangotang. Aqui fica "So", actualmente na playlist da Best Rock e a passar nas 5ªas feiras da Antena 3. Espero que gostem! LSO.
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Pintado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Pintado. Mostrar todas as mensagens
29.3.06
Resmas de má qualidade
Subscrever:
Mensagens (Atom)