Guardo memórias muito positivas das cadernetas de cromos que coleccionei, há muitos anos atrás.
Recordo-me que, em qualquer caderneta, existiam, sempre, alguns cromos mais raros e que dificultavam o finalizar da colecção: eram cromos raros, mas, bons.
Quando a infância e a adolescência se fartaram de mim, essas cadernetas sumiram da minha vista.
O estranho é que, à medida que isso foi acontecendo, os cromos de papel foram sendo substituídos pelos cromos de carne e osso.
Dizer que Portugal é um pais com muitos cromos, não é novidade para ninguém.
A música, então, é um mundo cheio de cromos…
Sem esquecer os cromos que existem em maior fartura (organizações “manhosas”, intermediários “duvidosos”, etc, etc, etc…), tenho especial aversão a uns, em particular.
Refiro-me aos maus críticos, àqueles que escrevem umas coisas e que destroem outras.
Julgo que todos os trabalhos musicais merecem respeito, mesmo aqueles que são, na minha visão, muito maus.
Ao analisar um novo álbum, é essencial saber “escutar” e saber “avaliar”. Depois, é necessário ter a arte, a sensibilidade e o engenho de colocar, no papel, uma opinião sólida, válida e honesta sobre esse CD.
Redigir críticas discográficas às dúzias, enquanto se realizam reportagens de concertos e entrevistas avulsas, não pode possibilitar tempo suficiente para uma audição de todos os CD’s, sobre os quais se devem emitir opiniões. Nem permitirá que o crítico escute trabalhos anteriores do artista em questão ou que se documente sobre o mesmo, numa busca de informação e de contextualização musical.
Qualquer artista, mais jovem ou veterano, pode ver a sua carreira em cheque por uma crítica menos séria.
O que me preocupa não são as opiniões lúcidas e correctas, negativas ou positivas, mas, tão só, a falta de profissionalismo e de respeito como muitas outras são feitas.
Dizer que um artista veterano está “senil” ou que um grupo novo “devia ir trabalhar nas obras” são opiniões que não pertencem à categoria de “crítica discográfica”.
Seria interessante verificar que formação e conhecimentos musicais possuem tais pessoas…
Pessoas, que aparecem vindas do vazio e que acabam por desaparecer, deixando mau rasto…
Isto porque uma análise negativa, apresentada de uma forma destrutiva, num jornal de grande âmbito, pode ser motivo suficiente para que um grupo, numa primeira edição, veja a sua vida desaparecer.
Estes são os cromos que prejudicam qualquer colecção.
E, ao contrário dos que tinha de colar nas cadernetas, são frequentes e maus.
Luís Silva do Ó, jornalista
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9.10.03
17.9.03
O Rock nasceu do sangue
“Os escravos podem ser julgados, vendidos, alugados, avaliados, sentenciados como sendo bens móveis na mão dos seus senhores e donos, ou dos seus carrascos, administradores e procuradores, qualquer que seja a finalidade, construção ou propósito.”
Código Civil da Carolina do Sul, século XIX
Para conhecer a essência do Rock’n’Roll, temos de partir desta realidade.
Vindos de África e transportados em condições inacreditáveis, chegaram, à América, mais de dois milhões de escravos, entre 1680 e 1786.
Estes escravos trouxeram consigo a música e a tradição dos seus antepassados e seria este o embrião para o surgimento da música afro-americana, que havia de transformar o mundo musical do século XX.
Os Blues nascem nas canções de trabalho dos escravos, não podendo ser uma música alegre e feliz.
São músicas tristes, melancólicas e sofredoras, mas, simultaneamente, imaginativas, tanto na forma como no conteúdo.
Após a abolição da escravatura, as canções de trabalho perdem significado e os Blues destacam-se.
Retratam episódios concretos da existência humana: a vida, a morte, o ódio, o amor, o medo, a solidão, a angústia, o ciúme... percorrem sons pungentes, soltam gritos da alma, que ecoam e sublinham quotidianos e emoções, que lhes dão força e que lhes dão voz...
Música negra na sua origem, os Blues não são exclusivo de uma raça, sendo comungada por muitos brancos que lutaram e morreram ao lado dos negros, em prol de ideais comuns de liberdade.
Quem não entender os Blues, nunca poderá entender o Jazz nem o Rock!
O espírito do Rock tem estado presente em diversos projectos musicais, desde 1955, que inovaram e que projectaram novos movimentos sociais e culturais.
Little Richard, Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, Doors ou Bruce Springsteen são exemplos de irreverência, de rebeldia, de inovação e de revolução no “status quo” instalado.
Esta é a razão de ser do Rock, mas, desde cedo, a indústria e os “comerciantes” viram, neste “produto”, uma forma de ganhar (muito) dinheiro.
Muitos projectos e grupos foram “inventados” pela indústria, numa perspectiva meramente comercial, subvertendo, por dentro, o real significado de um movimento que nasceu de uma forma ingénua, espontânea e imparável.
Em Portugal, a revolução dos cravos, em 1974, põe fim a um regime de ditadura.
As canções de intervenção – censuradas, até então – passam a dominar as ondas hertzianas.
Os jovens vivem e lutam no seio de uma sociedade em ebulição.
A instabilidade agrava problemas sociais, cada vez mais complexos, greves, inflação, taxas de juro elevadas, falências e desemprego; a juventude mergulha em experiências diversas: o álcool, a droga, a violência e a marginalidade suburbana.
Surgem grupos musicais, fartos da ditadura imposta pelas canções de intervenção, com retratos do seu inconformismo.
25 anos depois de “Rock Around The Clock”, tivemos, em Portugal, o “boom” do rock português.
Finalmente, o rock aparecia cantado na nossa língua e com grandes sucessos.
Rui Veloso, UHF, Taxi, GNR, Ja’fumega e Salada de Frutas mostravam várias imagens de um mesmo filme.
Questões sociais eram abordadas com maior ou menor profundidade, mas no ritmo certo da dança redentora.
A agitação de 80 conduz à depressão de 82 e a uma certa sustentação, anos depois.
Tudo existe porque “existiu” um “boom”.
Contudo, permanecemos com um atraso significativo em relação ao exterior...
Lá fora, em 2003, o meio musical é mais maduro.
Cá e lá, os Rolling Stones enchem estádios e ninguém se preocupa com a sua idade.
Por cá, os GNR ou os UHF são esquecidos para Festivais de Verão ou para concertos de grande dimensão.
Lá e cá, Bruce Springsteen é capa de jornais e revistas.
Por aqui, ninguém se recorda da última vez em que os UHF foram capa no Blitz.
Lá fora, Bob Dylan é falado para Nobel da Literatura.
Por cá, António Manuel Ribeiro é um poeta marginal, numa sociedade sem alma, sem causas, sem rumo.
Uma sociedade que prefere ser acéfala, fugindo da revolução que fervilha em vulcão fumegante.
Luís Silva do Ó, jornalista
Código Civil da Carolina do Sul, século XIX
Para conhecer a essência do Rock’n’Roll, temos de partir desta realidade.
Vindos de África e transportados em condições inacreditáveis, chegaram, à América, mais de dois milhões de escravos, entre 1680 e 1786.
Estes escravos trouxeram consigo a música e a tradição dos seus antepassados e seria este o embrião para o surgimento da música afro-americana, que havia de transformar o mundo musical do século XX.
Os Blues nascem nas canções de trabalho dos escravos, não podendo ser uma música alegre e feliz.
São músicas tristes, melancólicas e sofredoras, mas, simultaneamente, imaginativas, tanto na forma como no conteúdo.
Após a abolição da escravatura, as canções de trabalho perdem significado e os Blues destacam-se.
Retratam episódios concretos da existência humana: a vida, a morte, o ódio, o amor, o medo, a solidão, a angústia, o ciúme... percorrem sons pungentes, soltam gritos da alma, que ecoam e sublinham quotidianos e emoções, que lhes dão força e que lhes dão voz...
Música negra na sua origem, os Blues não são exclusivo de uma raça, sendo comungada por muitos brancos que lutaram e morreram ao lado dos negros, em prol de ideais comuns de liberdade.
Quem não entender os Blues, nunca poderá entender o Jazz nem o Rock!
O espírito do Rock tem estado presente em diversos projectos musicais, desde 1955, que inovaram e que projectaram novos movimentos sociais e culturais.
Little Richard, Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, Doors ou Bruce Springsteen são exemplos de irreverência, de rebeldia, de inovação e de revolução no “status quo” instalado.
Esta é a razão de ser do Rock, mas, desde cedo, a indústria e os “comerciantes” viram, neste “produto”, uma forma de ganhar (muito) dinheiro.
Muitos projectos e grupos foram “inventados” pela indústria, numa perspectiva meramente comercial, subvertendo, por dentro, o real significado de um movimento que nasceu de uma forma ingénua, espontânea e imparável.
Em Portugal, a revolução dos cravos, em 1974, põe fim a um regime de ditadura.
As canções de intervenção – censuradas, até então – passam a dominar as ondas hertzianas.
Os jovens vivem e lutam no seio de uma sociedade em ebulição.
A instabilidade agrava problemas sociais, cada vez mais complexos, greves, inflação, taxas de juro elevadas, falências e desemprego; a juventude mergulha em experiências diversas: o álcool, a droga, a violência e a marginalidade suburbana.
Surgem grupos musicais, fartos da ditadura imposta pelas canções de intervenção, com retratos do seu inconformismo.
25 anos depois de “Rock Around The Clock”, tivemos, em Portugal, o “boom” do rock português.
Finalmente, o rock aparecia cantado na nossa língua e com grandes sucessos.
Rui Veloso, UHF, Taxi, GNR, Ja’fumega e Salada de Frutas mostravam várias imagens de um mesmo filme.
Questões sociais eram abordadas com maior ou menor profundidade, mas no ritmo certo da dança redentora.
A agitação de 80 conduz à depressão de 82 e a uma certa sustentação, anos depois.
Tudo existe porque “existiu” um “boom”.
Contudo, permanecemos com um atraso significativo em relação ao exterior...
Lá fora, em 2003, o meio musical é mais maduro.
Cá e lá, os Rolling Stones enchem estádios e ninguém se preocupa com a sua idade.
Por cá, os GNR ou os UHF são esquecidos para Festivais de Verão ou para concertos de grande dimensão.
Lá e cá, Bruce Springsteen é capa de jornais e revistas.
Por aqui, ninguém se recorda da última vez em que os UHF foram capa no Blitz.
Lá fora, Bob Dylan é falado para Nobel da Literatura.
Por cá, António Manuel Ribeiro é um poeta marginal, numa sociedade sem alma, sem causas, sem rumo.
Uma sociedade que prefere ser acéfala, fugindo da revolução que fervilha em vulcão fumegante.
Luís Silva do Ó, jornalista
5.9.03
Primeiro Balanço da Polémica
Decorridos vários dias desde o inicio de tão agitada polémica em torno da não passagem de UHF na RFM penso que poderemos fazer um primeiro balanço.
Sabemos que as rádios actualmente estão formatadas pelo modelo puramente comercial.
Não apostam em temas sem sucesso comprovado ou que não suscitem determinado nível de confiança prévio.
Estão, efectivamente, no seu direito empresarial privado que visa o lucro e o aumento do seu share.
Por outro lado, encontramos uma afirmação que alimentou estes rios (gigantescos) de polémica.
Esta agitação acaba por provar, sobretudo a quem reside na capital, que o grupo UHF está bem vivo e com um fôlego assinalável.
Refiro a capital, porque os UHF, como qualquer grupo musical, tem trabalhado muito na província e nunca fomentaram a vida dentro de "lobbies", que lhes permitisse estarem na "linha da frente" mediática.
Em Lisboa a memória é normalmente mais curta, pois a vida é vivida de uma forma mais rápida.
Na província as coisas são diferentes e um concerto dos Xutos, dos GNR ou dos UHF pode ser recordado, como referência, durante anos, por uma massa humana significativa.
Em Lisboa tal também pode acontecer mas em muito menor dimensão.
Por exemplo, os Xutos cresceram com uma legião de fãs espalhada por Portugal.
Os UHF “explodiram” mais depressa e ficaram famosos muito antes, tendo mantido igual legião, mas, anormalmente, menos activa, menos organizada e menos interventiva.
Contudo eles, os fãs, existem em grande número e parece que saíram do casulo em autodefesa dos seus ídolos.
Outra questão também é importante neste ano grande para os UHF.
António Manuel Ribeiro regressa à casa-mãe EMI/VC e apresenta um duplo CD, Ópera-Rock, de grande qualidade.
Alguns orgãos de comunicação atribuíram excelentes notas e escreveram críticas muito positivas a "La Pop End Rock".
Recordo-me que o jornalista Fernando Magalhães do diário Público destacou uma boa meia dúzia de temas, muito fortes comercialmente. O próprio Jorge Mourinha, do Blitz, destaca um punhado de canções como potenciais hits.
António Pires, escreve num artigo de opinião que "La Pop End Rock" é o melhor disco dos UHF desde "À Flor da Pele".
Enfim, críticas e opiniões de gente respeitada e insuspeita.
Gente que em anos anteriores criticara violentamente trabalhos dos UHF ou de António Manuel Ribeiro (recordo uma crítica arrasante de Fernando Magalhães do Público) surge agora a afirmar a excelência da obra.
Naturalmente que os UHF têm mantido uma legião de fãs pelo Portugal real e têm conseguido tocar com muita regularidade (40 ou 50 concertos por ano, segundo dados que recentemente li).
Acresce a esta questão outro facto quente: O apoio que a RFM dera a trabalhos anteriores dos UHF.
Com esse apoio bem presente na memória de quem ouviu a RFM desde o seu nascimento, os admiradores dos UHF (e genericamente de música portuguesa) aguardavam certo destaque.
Recordo "parcerias" marcantes do passado:
- Passagem de muitos temas da banda ("Hesitar", "Menina Estás à Janela", "Nove Anos", etc)
- Patrocínio de digressões nacionais
- Lideranças do Top 25 RFM
- Gravação de concertos e posterior passagem
- Especiais sobre o grupo
- Promoção na gravação do disco ao vivo "Julho, 13"
- "Carimbo" RFM na compilação "Eternamente" de 1999
Mas para além desta história de cumplicidades, outros factores existem:
- 2003 é o ano dos 25º aniversário de carreira da banda de Almada;
- O disco é "só" uma Ópera-Rock autobiográfica de reconhecido mérito;
- "La Pop End Rock" marca o regresso à EMI/VC;
- O duplo CD integra temas ao nível de "Cavalos de Corrida", de "Hesitar" ou de "Menina Estás
à Janela", na visão dos próprios críticos.
Tudo isto potencia uma enorme desilusão em milhares de fãs dos UHF espalhados pelo Continente e Ilhas.
E, mais surpreendentemente, numa cada vez maior multidão de "não fãs" que fica conquistada pela qualidade do disco.
Pessoas que não gostavam de UHF, que não escutavam UHF, que nunca tinha comprado um disco dos UHF...
No jornal Blitz já se notara algum movimento e alguma revolta em alguns admiradores, ou em meros leitores, que tomaram contacto casual com "La Pop End Rock".
Esta questão que agora transpira na telefonia virtual é a ponta de um iceberg que não se pode desvalorizar nem silenciar.
A maioria das mensagens do fórum é claramente favorável a uma passagem de UHF na RFM, apesar de algumas vozes discordantes que apontam razões válidas e pertinentes.
Exceptuando alguns exageros, o tom tem sido muito positivo e é de saudar esta cultura de respeito e de troca de ideias, estando a telefonia virtual e os seus participantes de parabéns.
Sem sequer tocar em assuntos igualmente excitantes e quentes, quero louvar a coragem do director de programas da RFM, António Mendes.
É bom assumir publicamente a questão e explicar aos ouvintes as motivações e as razões da RFM.
Outros no seu lugar não teriam a ousadia de escreverem, preto no branco, a visão da RFM sobre o último trabalho dos UHF.
Provavelmente, jamais o director António Mendes pensara, que, um grupo com 25 anos de carreira mantivesse tão grande ligação com Portugal.
Essa é outra questão que nos levaria a questionar a falta de consciência nacional, que existe em rádios, televisões e jornais neste País.
Refiro-me aos orgãos de âmbito nacional, dado que as rádios locais têm plena consciência dos gostos do povo.
Contudo, as consequências desta polémica não podem ficar por aqui.
Tão assinalável conjunto de mensagens não acontece por acaso.
Existe uma "bolha" que parece ter começado a "estoirar"...
Mas, ao contrário do que seria usual nestes casos, não é uma "bolha" só de fãs dos UHF!
Claro que a maioria o deve ser, mas estão “acompanhados” (e isto é muito significativo) por outras pessoas que nem gostavam de UHF ou nem conheciam bem a banda.
São diversos os comentários em que se percebe isso mesmo!
Aqui, no Blitz, na Sic Radical, no chat do Curto Circuito...
Este indicador é muito positivo para o futuro dos UHF e para o êxito de "La Pop End Rock".
Facto curioso, em matéria de apostas radiofónicas, é que "A Lágrima Caiu" não passa na RFM, mas esteve diversas semanas no primeiro ou segundo lugar do TOP MAX MÚSICA da Sic Radical.
Suponho que esta posição fosse já sintomático do sucesso da música!
E, sendo assim, alguma coisa nos começa a escapar na decisão tomada pela RFM.
Chegado a este ponto resta pouco para concluir.
Julgo essencial uma reflexão da RFM (e das outras rádios), no sentido de ponderar melhor certas posições.
Não pela polémica levantada, nem pela quantidade de mensagens.
A polémica e o volume de mensagens são, realmente, um excelente caso para estudo.
Sobretudo, numa altura em que a maioria das pessoas está de férias no Algarve e sem internet...
Para estudar friamente e sem ideias pré-concebidas.
Por todos os motivos e mais algum seria importante mostrar este disco aos portugueses.
Analisando friamente a situação, pessoalmente, equacionaria uma abordagem racional de consenso.
Sem perder de vista o objectivo do lucro (esse é, de facto, o sustento das empresas!), existem formas de começar a divulgar (e "testar") uma música sem que isso acarrete perda de audiência.
Os profissionais sabem como o podem fazer, apostando em determinados horários que servem como "zona piloto", como "tubo de ensaio" para que o auditório tome contacto com essas músicas novas.
Suponho que "A Lágrima Caiu" já justifica essa "aposta".
Luís Silva do Ó, Telefonia Virtual, 28.08.2003
Sabemos que as rádios actualmente estão formatadas pelo modelo puramente comercial.
Não apostam em temas sem sucesso comprovado ou que não suscitem determinado nível de confiança prévio.
Estão, efectivamente, no seu direito empresarial privado que visa o lucro e o aumento do seu share.
Por outro lado, encontramos uma afirmação que alimentou estes rios (gigantescos) de polémica.
Esta agitação acaba por provar, sobretudo a quem reside na capital, que o grupo UHF está bem vivo e com um fôlego assinalável.
Refiro a capital, porque os UHF, como qualquer grupo musical, tem trabalhado muito na província e nunca fomentaram a vida dentro de "lobbies", que lhes permitisse estarem na "linha da frente" mediática.
Em Lisboa a memória é normalmente mais curta, pois a vida é vivida de uma forma mais rápida.
Na província as coisas são diferentes e um concerto dos Xutos, dos GNR ou dos UHF pode ser recordado, como referência, durante anos, por uma massa humana significativa.
Em Lisboa tal também pode acontecer mas em muito menor dimensão.
Por exemplo, os Xutos cresceram com uma legião de fãs espalhada por Portugal.
Os UHF “explodiram” mais depressa e ficaram famosos muito antes, tendo mantido igual legião, mas, anormalmente, menos activa, menos organizada e menos interventiva.
Contudo eles, os fãs, existem em grande número e parece que saíram do casulo em autodefesa dos seus ídolos.
Outra questão também é importante neste ano grande para os UHF.
António Manuel Ribeiro regressa à casa-mãe EMI/VC e apresenta um duplo CD, Ópera-Rock, de grande qualidade.
Alguns orgãos de comunicação atribuíram excelentes notas e escreveram críticas muito positivas a "La Pop End Rock".
Recordo-me que o jornalista Fernando Magalhães do diário Público destacou uma boa meia dúzia de temas, muito fortes comercialmente. O próprio Jorge Mourinha, do Blitz, destaca um punhado de canções como potenciais hits.
António Pires, escreve num artigo de opinião que "La Pop End Rock" é o melhor disco dos UHF desde "À Flor da Pele".
Enfim, críticas e opiniões de gente respeitada e insuspeita.
Gente que em anos anteriores criticara violentamente trabalhos dos UHF ou de António Manuel Ribeiro (recordo uma crítica arrasante de Fernando Magalhães do Público) surge agora a afirmar a excelência da obra.
Naturalmente que os UHF têm mantido uma legião de fãs pelo Portugal real e têm conseguido tocar com muita regularidade (40 ou 50 concertos por ano, segundo dados que recentemente li).
Acresce a esta questão outro facto quente: O apoio que a RFM dera a trabalhos anteriores dos UHF.
Com esse apoio bem presente na memória de quem ouviu a RFM desde o seu nascimento, os admiradores dos UHF (e genericamente de música portuguesa) aguardavam certo destaque.
Recordo "parcerias" marcantes do passado:
- Passagem de muitos temas da banda ("Hesitar", "Menina Estás à Janela", "Nove Anos", etc)
- Patrocínio de digressões nacionais
- Lideranças do Top 25 RFM
- Gravação de concertos e posterior passagem
- Especiais sobre o grupo
- Promoção na gravação do disco ao vivo "Julho, 13"
- "Carimbo" RFM na compilação "Eternamente" de 1999
Mas para além desta história de cumplicidades, outros factores existem:
- 2003 é o ano dos 25º aniversário de carreira da banda de Almada;
- O disco é "só" uma Ópera-Rock autobiográfica de reconhecido mérito;
- "La Pop End Rock" marca o regresso à EMI/VC;
- O duplo CD integra temas ao nível de "Cavalos de Corrida", de "Hesitar" ou de "Menina Estás
à Janela", na visão dos próprios críticos.
Tudo isto potencia uma enorme desilusão em milhares de fãs dos UHF espalhados pelo Continente e Ilhas.
E, mais surpreendentemente, numa cada vez maior multidão de "não fãs" que fica conquistada pela qualidade do disco.
Pessoas que não gostavam de UHF, que não escutavam UHF, que nunca tinha comprado um disco dos UHF...
No jornal Blitz já se notara algum movimento e alguma revolta em alguns admiradores, ou em meros leitores, que tomaram contacto casual com "La Pop End Rock".
Esta questão que agora transpira na telefonia virtual é a ponta de um iceberg que não se pode desvalorizar nem silenciar.
A maioria das mensagens do fórum é claramente favorável a uma passagem de UHF na RFM, apesar de algumas vozes discordantes que apontam razões válidas e pertinentes.
Exceptuando alguns exageros, o tom tem sido muito positivo e é de saudar esta cultura de respeito e de troca de ideias, estando a telefonia virtual e os seus participantes de parabéns.
Sem sequer tocar em assuntos igualmente excitantes e quentes, quero louvar a coragem do director de programas da RFM, António Mendes.
É bom assumir publicamente a questão e explicar aos ouvintes as motivações e as razões da RFM.
Outros no seu lugar não teriam a ousadia de escreverem, preto no branco, a visão da RFM sobre o último trabalho dos UHF.
Provavelmente, jamais o director António Mendes pensara, que, um grupo com 25 anos de carreira mantivesse tão grande ligação com Portugal.
Essa é outra questão que nos levaria a questionar a falta de consciência nacional, que existe em rádios, televisões e jornais neste País.
Refiro-me aos orgãos de âmbito nacional, dado que as rádios locais têm plena consciência dos gostos do povo.
Contudo, as consequências desta polémica não podem ficar por aqui.
Tão assinalável conjunto de mensagens não acontece por acaso.
Existe uma "bolha" que parece ter começado a "estoirar"...
Mas, ao contrário do que seria usual nestes casos, não é uma "bolha" só de fãs dos UHF!
Claro que a maioria o deve ser, mas estão “acompanhados” (e isto é muito significativo) por outras pessoas que nem gostavam de UHF ou nem conheciam bem a banda.
São diversos os comentários em que se percebe isso mesmo!
Aqui, no Blitz, na Sic Radical, no chat do Curto Circuito...
Este indicador é muito positivo para o futuro dos UHF e para o êxito de "La Pop End Rock".
Facto curioso, em matéria de apostas radiofónicas, é que "A Lágrima Caiu" não passa na RFM, mas esteve diversas semanas no primeiro ou segundo lugar do TOP MAX MÚSICA da Sic Radical.
Suponho que esta posição fosse já sintomático do sucesso da música!
E, sendo assim, alguma coisa nos começa a escapar na decisão tomada pela RFM.
Chegado a este ponto resta pouco para concluir.
Julgo essencial uma reflexão da RFM (e das outras rádios), no sentido de ponderar melhor certas posições.
Não pela polémica levantada, nem pela quantidade de mensagens.
A polémica e o volume de mensagens são, realmente, um excelente caso para estudo.
Sobretudo, numa altura em que a maioria das pessoas está de férias no Algarve e sem internet...
Para estudar friamente e sem ideias pré-concebidas.
Por todos os motivos e mais algum seria importante mostrar este disco aos portugueses.
Analisando friamente a situação, pessoalmente, equacionaria uma abordagem racional de consenso.
Sem perder de vista o objectivo do lucro (esse é, de facto, o sustento das empresas!), existem formas de começar a divulgar (e "testar") uma música sem que isso acarrete perda de audiência.
Os profissionais sabem como o podem fazer, apostando em determinados horários que servem como "zona piloto", como "tubo de ensaio" para que o auditório tome contacto com essas músicas novas.
Suponho que "A Lágrima Caiu" já justifica essa "aposta".
Luís Silva do Ó, Telefonia Virtual, 28.08.2003
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