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5.4.08

Ares e bares de mau rapaz

Estive na Aula Magna e compartilho do sentimento que João Morales teve a gentileza de partilhar connosco. Mais do que a um espectáculo, assisti a uma celebração que gerou – pela primeira vez na história dos UHF – uma unanimidade em toda a crítica presente. Porém, neste texto, não irei dedicar-me a analisar o concerto mas procurarei olhar, noutro prisma, para uma carreira coerente e determinada e em simultâneo, repleta de erros, de decisões a quente, de afrontamentos aguerridos e das boas e más decisões inerentes a uma vida preenchida por atitudes destemidas, sem medos de entrar em choque e em guerra com tudo e todos ao mesmo tempo.

Se fosse realizado um estudo para determinar a empatia, antipatia e indiferença que o público nutre pelos nossos artistas, António Manuel Ribeiro teria um resultado ínfimo no item indiferença. Raras são as pessoas com mais de 20 e menos de 50 anos que sentem indiferença quando a personalidade se chama António Manuel Ribeiro. Provavelmente, a quantidade daqueles que gostam bastante de UHF seria semelhante à daqueles que os odeiam. No início dos anos 90, cheguei a pensar colocar em estúdio um fã e um “anti-fã” para conversarem em directo com o António. A coisa esteve quase a concretizar-se, contudo, à última hora, a pessoa que detestava UHF roeu a corda. Teria sido sociologicamente interessante, além de esteticamente agradável – o ataque viria do género feminino.

Numa sociedade normal, estes indicadores amor/ódio seriam interessantes porque quem gosta gosta e quem desdenha ao menos não sente indiferença – ou pode querer comprar e, por receio de não ser popular gostar de UHF, afirmar não gostar. Não nos esqueçamos que os Duran Duran foram devastados por aqueles que anos mais tarde os glorificaram. Vêem estes considerandos a propósito daquilo que me palpita ser o motivo da ausência dos UHF das playlists das rádios com maior airplay. Ou seja, suspeito que os UHF não passam não por uma questão de popularidade dos temas, mas devido à impopularidade que se retira dos resultados dos estudos. Isto é, se 40% de pessoas adoram uma canção, 20% a consideram razoável, 20% não a apreciam e os restantes 20% a detestam é muito provável que seja incluída na playlist. Não obstante, se 60% de pessoas gostam de um tema e 40% o dizem detestar é, também, altamente provável que essa canção nunca faça parte da playlist. Isto porque é valorizado o risco da perda de auditório do lado dos 40%, enquanto se desvaloriza a mais valia junto da maioria de 60% que afirmam gostar. Os méritos de uma eventual vitória da indiferença são, no mínimo, estranhos. No entanto, palpita-me que possa estar a ocorrer no que respeita a um número considerável de canções. Esta lógica aplicada às eleições Legislativas poderia implicar a situação caricata de um partido vencer, mas acabar por perder no cruzamento entre o positivo e o negativo – na mesma linha das sondagens referentes à popularidade dos nossos políticos.

Esta é, somente, uma teoria tão absurda ou verdadeira como outra qualquer. Na realidade, nunca conheci um artista português cuja apreciação seja tão emocional como a que existe em torno de António Manuel Ribeiro. O caso é tão evidente que, depois do concerto na Aula Magna, o baterista Ivan – que está nos UHF vai para 10 anos – dizia-me, para os microfones da Miróbriga, que o António merece ter amigos. Num momento de euforia e de contentamento indescritível, podia ter aproveitado para dizer mil coisas diferentes, mas, 5 minutos após sair do palco, as suas palavras foram inteirinhas para o mérito e para a amizade que tem com António Manuel Ribeiro.

Nestes 30 anos de carreira, os UHF estiveram sempre em guerra dentro do mercado e nunca desistiram das suas convicções. António Manuel Ribeiro pode até ter dores nas costas, porém nunca se juntou a brigadas do reumático para aumentar a conta bancária. Podia tê-lo feito e, certamente, se entrasse no jogo das concessões, teria, hoje, outro estatuto, outra empatia mediática, outra carreira, mas, no fundo, seria outro. E, se fosse “outro”, teria algum interesse, teria algum valor ou seria, apenas, um somatório de vazios com uma carreira que nem para nota de rodapé serviria daqui a 30 anos?

A rebeldia, o afrontamento, a forma muito rock’n’roll como se esteve nas tintas para o politicamente correcto levaram-no a coleccionar uma lista de antipatias superior ao que seria desejável num meio que vive muito dos conhecimentos, das aparências, das grandes digressões que se esgotam nalgumas cidades e dos copos que antigamente se bebiam em determinados bares de Lisboa. Todavia, não se pense que faltaram copos às dezenas de músicos que passaram pelos UHF. Com os UHF, beber copos não era uma questão estética de estar na moda, mas sim, um mergulhar no mesmo espírito de Ramones ou de Jim Morrison. Outros seguiam tendências etílicas mais próximas da new-wave ou do pós-punk em que o copo segurado na mão também servia como adorno.

Como seria possível uma História diferente se até no beber existiam visões e atitudes inconciliáveis?


Luís Silva do Ó

16.10.07

Quem quer ter editora?

Num passado ainda recente, qualquer banda ou artista ambicionava assinar contrato com uma editora discográfica. Actualmente, muitos consagrados estão a desligar-se de compromissos e a assumirem o controlo das edições das suas novas canções. E, cada vez mais, surgem novos talentos que aparecem e se tornam conhecidos através da Internet.

A indústria discográfica, tal como a conhecemos, morreu, mas as editoras ainda não o sabem. Todavia, a certidão de óbito já está passada. Não chegou foi ao conhecimento oficial dos defuntos porque as certidões teimam em permanecer numa qualquer caixa de correio. A atitude tem sido semelhante à de muitos portugueses que não levantam cartas registadas nos correios porque temem más notícias.

Os últimos anos têm sido passados com a indústria dos discos a diminuir receitas e a despedir trabalhadores. Simultaneamente, assistimos, na Internet, a um consumo crescente de música tanto através do recurso a esquemas piratas como a compra de música em formato digital. E, sobretudo, muita gente escuta música gratuitamente nos sites dos próprios artistas ou nos populares youtube ou myspace. Porém, o negócio do disco aproxima-se do momento do “estoiro” em que “dará o berro” aproximando-se da situação das vendas dos discos de vinil para coleccionador comprar.

Muitos músicos já anteciparam esta tendência porque sabem que as possibilidades promocionais da Internet estão anos luz à frente das complicadas guerras de bastidores que ocorrem em corredores de editoras. Agora, os músicos podem controlar toda a actividade, incluindo a promoção, distribuição e comercialização dos seus trabalhos. Numa loja virtual, uma edição via multinacional é igual a uma edição de autor e todos conseguem colocar os seus temas à venda. Mesmo considerando que essas receitas serão menores do que aquelas que no passado se conseguiam com as vendas de discos, as contrapartidas são evidentes se constatarmos a possibilidade de atingir outros públicos e, assim, aumentar o número de concertos ao vivo. O segredo do sucesso e da viabilidade financeira em Portugal passa e sempre passou pelos concertos ao vivo. Quanto mais divulgado for um trabalho, maior o número de concertos e maior a receita que se irá realizar.

A única hipótese das editoras é conseguirem compreender os ventos de mudança e operarem significativas adaptações ao mercado dos dias de hoje. Tal como, em nome da sobrevivência, o negócio da PT se tem diversificado, também as editoras o terão de fazer. É inevitável.

O disco está à beira do fim e eu serei um dos poucos clientes no nicho de mercado dos coleccionadores.


Luís Silva do Ó

7.6.07

O adeus de Marta Ferreira

O blogue Canal Maldito encontra-se em estado de hibernação, porém, tendo ocorrido hoje o inesperado falecimento de Marta Ferreira, irmã de Kalu e manager dos Xutos & Pontapés, não queria deixar de prestar uma pequena e insignificante homenagem. Contactei de perto com a Marta durante o período em que os k2o3 gravaram o seu primeiro CD - editado pela El-Tatu - e realizaram algumas primeiras partes de Xutos.
Tenho dela a visão da manager exemplar e principal responsável pelo ressurgimento da carreira dos Xutos - reporto-me aos tempos seguintes à edição de “Gritos Mudos” (1990) e ao período conturbado que os Xutos internamente viveram.

A última vez que com ela estive pessoalmente foi na noite de 17 de Março de 2006, no decurso do espectáculo da “Febre de Sábado” em Matosinhos. Posteriormente, ainda trocámos alguns emails. Ao Kalú, ao Kabeca, à família e aos Xutos & Pontapés transmito um abraço com o meu profundo pesar.

Marta Ferreira esteve para os Xutos como Brian Epstein esteve para os Beatles.

Eternamente insubstituível.

Até sempre.
Luís Silva do Ó



Dia 8, 6ª feira, a partir das 18h00 na Casa Mortuária da Basílica da Estrela.
Dia 9, sábado, Missa de corpo presente pelas 16h30, saindo depois para o Cemitério dos Olivais.

27.6.06

A rádio é uma maçã

Pelo menos quem vos escreve estas linhas considera-a comparável. Mas, ao contrário do que as mentes mais imaginativas já supõem, não o é por estar madura e com bicho. Enfim, não é que a rádio de hoje não viva, genericamente, uma crise de identidade. Porém, encaro-a como se de uma maçã se tratasse, porque, para mim, será sempre uma tentação. Uma tentação que me conquistou irremediavelmente enquanto ouvinte e, mais tarde (entre 1987 e 1995), quando fui responsável por programas semanais. De autor, diga-se.
Curiosamente, além de uma tentação acaba por ser um bicho, um doce bichinho que tenho vindo a satisfazer com certa regularidade nos últimos tempos, em colaborações com Bruno Gonçalves Pereira - num programa onde se aliam as ideias e os conhecimentos da modernidade com as apetências pela comunicação.

Neste blogue discute-se o futuro da música e de todos os aspectos laterais, mas, essenciais para o seu mundo. A rádio sempre esteve ligada à divulgação de música e, ao contrário da televisão, quem fala de rádio acaba por lembrar-se de música e quem fala de música não pode ignorar a importância da rádio na sua promoção. É uma pescadinha de rabo-na-boca que viveu uma quente relação durante décadas. Não nos podemos é esquecer que já existia música antes de existirem rádios e que a música não vai terminar no dia em que as rádios claudiquem.

Concordo que uma rádio queira passar temas de sucesso. Já não consigo é compreender a razão pela qual o peso das vendas da música portuguesa é superior à percentagem de música portuguesa emitida. Por exemplo, na lista dos 30 discos mais vendidos em 2004 contavam-se os trabalhos de Da Weasel (3º), de Rui Veloso (9º) e de Mariza, sem que nenhum deles constasse da lista de temas mais escutados nas rádios nacionais nesse ano. Se o público compra mesmo sem a rádio promover porque razão a rádio não divulga o que os portugueses que escutam rádio compram? Ou será o grupo de portugueses que escuta rádio completamente diferente do que compra discos!? Depois de assistir ao escândalo futeboleiro do ano - “caso Mateus” - representado por ilustres juízes deste país, estou preparado para acreditar em tudo!

E porque estou hoje a falar de rádio em vez de exprimir a minha opinião acerca do jogo Portugal - Holanda? Podia dizer que não queria perder a oportunidade de explorar chão que já deu uvas após o meu último post ter atingido 69 comentários. Ou que mantive conversas paralelas com algumas pessoas ligadas à indústria, à rádio e à música. Ou que…
Porém, a verdade é que a crónica de hoje existe porque li um texto de Jorge Guimarães Silva – aconselho vivamente a sua leitura – em que se conclui que a rádio perdeu mais de 300 mil ouvintes comparando o 1º trimestre de 2005 com o deste ano.

Ora, estes números parecem mostrar que existe alguma coisa de errado. Se o actual modelo de rádio é bom como é possível uma quebra destas? Compreendo que os patrões das rádios não queiram mudar o formato nem passar músicas por decreto, contudo, se mesmo passando a música que os seus consultores indicam, feitos “científicos” estudos e mantendo determinado modelo de emissão, a rádio perde 300 mil ouvintes num ano por algum motivo será. As rádios parecem encontrar-se numa encruzilhada e quem as dirige tem optado por sinuosos caminhos nos cruzamentos com que se tem deparado ao longo das últimas 2 décadas.

O poder da rádio centrava-se, muito, imenso, na novidade, na mobilidade, na formação que realizava junto do auditório e na capacidade inata dos seus comunicadores - esmagadoramente constituídos por pessoas cultas, bem informadas, irrequietas, inquietas e inquietadas.
Poderia afirmar que a televisão matou a rádio, no sentido da rádio ter sido preterida dentro de casa, mas seria um equívoco. A televisão somente esmagou as manhãs da rádio quando os programas foram perdendo força e dinâmica. Quando os comunicadores foram sendo substituídos por gente com vozes jeitosas e, na sua maioria, com fraca capacidade e conhecimentos.
A televisão não esmagou a rádio. Foi a rádio que saiu do ringue de combate apostando em locutores, em estudos “científicos”, na normalização de listas de discos pedidos, terminando, em alguns casos, com a componente desportiva, esvaziando redacções com tarimba, despedindo jornalistas e contratando estagiários quase de borla.
Em simultâneo com a perda, em todos os horários, dos ouvintes “caseiros” - e o mais bizarro é que até os célebres e espantosos programas das madrugadas desapareceram sem deixar rasto -, a rádio acabou por apontar baterias aos ouvintes condutores. Nessa fase, uma rádio de música era mais atraente para os automobilistas do que uma cassete BASF de ferro com 60 ou 90 minutos de duração. Pudera, não era de admirar, leitores de CD's nos carros eram poucos e caros.

Um dos problemas é que estando a rádio barricada ao público que viaja de carro e com fraco sentido de novidade e de comunicação, caminha, inevitavelmente, para um beco sem saída.

Hoje em dia, já existem instalados, nos automóveis, leitores de CD's compatíveis com mp3, já existem leitores de DVD com respectivo ecrã, já existem diversos dispositivos móveis e não falta muito para que se sintonizem (nos nossos carrinhos) “rádios virtuais” através da internet. A vantagem da rádio, para quem conduz, vai passar a resumir-se à informação do trânsito? Será?
Não creio. Com o GPS, com o acesso à internet e com todos os serviços que o futuro próximo nos vai dar, vai ser mais fácil ver (literalmente) o estado do trânsito on-line.
Aliás, basta uma visita a alguns sites para já hoje sabermos como está o trânsito em zonas normalmente complicadas.

O cenário que tracei é pessimista? Talvez. Não obstante, acredito que as pessoas vão querer voltar a escutar rádio caso regressem a novidade, o arrojo, a comunicação, os programas de autor e a qualidade.

Com esses condimentos, a rádio será sempre uma tentação.


Luís Silva do Ó


*Este texto foi elaborado tendo em mente as rádios generalistas top de audiências. Outras rádios começam a dar sinais tímidos de mudança e as rádios do grupo RDP têm vindo a realizar um interessante percurso.

3.4.06

Um mergulho no saque

A indústria musical em Portugal já viveu melhores dias. Estamos num período de “vacas magras”, como todos os indicadores o comprovam e com a facturação das editoras a diminuir quase para metade no espaço dos últimos 5 anos.

E se o negócio da música está mau em todo o mundo, a música portuguesa ainda se encontra em pior estado. As vendas têm baixado e as apostas das editoras têm de ser bem reflectidas. Os novos músicos não editam, não têm espaços para tocar, não passam na rádio e não surgem em programas de televisão. Esta sequência é aleatória, mas o ciclo vicioso está a provocar danos em toda uma geração de criadores sem possibilidades de furar. Contudo, não são somente os novos músicos a terem problemas com o momento presente. Tirando uma minoria de consagrados, temos um vasto leque de artistas com passado relevante que se encontram a atravessar um limbo prolongado, pouco habitual e indesejável.

Aproveito para um aparte a que voltarei em próxima crónica. Ao contrário de algumas vozes, não acredito que os veteranos tapem lugares às novas gerações. O mercado internacional mostra que coexistem novos e antigos valores. Os U2 ou Elton John não bloqueiam o surgimento de outros projectos de grande dimensão porque existe mercado para todos. Porém, para que tudo funcione é imprescindível que exista mercado e, nos dias de hoje, corremos o risco de o matar…


Há 25 anos, o “Mãozinhas” adorava ir de noite ao supermercado “fazer compras”. Costumava levar todos os bens que lhe apetecesse e depois deixava as portas escancaradas para que todos os amigos pudessem repetir os carregamentos.
Já o “Brocas” era um destravado que chegava depois do "Mãozinhas" fazer o "trabalhinho" e, além das suas “compras”, mantinha as portas abertas e distribuía tudo o que continha o supermercado.
Entrando sorrateiro, o “Pantufas” só levava umas coisinhas e tentava sumir rapidamente com medo que algum segurança o visse.

Em pleno século XXI, estes 3 rapazes modernizaram-se e deixaram o desconforto das saídas nocturnas. Operam hoje nas suas casas e são especialistas da negra arte do saque pela Internet.

O “Mãozinhas” permanece o mesmo palerma de sempre. Agora, até se dá ao luxo de comprar CD's para depois os ripar, os compactar com todas as imagens que integram os discos e os disponibilizar para que possam ser sacados na Internet.
O “Brocas” aproveita o trabalho do “Mãozinhas”, saca os discos e incentiva a continuação do vil saque ao manter esses ficheiros acessíveis para posteriores uploads.
Por último, o “Pantufas” tenta não partilhar, mas, vai sacando sempre que pode. Ainda assim, enquanto “saca e não saca” acaba por ir permitindo que outros saquem os fragmentos que ele vai conseguindo transferir para o seu computador.

A diversidade do que se encontra disponível na Internet é impressionante. Mesmo sem contribuir activamente para o fenómeno, conseguimos visualizar um vasto leque de exemplos do que se passa no presente. Quase tudo se consegue sacar pela Internet: aplicações e jogos de computador, séries de todo o género, filmes ripados de DVD's ou filmados durante a sua exibição nas salas de cinema, etc. E, no âmbito daquilo que mais nos importa nesta crónica, na música, além das edições recentes, consegue-se encontrar de tudo um pouco… até trabalhos nunca editados em formato digital!

Há 15 dias, tive oportunidade de conversar com José Cid e confirmei que o “Cantando Pessoas Vivas” (disco de rock progressivo gravado pelo Quarteto 1111 em 1975) não existia em formato CD. Todavia, este disco encontra-se disponível nos programas de partilha de ficheiros.
Também o nosso amigo António Manuel Ribeiro tem poucos trabalhos recuperados para o formato CD. Contudo, o disco ao vivo “No Jogo da Noite” (que tenho em LP) encontra-se, não só, disponível, como em versão remasterizada!
Considero que estes e muitos mais álbuns deviam ser lançados em CD, mas, o que me interessa ressalvar aqui, hoje, é o nível de sofisticação a que as coisas chegaram.
Existem pessoas que se dão ao trabalho de passarem som analógico para digital e de cuidarem profissionalmente do produto final antes de o disseminarem pela Internet…

Estes rapazes contribuem, em escalas diferentes, para o descalabro de toda a indústria musical e enganam-se aqueles que consideram que os artistas não necessitam das editoras para nada.
A principal diferença entre o pirata dos livros de história, barbudo e de arma em riste e o pirata dos nossos dias é que, antigamente, ele tinha consciência de que arriscava.
Actualmente, o sentimento de impunidade é absoluto e ninguém imagina que possa ser, num destes dias, apanhado e condenado. Considera-se impossível que sejam todos apanhados ao mesmo tempo, pelo que, a probabilidade é um argumento forte em prol da manutenção de hábitos, pois, existem dezenas de milhares de portugueses que aderiram ao sistema das borlas ilegais, muitos deles pagando upgrades aos fornecedores de Internet para usufruírem de maior quantidade de tráfego.
Apesar dos ISP’s operarem dentro da legalidade, pacotes que incluam 30, 40 ou 50 Gigas de tráfego internacional serão consumidos em quê? Em acessos à conta de email não será certamente…

Quem se habituou a sacar tem outro argumento falacioso e que se relaciona com o preço dos CD's. Como os discos são caros não faz mal piratear…

Pois, eu também sou daqueles que considera o preço dos discos elevado e sei que se os preços fossem menores a minha colecção já ocuparia o dobro dos móveis. Creio que um CD deveria ser tributado com o IVA de 5% (só aqui o custo baixava 16%) e que o preço não deveria ultrapassar um patamar de 10 ou 15 euros. E edições com mais de um ano deveriam ser sinónimo de “nice price”. Dando um exemplo aqui da “nossa casa” (alô Ulisses), encontrei, num destes dias, o primeiro CD dos k2o3, “És Capaz”, editado em 1996, à venda por 12 euros numa das maiores lojas de venda de discos deste País. Como é possível vender um CD com 10 anos a 12 euros!?
Pois, o preço dos discos pode não ser barato, contudo, eu não ando a roubar ecrãs de plasma só pelo facto de os considerar caros…

Regressando ao “sentimento de impunidade”.
A impunidade é meramente aparente porque, exceptuando alguns casos menos vulgares, o comum do cidadão faz cópias ilegais “à descarada”.
Como já dissemos, nós próprios realizámos alguns testes em que determinámos os ISP e IP's de piratas em programas P2P. Qualquer pessoa, mesmo sem grande formação tecnológica, poderá obter o mesmo resultado. Depois, bastará chegar ao responsável através dos mecanismos legais disponíveis para o efeito.

A ofensiva lançada recentemente pela AFP vai começar a dar resultados. Não que se termine em absoluto com a pirataria – nisso não acredito -, porém, não duvido que, com duras medidas restritivas, se consiga controlar esta questão.

Para primeira abordagem ao tema, centraria a preocupação na música portuguesa e seleccionaria os “Mãozinhas”, ou seja, aqueles que colocam as novidades online e faria deles exemplos a não seguir. Mais do que as dezenas de milhares de “Brocas” ou de “Pantufas” são estes “Mãozinhas” os principais responsáveis pela situação actual.

As editoras necessitam de ser rentáveis para continuarem a apostar em novidades e os músicos precisam de editar e de receberem os respectivos direitos. Esperamos que a ofensiva da AFP comece a surtir efeito dissuasivo.
Mesmo num País com um sistema judicial moroso como o nosso, ninguém gostará de arriscar ser apanhado se souber que o pode ser de facto…

Sacar não é legal, yô…


Luís Silva do Ó


P.S.: O tema é apaixonante e deve ser encarado numa perspectiva global.
1. É diferente o uso destes downloads para fins comerciais ou para fins de consumo pessoal. São casos diferentes e a Lei prevê penalizações diferentes. Contudo, o autor de uma obra é o detentor dos direitos da mesma e só o próprio (e a quem a mesma esteja licenciada) é que pode decidir disponibilizar a mesma gratuitamente ou não. O argumento, de alguns cidadãos, que afirmam "não serem piratas porque não retiram dividendos financeiros pela partilha que realizam" não anula um acto de incumprimento do respeito pelos direitos do autor e pela Lei que se encontra em vigor. O termo "pirata" pode não ser o melhor, mas, o termo "criminoso" é juridicamente correcto.
2. Existe muita gente que não "simpatiza" com as editoras. Porém, sem editoras, quem paga o investimento que é necessário realizar para gravar um disco? Quem paga o estúdio? Tirando alguns que possam ter recursos financeiros a maioria das bandas não pode dispor de centenas de contos para gravar um disco.
3. Downloads de canções protegidas e feitas de forma ilegal é uma coisa e downloads legais e gratuitos outra bem diferente. Quem disponibiliza gratuita e legalmente temas na Internet está a promover, inteligentemente, o seu produto. Pessoalmente, como já defendi diversas vezes, sou a favor do uso da Internet como meio promocional. O que nunca concordarei é com a disponibilização de qualquer música à revelia dos seus criadores.




Entrevista a David Ferreira, conduzida por BGP e LSO em 13 de Março de 2006.

2.3.06

Duelo ao espelho

“A divagação é o domingo do pensamento”

Os meses passam, os anos instalam-se dentro de nós e caminhamos para onde o nosso pensamento quiser.
A “inspiração” – doce encanto de um instante – pode permanecer sempre à tona da água ou mergulhar sem que se saiba quando regressa à superfície. Cada um tem a sua própria dose daquilo que designa por “inspiração” e a minha não tem estado. Decidiu ir para a neve de férias e eu fiquei por cá tentando vislumbrar o outro lado que passa aqui tão perto.

Os últimos tempos deste espaço têm sabor de quente e frio em pleno Inverno. Longe estão os dias e noites de grandes confusões, dos debates puros e duros, das zangas, dos amuos, das palavras duras, do quase caos lançado por participantes “anónimos” ou “conhecidos” no meio musical, das novas ideias apresentadas e exaustivamente analisadas e criticadas, das embrulhadas que acabaram por ser resolvidas em “off blogue”.

E houve um momento em que o meu tempo deixou de ser elástico para me dedicar a esta causa. Outros desafios, outros projectos, outros sonhos ousaram destronar estas horas de escrita. O mesmo terá sucedido com muitos dos cronistas e o efeito inverso à bola de neve inicial fez-se sentir.

Estamos, agora, num momento de retorno. Os regressos nem sempre são fáceis de viabilizar porque podem ter sabor de água que já passou por debaixo da ponte.

A situação da nossa música permanece semelhante. E nós ainda seremos os mesmos?


“A inconstância deita tudo a perder – ela não deixa germinar nenhuma semente”

Os queixinhas e os desesperados são uns tipos muito chatos.
Aborrecem-me imenso e nunca tive pachorra para suportar aqueles que só sabem queixar-se de tudo e de nada.
Quando queremos muito uma coisa na vida devemos lutar por ela mesmo que se afigure semelhante a um Adamastor quinhentista. Bartolomeu Dias já nos mostrou ser possível dobrar cabos complicados.

Tenho estado a ler “Crónicas – volume 1”, o livro de Bob Dylan onde nos conta experiências pessoais e onde se viaja deliciosamente no espaço e no tempo.
Muitos aspirantes a músicos deviam ler este livro; igualmente, muitos músicos reformados e/ou criativamente estagnados o deviam fazer.
Abrem-se janelas de determinação e de redescoberta em muitas destas páginas.

Dar conselhos não será concerteza o meu objectivo neste blogue, porém, creio que quem quer ser músico tem de acreditar no seu talento e tem de lutar até o conseguir provar. Muitos jovens têm o talento inato da criação musical, mas falta-lhes o foco porque são inconstantes. Perdem-se compositores e músicos excepcionais porque não têm essa certeza de que um dia vão conseguir furar e acabam por desistir de lutar.
Pedro Abrunhosa já não tinha 18 anos quando conseguiu romper o cerco; os Delfins arriscaram tudo, numa fase inicial de carreira, acreditaram e foram para estúdio, pagando a gravação do seu primeiro LP; os Xutos, já com uma legião de fãs, demoraram anos até convencerem uma multinacional a apostar neles.

Estes são casos bem conhecidos na nossa praça, exemplos de persistência, de luta. São músicos reconhecidos que acreditaram no seu valor e conseguiram singrar.
Sei que é fácil falar e, por vezes, é árduo aguentar e continuar a caminhar porque é melhor “ter uma vida” do que ser um “vagabundo errante”.
Conseguir prescindir de “quase tudo” e lançar-se à estrada, em busca de “um momento de sorte”, é uma opção de vida cada vez mais arriscada numa sociedade de consumo imediato.
Contudo, existem outros jovens, menos talentosos, mas mais determinados ou com “maior sorte”, que conseguem singrar no mundo musical.

A vida será injusta ou seremos nós a construir essa justiça?


Luís Silva do Ó

As citações utilizadas nos subtítulos têm como autor Henri Amiel (1821-1881), filósofo e escritor suíço.


Nota: Passaram 10 anos desde que os k2o3 (do nosso amigo e cronista Ulisses) entraram em estúdio para as sessões de "És Capaz!". Um abraço para o Ulisses, Mini, Chaves e Nuno que como todos os grandes amigos estão sempre "Perto de Mim".

31.3.05

A Cigarra

A malta, quando é assaltada, costuma ficar com medo e coloca trancas nas portas. Dizem as estatísticas, que, raramente, se é novamente assaltado a menos que nos tenhamos mudado para um bairro degradado e violento. Também, é do conhecimento popular que só nos lembramos de Santa Bárbara quando troveja.
O primeiro parágrafo está muito "pois, somos portugueses e a história é sempre remediar o que podia ter sido previsto". É verdade, quem pense assim está coberto de razão. E porque motivo estamos para aqui a falar de assaltos, de trancas e de trovoadas em época de seca? Ainda não sabemos, mas, tentaremos descobrir até ao final da crónica.

O mercado discográfico vive uma grave crise com a diminuição das vendas e dos consequentes lucros. Na busca das causas dessa crise, à cabeça da lista, surge a questão da "pirataria" informática, das cópias e dos programas P2P. As editoras partiram, então, para uma guerra contra o mercado paralelo, conseguindo pequenas vitórias e implementando negócios de venda digital de música. A ideia está correcta e promete resultados positivos e animadores, porém, a pirataria através da Internet não dá sinais de abrandamento. Nesta luta, a favor do CD original, algumas discográficas passaram a integrar, nos discos, uma tecnologia designada por "anti-cópia", tentando inviabilizar a cópia directa do CD e aniquilando certa percentagem de pirataria.
Pessoalmente, não creio que os resultados sejam muito animadores, porque alguns leitores de automóvel não "simpatizam" com essa tecnologia e nem o meu leitor de casa gosta. Por outro lado, usando qualquer programa P2P, encontramos as mais recentes edições, incluindo aquelas com a referida protecção "anti-cópia" e anexadas com capas, contra-capas e demais material gráfico. Um luxo!

Para quem prevarica e copia discos pela net, a qualidade é excelente e o preço final é muito baixo. Tão cedo esta tendência de “pilhagem colectiva” não vai abrandar, por mais protecções, cuidados tecnológicos e medidas "repressivas" que se venham a implementar. Estamos cansados de saber no que dão as medidas repressivas. Quanto maior a repressão, maior a decisão de transgredir. Esse nem é um ditado popular nacional, mas, uma constatação à escala global. Vejam-se os resultados da Lei Seca americana ou das campanhas repressivas de combate ao tráfico de drogas.
Na actual conjuntura, as editoras não estão muito vocacionadas para grandes investimentos de estúdio, sobretudo com grupos não testados positivamente no mercado. Uma das saídas para as editoras é realizarem parcerias com as bandas, no sentido dos artistas suportarem os custos de estúdio, ficando a cargo das editoras a promoção e a consequente distribuição. Todavia, isto pressupõe disponibilidade económica por parte dos músicos (e, se quase toda a gente toca de borla no início da carreira, de onde virá a grana?)…

Enquanto a pirataria digital não invadiu o mercado e fez estragos, a preocupação das editoras foi reduzida, tal cigarra em pleno Verão. Esta crise actual podia e devia ter sido prevista e combatida em devido tempo porque não é benéfica para ninguém. Os grandes nomes da música vão continuar a existir, contudo, os grupos que estão no início têm cada vez maior dificuldade de afirmação.
No entanto, como situações difíceis favorecem a imaginação dos interessados, acredito que o futuro possa ser promissor. A título de exemplo, deixo as edições discográficas via-Blitz e muito do paleio das minhas crónicas passadas (disponíveis no já vasto arquivo deste blogue).

Nesta breve reflexão, assalta-me uma questão final: "As editoras não podiam baixar os preços de venda?"
Todos sabemos que as "rodelas" têm um preço de fabrico muito menor do que antigamente, sendo mesmo muito reduzido. Também, concordamos que o preço final do CD é um exagero e que devíamos ter o IVA a 5% - além das outras considerações realizadas ao longo destes meses de debate. Se a indústria apostasse num preço de venda ao público de 10 euros por unidade, não conseguiria aumentar, consideravelmente, as receitas, com implicações positivas nos seus resultados financeiros? Se o preço for adequado, por muito que evolua a pirataria não creio que os amantes de música optem por "fabricar" uma cópia em vez de terem o CD original nas mãos. Mas, quando se pensa que um CD custa quase 20 euros e uma cópia com óptima qualidade fica quase de borla… é só fazer contas!

Luís Silva do Ó

27.10.04

U outro lado do espelho

[O tema deste mês estava escolhido há muito, mas, com o Tejo próximo de mim, deixei as vendas da música digital na gaveta e a caneta deslizou para outros assuntos. Morreu John Peel, lendário DJ da rádio deste mundo (“Peel Sessions”, diz-vos alguma coisa?), e a música está de luto carregado… que me desculpem, hoje vou para outros Oceanos!]

A teia que a vida tece tem factores bons e menos bons que se entrelaçam em experiências que ficam e se recordam para sempre. Hoje, não me apetece escrever sobre a nossa indústria nem sobre nada que envolva rádios ou afins. Vai ser uma crónica real, sem quaisquer pensamentos especiais que não sejam a admiração e a amizade. Como já perceberam, não vou desbobinar acerca de playlists, nem acerca de vendas. Irei mergulhar noutras águas, certamente mais importantes (para mim, claro!), porquanto, intimistas. No canalmaldito escrevem vários amigos, incluindo 2 músicos, aos quais reconheço méritos indiscutíveis. A ordem dos textos é aleatória.

I
Não me recordo muito bem de quando o conheci, mas, creio que terá sido por finais dos anos 80 e lembro-me, perfeitamente, da primeira vez que o vi agarrado a uma guitarra. Estávamos no ano de 1990, dia 25 de Julho (feriado no meu Concelho), e os UHF haviam gravado um concerto ao vivo no dia 13 anterior. Fui ao escritório dos UHF entrevistar o António Manuel Ribeiro e a conversa seguiu em amena cavaqueira pelo fim de tarde, início de noite (memorável, contudo isso pertence a outras histórias), enquanto o seu filho, António Côrte-Real (Toninho, para os amigos), sentado no chão do escritório, dedilhava umas notas soltas. Em determinada altura, reparei nele e gerei risadas, perguntando ao António Manuel Ribeiro se ensaiava para os UHF... Passaram uns anos e dou com o Toninho como guitarrista dos UHF.
Quando este blogue surgiu, foi dos primeiros a aceitar o desafio e tem feito de tudo para ajudar e divulgar novos projectos musicais. Algumas das coisas são visíveis, embora a grande maioria sejam executadas no recato da invisibilidade. Como músico dos UHF, já marcou uma época nas guitarras e, fora do palco, passei a admirá-lo pela enorme dedicação com que se entrega à causa da música. A dedicação é tanta que quase roça a obstinação doentia. As ideias fervilham e são dezenas os emails que vou recebendo com projectos, com iniciativas de valor. Infelizmente, nem sempre consegue obter as respostas que merecia, sobretudo de colegas que funcionam em comprimentos de onda diferentes.
O Toninho não inveja a arte alheia e tem uma energia inata que o torna numa força da natureza.
Por vezes, olho para ele e penso que todos os músicos, todas as pessoas deste País, deviam ser assim: Determinadas e Profissionais em tudo o que fazem.
Ele sabe e gosta de trabalhar com uma intensidade imprópria para o meio musical português. Tal como o pai, também ele parece ter nascido dentro da poção mágica!

II
Era sábado, algures, entre as 16 e as 18 horas, e estava em estúdio a fazer o programa "Rock de cá", em directo, quando surgiu um rapaz, que não conhecia, acompanhado pelo Orlando Angelino. Traziam uma cassete gravada de um ensaio do grupo desse miúdo – Ulisses de seu nome – e gostariam de ma mostrar. A minha primeira reacção foi curiosa: Afinal esperava escutar mais uma das desgraças habituais que todas as semanas recebia pelos CTT, mas não! Apesar do som ser muito mau (um gravador no centro da sala de ensaios não faz milagres) a linha punk-rock dos k2o3 já lá estava em embrião. Surpreso, disse-lhe que tinha bastante potencial!
O tempo passou, a evolução foi estrondosa e a amizade foi crescendo.
Cheguei a ser manager do seu grupo e, com eles, entrei em estúdio, pela El-Tatu, com Tim, dos Xutos, a produzir. Durante 2 anos, passámos momentos únicos na estrada e nas mesas de cafés, bares e restaurantes, montando e desmontando ideias e projectos, sonhos, utopias e realidades. Os k2o3 são como família para mim. Na hora do reencontro é sempre uma festa.
O Ulisses é um génio criativo que tarda em ser reconhecido. Compõe punk-rock, sim, e muito mais do que isso, sempre de forma excepcional, o que o tornaria um excelente compositor para outros artistas ou em projectos paralelos. Poucos conhecem essa faceta.
Simultaneamente, reconheço nele capacidades de produtor que devia explorar mais – música onde toque fica com valor acrescentado…
O Ulisses é, para mim, o irmão que não tenho. Porém, esta opinião sobre o seu valor e sobre o seu potencial artístico é absolutamente independente da relação pessoal. Aliás, vejam-se os prémios internacionais que tem recebido como copy writer.
Sobre o futuro nada sei, ninguém sabe. Pode ser que lhe suceda o mesmo que ao Abrunhosa e, num instante, “rebente” no Verão de um ano qualquer… ele merece e a música portuguesa ficaria mais rica!


Luís Silva do Ó

23.9.04

E eu quero lá saber...

... se vou desagradar a uma vasta maioria que pensa diferente. Não me aborrece nada porque querer ser politicamente correcto (o que é diferente de o ser) é das piores coisas que existem neste país saloio em costumes e avançado em demagogia cultural. Patrocinar filmes que ninguém vê é cultura, cobrar 19% de IVA nos discos portugueses está correcto porque é indústria. Alguém acredita nisto?
Se afirmar que qualquer pessoa estará melhor preparada a exercer uma tarefa caso receba formação adequada penso que estarei a ser consensual. Quem tem formação está melhor preparado. Sem dúvida. Contudo, não quer isto dizer que o talento inato não possa existir e um carpinteiro ser mesmo bom, sem ter tido aprendizagem na oficina do mestre (que havia sido ensinado por quem?) ou na escola profissional.
Na música, passa-se o mesmo: qualquer pessoa preparada estará mais apta, mas, isto não significa que quem tire um Conservatório seja melhor apreciador e conhecedor do que outro que não o frequentou. Quantos de nós conhecem gestores que pouco percebem de gestão, levando empresas a situações difíceis ou de falência? E quantos profissionais que trabalham com números não possuem formação académica para tal? Sem citar os milhares de casos musicais e continuando na área de negócios, António Champalimaud – o homem mais rico de Portugal - não era licenciado e isso não o impediu de chegar onde chegou.

Temos, depois, os outros casos. Aqueles em que os próprios profissionais, não “certificados academicamente”, decidem aprofundar as coisas na escola. Recordo Jorge Palma, cujo Conservatório realizou já depois de ser consagrado.
Resumindo, uns tiram curso, outros não, uns são bons, outros maus, mas, ter mais conhecimento nunca fez mal a ninguém. Por isso, algumas discussões parecem-me mais divagações filosóficas do que passos em frente no campo minado da música portuguesa.

Tirar cursos formais/informais pode limar arestas ou permitir uma entrada planeada em outros ambientes. Porém, por si só, não geram criadores de excepção. Considero o génio criativo inato. Existem uns que nascem com o talento de transformar o que tocam em ouro e outros que, por mais que se esforcem, não passam da mediania. É assim a vida, na música e na venda de tremoços. Uns são bons e outros nem por isso!

Ouvir muita música e ler muito sobre tudo é muito bom - todavia, não chega. Um factor que penso essencial e que rebate muita retórica de gabinete é a importância de viver o terreno da música ao vivo, da sala de ensaios, das garagens bafientas ou dos estúdios de gravação. Cheirar o pó da estrada, mergulhar nos décibeis dos concertos, na azáfama de uma noite de concerto, nos íntimos momentos que ocorrem no backstage e no esplendor da madrugada tornam as ideias mais claras com o cérebro a dar e a receber proporções idênticas do “sentir a música”, do “debater a música”, do “querer sempre mais e melhor”.
Não se iludam que não digo que o rosa é a cor dominante! Todos sabemos das rasteiras que se levam, do “xico esperto” que sempre lá estará, dos jantares de frango até rebentar, da exploração, etc, etc.
Mas, mesmo assim, estar nos meandros do concerto ao vivo, sendo desgastante e cansativo, é recompensador ao ponto de se ficar “viciado”.
Juntando dinamite ao incêndio, direi que quem não vive a música ao vivo pouco percebe do panorama musical deste País.


[Voltando à questão da aprendizagem e da formação musical, devo afirmar, com toda a convicção, que onde ela é absolutamente vital é na escola. Desde a pré-primária ao secundário, o ensino da música poderia fazer maravilhas por dentro. Ter educação musical nas escolas devia ser tão natural como beber água e aprender português. Não o é, assim como não é natural fomentar as artes no nosso sistema de ensino. Está errado e paga-se caro. O ouvinte não é um bom ouvinte, nem o espectador tem grande apetência pela representação. Por isso é que temos “actores” formados em agências de modelos e ninguém se chateia, nem aborrece. Porque, afinal, têm umas carinhas bonitinhas, enquanto os verdadeiros actores muitas vezes morrem de fome e de desespero...]


Luís Silva do Ó

25.8.04

Radio UK

Intróito:
O fenómeno das rádios formatadas com base em estudos de mercado não é um exclusivo português. Longe disso! Sem tecer considerações sobre a forma como esses estudos são realizados e aplicados, a minha crónica de hoje recupera um episódio - delicioso - ocorrido numa semana de Junho passado, no Reino Unido.


Os intervenientes e a semana:

A rádio
Classic Gold Digital, estação destinada a um público adulto, com música adequada a esse target e com forte aposta na programação.

O animador
Tony Blackburn, 61 anos de idade, 40 de carreira, iniciou-se na lendária e pirata Radio Caroline, apresentou o mítico “Top of the Pops” e foi disk-jockey da BBC Radio One. Actualmente, é o responsável pelo programa da manhã da Classic Gold Digital e recebeu o prémio de “Oldie of the Year” em 2003.

O artista
Cliff Richard, 63 anos de idade, 46 de carreira, teve como primeiro single o sucesso “Move It” (1958), conta com o record de “hit singles” no top inglês (126, com 14 a chegaram ao nº 1) e, segundo o Channel 4, é o artista com mais singles vendidos no Reino Unido (21 milhões).

2ª feira
O irreverente Tony Blackburn decide passar dois temas de Cliff Richard (não incluídos na playlist), no seu programa da manhã. Nesse mesmo dia, a Direcção da Rádio chama-o para uma reunião, onde é avisado para não tocar mais canções de Cliff.

3ª feira
Contrariando as instruções recebidas, Blackburn coloca no ar “Summer Holiday” (1963, 1º lugar no top inglês) e o Director de Programas, Paul Baker, envia um email ao apresentador:
“Não deveríamos estar a tocar Cliff Richard. Temos uma decisão, na política da estação, de que ele não corresponde aos nossos critérios de antena. Ele não está na playlist, e deves parar de tocar os seus discos”.

4ª feira
Estando “no ar” e sem meias medidas, Tony Blackburn decide partilhar com o auditório o teor do email do Director de Programas. De seguida, rasga o papel, atira-o para o lixo e toca mais dois antigos sucessos de Cliff Richard, “Living Doll” (1959, 1ºlugar no top inglês) e “We Don’t Talk Any More” (1979, 1º lugar no top inglês, 7º lugar no top americano e Disco de Ouro, em Portugal).
Como seria de esperar, as coisas tendem a rebentar...
O Director da Classic Gold Digital, John Baish, reage de imediato, também por email, e decreta a suspensão de Blackburn:
“Estás, constantemente, a quebrar a política musical da estação. Vincámos a nossa posição de forma tão clara quanto nos era possível. Não tenho outra opção senão suspender-te até que esta situação se possa resolver”, escreveu.
Baish anuncia que Blackburn não fará o seu programa na 5ª feira, para permitir, aos dois lados, “espaço para respirar” e solucionarem as suas divergências.
“O Tony acredita que o Cliff tem algumas excelentes canções e procurava testar a adesão do público”, disse ele. “Fazê-lo no ar não é a melhor forma de tomar estas decisões – nós temos estudos muito sofisticados.”

5ª feira
Tony Blackburn encontra-se suspenso e não apresenta o programa da manhã. Entretanto, a Classic Gold Digital é verdadeiramente inundada com emails e telefonemas de suporte a Blackburn e à passagem de temas de Cliff Richard. A chuva de reclamações torna a situação insustentável. O assunto chega, mesmo, à Câmara dos Comuns, onde o respectivo Líder apoia Blackburn e as suas escolhas musicais.

6ª feira
Sem espaço de manobra, dada a amplitude dos protestos, a Classic Gold Digital divulga que Blackburn vai regressar e que a música de Cliff Richard irá passar a integrar a playlist.

À BBC News Online, o Director da Rádio, John Baish, assumiu que foram “inundados com o apoio a Cliff. Deveríamos estar a tocá-lo tanto quanto The Beatles, e tocamos The Beatles com frequência. Esta briga nunca foi, realmente, sobre o Cliff. Foi, apenas, uma situação com o Tony que saiu de controle.”
Já o Director de Programas, Paul Baker, afirmou ao Daily Mirror que a “estação tem que dar ouvidos aos seus ouvintes ou eles não escutarão a estação”. Acrescentou, ainda, que “neste momento é absolutamente óbvio que os ouvintes querem escutar Cliff”.
Tony Blackburn, por sua vez, afirmou: “Estou encantado por esta questão se ter solucionado. Foram os ouvintes que ficaram por cima”.
E que pensou Cliff Richard disto tudo? Como seria natural, estava “realmente radiante”, até porque “Tinha desistido de me preocupar com isso há 3 ou 4 anos atrás. Tentei conversar e conseguir o meu lugar nas playlists, mas, não deu resultado e não entendi porquê – eu não tinha feito nada de errado para ser banido desta forma. Agora que o Tony pegou no bastão, pensei, óptimo.”
Blackburn tinha dito antes, no programa “Today” da BBC Radio 4, que “preferiria não perder o seu emprego por causa de Cliff Richard”, mas, que a suspensão tinha “um propósito sério”. “Não estamos a tocar discos para a Direcção, estamos a tocar para os nossos ouvintes. E os ouvintes gostam de Cliff”, disse ele.

[Sobre esta história, ocorrida numa sociedade onde a indústria musical é bem mais evoluída que a nossa, não ouso tecer conclusões. Tony Blackburn, Paul Baker, John Baish e Cliff Richard são nomes concretos de um exemplo concreto, mas, a reflexão que considero importante não é a dos nomes aqui referidos. A reflexão que se torna urgente efectuar é outra, mais profunda, em que este “caso” é, mera e precisamente, um exemplo.
Os estudos de mercado, os consultores, os resultados e a aplicação desses estudos que valor têm e como devem ser usados?]



Luís Silva do Ó

29.7.04

De tudo um pouco

Intróito

Numa das últimas semanas, consegui tirar uma semana de férias e caminhei rumo à minha terra.
Como não sou adepto do "ser churrasco", em vez de esturricar ao sol, combinei alguns reencontros de amigos. Assim, num dos dias, em almoço com dois colegas de liceu, um deles (com quem não conversava à bué – também gosto de ser moderno e de usar as novas palavras do dicionário luso) confidenciou-me que a passagem dos anos não o estavam a deixar mais paciente, pelo contrário, estaria a ficar cada vez mais impaciente. Achei curiosa a confidência porque, a 150 km de distância, sinto a mesma coisa em relação a tantos aspectos do dia a dia...
Não entreguei nenhum texto no blogue, no passado mês, pois, considerei que nada havia a dizer. Estava demasiado impaciente e desiludido com detalhes soltos do Verão musical.


Scolari, o verdadeiro português

Felizmente, tivemos o Euro 2004, em futebol, para nos dar a alegria da redescoberta do "Ser Português". Nem que, para tal, tenha sido necessário recorrer às soberbas ideias de um senhor chamado Scolari, que se revelou um digno sucessor dos navegadores portugueses.
O futebol foi bom para muitas maleitas, inclusivé para o ego. Porém, para a nossa música, foi, como se esperava, igual ao litro...


Feira de vaidades

Fóruns de debate, neste país, estão quase sempre condenados ao fracasso.
Começam com bom fôlego, crescem em ideias interessantes e terminam em equívocos e ofensas da treta.
Ao longo destes meses, vivemos estas fases - incluindo comentários muito valiosos, escritos por bloguistas frequentes ou ocasionais – e assisti, satisfeito, a aceso debate entre cronistas e colaboradores do próprio blogue!
A porca torceu – inevitavelmente – o rabo, ao surgirem os primeiros ataques, rasteiros e gratuitos, a cronistas. A essas tiradas de mau gosto, a Administração do blogue respondeu com inúmeros apelos à serenidade. Todavia, apesar dos esforços, o respeito não chegou a comparecer.
Para piorar o cenário, começaram a surgir ofensas entre comentadores.
E foi neste quadro que se consumou a decisão dos últimos dias.
Pessoalmente, por mais disparates que tenha lido (a meu respeito e de outros) custa-me perder o elemento maior, que motivou debates e intensa troca de ideias. Contudo, concordo que, sem regulação, não faz sentido continuarmos uma tarefa de bombeiros voluntários.
Pena é que, por causa de um número marginal de pessoas, todos nós sejamos afectados.
É a vida!


Um mergulho glaciar

Gosto e admiro o trabalho dos Xutos & Pontapés e espero que compreendam que a redacção das próximas linhas não foi feita de ânimo leve. Custou-me muito. Mais de um mês para ser exacto...
Além de outra argumentação pesada, tenho quase todos os trabalhos dos Xutos (incluindo o célebre single "Sémen"), acompanho a carreira da banda, desde o início, e cresci, nas matinés do liceu, a escutar "Barcos Gregos".

Transpira em conversas privadas e públicas - é mesmo opinião corrente - que os últimos trabalhos dos Xutos têm sido menores em relação ao "passado". Ao aproximar-se uma marca histórica – 25 anos –, quis acreditar que a magia desse momento iria funcionar.
A pequena crítica, demolidora, que saiu no Blitz sobre o single, deixou-me incrédulo!
Passadas poucas semanas, a opinião mudou radicalmente e li várias páginas de rasgados elogios, dedicados por este mesmo semanário ao recente "O Mundo ao Contrário".
Quem não conhecia o trabalho, teve motivos para explodir de curiosidade e correr para uma discoteca, no objectivo de adquirir o CD, na expectativa de voltar a escutar um grande trabalho de rock português.
Até aqui, nada de errado. O problema só surge aquando da audição do disco, pois, este álbum é uma sombra, uma fotocópia negra e mal tirada do próprio som da banda.
Para não me sentir traído pelo engano, escutei o CD umas 15 vezes, antes de redigir esta pequena opinião.
Mas, por mais que o escute, as letras soam-me a uma (des)união de palavras, quase sempre ocas e banais, e a música é de uma ausência de criatividade cortante, sufocante e gritante.
No fim de tudo isto, a menos má canção (?) do disco é o tema promocional e nem esse me consegue entrar no ouvido!
É inacreditável que um grupo como os Xutos & Pontapés ouse colocar, nos escaparates, uma coisa destas.
Se isto ocorresse com os Rolling Stones, no Reino Unido, a comunicação social teria dizimado o trabalho. Por cá, o Blitz publicou uma crítica altamente favorável e com um destaque que nos deixa à beira de um ataque de nervos.
São acontecimentos destes que explicam muita coisa, num país onde a música portuguesa tem a dimensão que tem.
Algum puto que compre este disco voltará a gastar dinheiro noutro CD de música moderna portuguesa?
Respeito a carreira da banda, mas, respeitar não é sinónimo de dependência cega e autista.


Músicos

Qualquer reflexão sobre a música portuguesa, em que se abordem os diversos factores e os diversos intervenientes, resulta em reacções exacerbadas por parte de uns quantos. Temos de ser verdadeiros e assumir que alguns músicos são muito interventivos quando chega a hora de olhar para o umbigo.
Seria conveniente que estes músicos percebessem que o mundo não se limita ao seu próprio projecto musical e que existem outros músicos, cada qual com o seu talento.
As capelinhas não fazem sentido, só atrapalham, e esta falta de visão, de discernimento, não pode justificar tudo. Seria mais útil canalizarem as energias numa luta comum, porque motivos cooperativos não faltam para uma sentida reunião.
Mesmo músicos com carreira, por vezes, parecem esquecer-se que a nossa mercearia musical é, mesmo, uma pequena loja de bairro, na qual se necessita de alguma gestão e estratégia, sob pena de falir.
A figura de "gestor de carreira" é essencial, mas, em Portugal, alguém sabe o seu significado?
Alguém consegue conceber a edição deste "tiro no pé" dos Xutos & Pontapés?


Carreiras

Noto que, em Portugal, as carreiras dos diversos grupos e artistas tende a ser neglicenciada... Sem querer particularizar, temos algumas excepções em que a editora funciona como "porto de abrigo" faltando ao nosso meio musical, "gestores de carreira" que saibam dialogar com os músicos e que tracem metas e objectivos a longo prazo.
Um exemplo: no espaço de um ano, um grupo não pode pensar em gravar um disco conceptual, seguido de um disco rock, enquanto o seu vocalista lança um trabalho a solo e se projecta a gravação e edição de um concerto acústico da banda.
Tem de haver uma linha estratégica definida, em relação aos discos, aos concertos ao vivo e à carreira. Isto porque o concerto ao vivo é o cartão de visita para a compra de um disco ou de toda a discografia, assim como, um disco pode ser o "convite" para ir assistir ao vivo a um determinado concerto. Tal como as "placas tectónicas", tudo está ligado e tudo gira em torno de um mesmo objectivo.
Ao contrário de muitos managers "manhosos" que procuram o lucro fácil e imediato ("mastiga e deita fora"), um "gestor de carreira" serve para defender os interesses dos artistas e, por consequência, das próprias editoras.
Frequentemente, o lado criativo dos músicos não lhes permite discernir a melhor direcção, nem a melhor decisão. Quando um grupo em constante crescendo (este é um exemplo bem concreto) opta por um disco mais difícil - menos comercial - num momento como o actual, em que as rádios estão fechadas às apostas, tem de existir o bom senso de assegurar, pelo menos, um single que promova o disco e que o torne conhecido.
Igualmente, é de evitar que, com o intuito de ganhar mais uns trocos, o grupo (ou o seu manager) prefira dar espectáculos com um som e uma luz sofríveis, colocando toda a imagem da banda em cheque...

É que, meus amigos, a liberdade artística é fundamental, mas, depois, não se venham queixar que as rádios não passam temas de muita "qualidade" (o que é afinal a "qualidade"?), embora, sem pinga de chama comercial.
Se discos com temas fortes já não conseguem entrar nas playlists, imaginem o que sucede a um CD sem um único tema orelhudo!

Luís Silva do Ó

26.5.04

Sangue, suor e ideias

I
Não escrevo neste blogue para ser simpático, nem para agradar a grupinhos e, ainda menos, para ser politicamente correcto. Essa do tipo premeditadamente certinho, educado e preocupado com a polidez das afirmações que expressa, numa perspectiva de dividendos para daqui a 10 ou 20 anos, não se enquadra muito bem no perfil deste vosso escriba.
Confesso apreciar muitos dos comentários que tenho lido e, igualmente, assumo que me estou - literalmente - nas tintas para algumas linhas retorcidas que, também, leio. Ainda bem que existem essas vozes discordantes porque é sinal que a coisa mexe.

Na mesma medida em que o povo português tem falta de confiança em si próprio e é pouco dado a patriotismos, recuso-me a vestir o fato do politicamente correcto e não pretendo agradar a nenhuma facção. Prefiro ser um pacato enfant terrible do que um irrequieto yesman.

Não sou sócio de nenhum clube do meio musical: nem de rádios, nem de editoras, nem dos músicos, nem de ninguém. Gosto de música, sou simpatizante de todos e convosco partilho ideias e visões (alucinações?) mesmo que o status quo não goste. Que se lixem! Vai um Jack?


II
Puxando pela cabeça, recordo-me da possibilidade de um concerto numa comunidade portuguesa nas Antilhas Holandesas. A Sociedade de Autores de lá exigiu artistas locais, nesse espectáculo, e foi-se essa oportunidade...
Seriam patriotas perigosos ou nativos preocupados com a preservação da sua cultura?

Muito se tem falado, neste blogue, da necessidade das novas bandas actuarem ao vivo e com condições financeiras e sonoras.
No meio da indiferença da maioria, algumas bandas conceituadas têm dado uma mão a novos grupos, mas o apoio tem sido manifestamente escasso e insignificante. Não espero, nem penso que alguém acredite, que os grupos já estabelecidos vão patrocinar os novos projectos libertando uma parte (mesmo pequena) dos seus lucros.
Por outro lado, as Organizações, sejam elas Comissões de Festas ou Autarquias, movidas por sensibilidades financeiras e/ou políticas, raramente descobrem alguma mais valia no gasto de uns trocados em bandas para primeiras partes. Apesar das vistas curtas, estão no seu direito.
O boom do rock luso ocorreu há 24 anos e a falta de oportunidades para tocar ao vivo permanece.
Ou um grupo tem a sorte e/ou o talento de “rebentar” popularmente, ou nada feito. E os projectos com um ou dois discos (por muito promissores e talentosos que sejam) continuam a “vegetar” (e muitos a morrer) no mesmo circuito dos bares, onde já circulavam antes de gravarem os discos. Tudo numa de “gira o disco e toca o mesmo” durante anos a fio.

Para inverter esta tendência que estrangula e aniquila os projectos (quantos grupos de dimensão surgiram nos últimos 20 anos?), defendo uma medida mais “radical”: nos concertos cujo cabeça de cartaz cobre cachet superior a 1.500 contos, que as Organizações sejam obrigadas a contratar um novo grupo para a primeira parte (com um ou dois discos no mercado), pagando-lhes um valor mínimo de 10% sobre o cachet do grupo principal.
Parece mais do que provado que as boas intenções não nos levam muito longe, tendo chegado o momento de se assumir isso mesmo e de buscar soluções práticas e reais para que a nova música portuguesa possa ser conhecida, apreciada e divulgada.
E como se faz para que esta ideia seja concretizada?
Sejamos ambiciosos e pense-se numa Lei global para a música portuguesa.

Para as Organizações seria quase irrelevante… Pagar 1.500 contos ou 1.650 contos é praticamente o mesmo, quando se esquematizam os custos, e não são 10% que alteram o pensamento de uma Comissão de Festas ou de uma Câmara Municipal… Para as bandas seria muito importante porque teriam possibilidade de mostrar os trabalhos a públicos maiores e em muito melhores condições. Teriam hipóteses reais de crescimento.
Infelizmente, as mentalidade não podem ser modificadas por decreto, mas, a implementação de coisas como esta pode ser feita através de Leis! Parecido às quotas das rádios? Talvez.
Pessoalmente, posso não concordar com uma Lei de quotas, que preveja a passagem de música portuguesa nas rádios. Contudo, dado o actual quadro, parece-me inevitável que a Assembleia da República decida aquilo que o mercado não conseguiu auto-regular, nem os respectivos interessados acordar, parecendo esquecer que “um mau acordo é melhor do que uma boa demanda”!
Quando falta diálogo e bom senso só resta a solução legislativa.
Se assim querem, assim seja!
Mas que venha depressa, antes que a asfixia aniquile o futuro.

Não é com braços cruzados que se dobra o Cabo das Tormentas.
É com sangue, suor e ideias.


Luís Silva do Ó

28.4.04

Um projecto global

Intro

Em outros tempos, Portugal era maior do que o Rossio; hoje em dia, qualquer mapa do Continente e Ilhas cabe na Betesga.
Estou farto desta treta de ser pequeno!
Quando andava na escola, aprendi, em "História de Portugal", que os portugueses eram fabulosos e que descobriram meio mundo. À medida que fui crescendo, a grandeza de Portugal foi mirrando, mirrando...
São ciclos e eu estou a viver na época em que este país se encontra numa região manhosa de Espanha.
Em 1974, libertou-se uma tendência de globalização que, ainda, não deu mostras de parar.
Passou a ser sinónimo de modernidade atestar os nossos estômagos num McDonald?s e numa Pizza Hut.
Tirando o ridículo da ausência de amor próprio, Portugal foi vivendo, cada vez mais, numa sociedade globalizada, das mais felizes e contentes por perderem a identidade cultural.

Sempre divulguei, apoiei e estive ligado ao rock português.
Acompanhei o "boom" de 1980, como ouvinte, e passei a "homem da rádio" em 1986/87, altura em que entrevistei muito músico e travei amizade com o nosso camarada de blogue, António Manuel Ribeiro.
No início dos anos 90, realizei um programa de rádio somente vocacionado para a música moderna portuguesa. A "coisa" durou uns 4 anos e fui sendo consumido com as novidades que me chegavam pelo correio, num momento em que a "moda" de cantar em inglês começava a dar sinais de crescimento. Das largas dezenas de maquetes que recebia e que divulgava, poucas se aproveitavam e menor era o número das eleitas de que gostava. O esgotamento motivado pelo cansaço de ter de escutar, entrevistar e passar tanta coisa horrorosa fez mossa.
Claro que passava quase tudo o que recebia, desde que tivesse uma produção aceitável ou ideias interessantes, mesmo não gostando, porque o objectivo era divulgar... podia ser verdade que alguém apreciasse!
No momento em que eu próprio deixei de ter interesse em escutar o meu programa, as emissões terminaram e dediquei-me a outros debates e a outras lutas.
Nessa fase, tínhamos imensos grupos novos e poucos com verdadeiro interesse, pelo menos, para mim!
A originalidade era escassa, as melodias quase sempre uma desgraça, os vocalistas usavam um inglês macarrónico e os músicos, ainda, estavam na terceira classe, apesar de serem melhores executantes que o pessoal de 80/82.

Em 2004, muita coisa mudou.
Temos uma boa quantidade de projectos com nível, os músicos são mesmo bons e as melodias ficam no ouvido. A língua vagueia entre um melhor inglês e um tímido retorno ao português.


Mercado Interno

Ao contrário de outros tempos, temos, actualmente, projectos musicais em quantidade, qualidade e diversidade.
Falta é que estes grupos saiam em definitivo do limbo onde se encontram e passem a tocar, a gravar e a serem escutados na rádio e na TV.
Ora, aqui é que a porca torce o rabo...
A TV, cada vez a maior referência nas audiências, não tem programas de entretenimento suficientes e as telenovelas não chegam para todos...
As rádios... bem, a divulgação nas rádios é matéria já batida e convenientemente debatida, pelo que, desta vez, não vejo necessidade de voltar à questão.
Na imprensa escrita, temos diversas publicações, mas, a referência continua a ser o Blitz, que, apesar de estar a trabalhar bastante melhor do que no passado recente, permanece sem concorrência; é como se, em Portugal, só existisse uma TV ou uma rádio de grande expressão. Ou uma editora.
Chegamos às editoras... num mercado em crise, em que poucas apostas são feitas e em que as editoras vivem dificuldades económicas.
A tendência corre no sentido de parcerias entre músicos e editoras, numa mudança considerável em relação ao passado recente. O caminho pode passar por uma aposta financeira dos próprios músicos e uma parceria (com acordo prévio, se possível) com uma editora que garanta a edição, promoção e distribuição. Ganham as editoras porque não investem em estúdio e, provavelmente, os músicos porque as contrapartidas financeiras das vendas poderão ser muito melhores.

Mas, quando o que está em causa é a própria existência da música portuguesa, não deveria o Estado olhar para os nossos músicos de uma forma diferente? Não são eles próprios agentes culturais?


Cultura ou Indústria?

Em 1991, inserido numa Associação Juvenil, organizei uma Conferência sobre Ambiente.
Naturalmente, foram feitos diversos contactos para patrocínios, entre os quais, os inevitáveis Ministério do Ambiente e Secretaria de Estado da Juventude.
Para abreviar, nenhum deles patrocinou, o primeiro porque considerou que o apoio devia ser prestado pelo segundo e o segundo porque alegou que a esfera de acção era responsabilidade do primeiro!
Será a música não erudita, quer seja electrónica, pop, fado, rock ou de outro estilo qualquer, um produto industrial ou um produto cultural?
Pelo comportamento dos organismos oficiais, parece-me que se repete a história da Conferência. Depende do ângulo?
Caso fosse a música considerada cultura, não deveria ter um tratamento semelhante a outras artes?
Não deveriam ser concedidos apoios, como acontece em outras áreas, nomeadamente, no teatro e no cinema? No mínimo, não deveria existir uma tributação de 5% de IVA?


Visão ou Alucinação?

Sobre os apoios financeiros à música portuguesa e buscando o exemplo do cinema, não seria tempo de reflectir, seriamente, acerca desta questão?
Passeando pelo site do ICAM (Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia) e olhando para os concursos de 2004, vou escolher um entre diversos, no caso, o "Apoio Financeiro à Criação e Produção Cinematográfica". Dentro deste Apoio em concreto e só em relação a "Longas Metragens de Ficção", temos 6 projectos que irão receber um total de ? 3.900.000,00... qualquer coisa como 780 mil contos.

Com uma verba desta dimensão, se usada pelos músicos portugueses, quantos discos se conseguiriam gravar e promover por ano?

Claro que, com apoios desta ordem, o Estado podia enquadrar essa aposta num pensamento global.
A primeira contrapartida podia ser um compromisso em termos de preço de venda dos CDs apoiados, necessariamente a valores muito inferiores aos praticados, tentando generalizar-se essa medida a todos os discos de música portuguesa.
Se tivermos os CDs de música portuguesa a 10 euros, vamos incentivar as vendas, o conhecimento público, o fomento do gosto dos portugueses pela sua música e, talvez, alterar mentalidades...

Todavia, este apoio à produção musical podia ter um espaço ainda mais vasto: o da indústria e o da exportação.


Exportação: Utopia?

A tal globalização em que Portugal é "excelente aluno" pode ter muitos aspectos negativos, mas, também, tem lados positivos.
Um deles é que estando o "Euro 2004" tão próximo, seremos óptimos conselheiros para os turistas que nos visitem, nas "ementas tipo" das grandes cadeias de "fast food".
Outro aspecto positivo é que esta onda de bandas de valor, com sonoridades diversificadas e actuais, só podia surgir num país tão aberto ao exterior.
Exemplos como Madredeus, Moonspell ou Fonzie mostram que é possível exportar a nossa música.
Dentro de uma linha de apoio, de aposta na música portuguesa, o Estado, depois de consolidar a etapa interna, usando o meio Internet e o organismo ICEP, poderia trabalhar os nossos valores numa perspectiva de exportação.
Por seu lado, o ICEP, a AFP, a SPA e demais organizações ligadas à música criariam um movimento global.
Naturalmente que feiras de música como o MIDEM seriam de muita importância, mas, deviam ser exploradas outras potencialidades como Mostras de música em capitais mundiais.
Um portal com mp3 gratuitos e políticas concertadas poderiam abrir caminhos - como campanhas de publicidade dirigida ao portal nas principais revistas internacionais da especialidade... - despertar a curiosidade, motivar a audição e, estou certo, as divisas que entrassem, iriam justificar a aposta porque esta Indústria está bem mais evoluída do que o nosso Cinema.

No passado, demos novos mundos ao mundo.
Este é o "timing" para dar música!



Esclarecimentos adicionais:
1. O meu programa de mmp cessou na busca de novos desafios e não, somente, pela falta de qualidade das maquetes que recebia, porque quem corre por gosto descansa depressa.
2. Sugiro que descobramos uns locais típicos lusitanos para recomendar aos turistas, incluindo o "Rock Rendez-Vous" e o "Johnny Guitar".

Notas pessoais:
1. Na TV precisamos de mais homens como o Júlio Isidro.
2. Saúdo a iniciativa do Bruno Gonçalves Pereira e o espírito de colaboração que emerge no blogue.
3. Uma palavra de estímulo para o Nuno Ávila e Fausto da Silva, dos "Santos da Casa", e para todos aqueles que apoiam e divulgam a nossa música: o vosso trabalho é notável.

Dúvidas existenciais:
1. O lobbie da indústria livreira será mais unido e estará melhor organizado do que o ligado à música?
2. Querendo discutir a "música moderna portuguesa e o futuro", porque motivo alguns comentários no blogue são dignos exemplos do conservadorismo do "Velho do Restelo"?
3. Que dignidade pode advir a organizações que "contratem de borla" novas bandas para Festivais que rendem rio's de dinheiro?

Agradecimento Final:
À recente participação activa de David Ferreira neste blogue e às palavras do seu comentário.

Lamento Final:
A Capital já não conta com o "Rock Rendez-Vous" e com o "Johnny Guitar"?

Desejo Final:
Ser incluído no jantar que o Ulisses prometeu ao Bruno Gonçalves Pereira. No restaurante "A Herdade", em Porto Côvo?

Ideia Final:
Aproveitando o "Euro 2004", vamos mostrar alguma música a esses turistas? Alguém pensou num CD compilação para estes visitantes receberem?

Ponto Final.


Luís Silva do Ó, jornalista

24.3.04

Rádio Nostalgia

Tem sido animada a troca de argumentos entre os meus amigos Bruno Gonçalves Pereira e António Manuel Ribeiro, a propósito da última crónica do primeiro e tendo a rádio dos nossos dias por pano de fundo.
Dentro de uma linha de gestão empresarial, já aqui afirmei que a saída para esta crise passará mais pelos critérios estratégicos das editoras, do que pelo “apoio” das principais estações de rádios, mas, nesta questão, como em outras na vida, não existem só inocentes.
Hoje, tenham os meus amigos pachorra e paciência porque vou centrar a reflexão mais do lado das rádios e da música que divulgam.
Diversas notas soltas fui deixando em textos, aqui, no Canal Maldito, e, inclusivé, meses atrás, escrevera um esboço, o qual, acabou por não passar na minha censura da auto-avaliação.
Mas, estando este mês tão viva a questão, vou remexer nas frases e tentar colocar a curta reflexão apresentável.

Sou mais um daqueles que cada vez escuta menos rádio… em casa nunca o faço, perdi o hábito, ou melhor, perdi o vício de adormecer agarrado ao antigo rádio a pilhas, que comigo partilhava o leito – mesmo assim, existe a excepção para o Porto Sem Abrigo do Álvaro Costa, que mantém o dom de me fazer regressar ao passado, nem que seja numa única hora por semana; ouvir rádio, na actualidade, apenas no carro e vagueando entre a TSF, Rádio Comercial e Antena 3.
Oiço cada vez menos porque não tenho o mesmo tempo livre de outras épocas, talvez por estar mais velho (desculpa fácil para tudo e mais alguma coisa, não é?), mas, também, porque a rádio de hoje está muito diferente.
Remexendo no baú recordo-me dos “velhinhos” Rock em Stock e TNT - Todos No Top, sem esquecer um Luso Clube, centrado no rock português e que escutava, religiosamente, semana após semana, descobrindo tudo o que de novo surgia.
Eram momentos bonitos, estávamos no início dos anos 80 e, como já aqui afirmei noutra ocasião, essa década foi de ouro para a música, tanto para a nacional como para a outra.

Numa semana de Outubro passado, estive de férias no Algarve e escutei muitas horas de rádio: o tempo estava mau e envolvi-me no éter.
Confirmei que as mais importantes estações do país, apesar de divulgarem alguma produção recente, apostam muito mais em sucessos de outros tempos: Bob Marley, Fischer-Z, Peter Frampton, The Eagles, revelaram-se assíduos no dia-a-dia de Rádio Renascença, RFM, Rádio Comercial ou Rádio Clube Português.
Interessante verificar que alguns dos temas possuem maior airplay, nos nossos dias, do que na própria altura em que foram editados, décadas atrás. Alguma da música portuguesa que pude escutar, também, tem barbas – Rádio Macau, GNR, José Cid…

A passagem de temas antigos dos Rádio Macau causa-me uma certa inquietação, num momento em que o novo trabalho não se ouve em nenhuma destas 4 estações.
Esta constatação provoca nova questão sobre a lei da rádio e sobre as quotas para a música portuguesa.
Se (e este “se” deve ser bem sublinhado), repito, se um dia uma lei de quotas for aplicada que música nacional será divulgada?
Serão divulgadas as novas edições ou iremos assistir a apostas em música antiga e de sucesso comprovado?
Os homens das playlists optariam por temas novos e desconhecidos ou escolheriam pérolas que são certezas: “O Amor”, “Chiclete”, “O Anzol”, “Porto Covo”?
Pois é, caros amigos, será que, mesmo com 40% de quota de produção nacional, iríamos continuar a ter o éter preenchido com a “Rádio Nostalgia”?


Notas Finais 1:
1. Um tão estimulante jogo de palavras e de argumentos (BGP vs AMR) não me podia passar ao lado… quiçá para um debate em torno de um microfone e com o imenso Atlântico como fundo?
2. Volto a frisar que os estudos de mercado, também, deviam ser realizados por editoras e – porque não – pelos grupos e respectivos managements.
3. A faixa de Fischer-Z que escutei foi “So Long” (1980) e, para os portugueses, a banda há muito que terminou. Puro engano, John Watts continua a gravar e o mais recente tema, “Jukebox” (2002), permanece na ignorância do povo, apesar de ser mais do que comercial.
4. Peter Frampton é escutado numa das diversas versões ao vivo de “Baby, I Love Your Way” (original de 1975). Alguém já ouviu o orelhudo “Above It All”, do recente “Now” (2003)?

Notas Finais 2:
5. Comentários muito interessantes têm sido assinados pelo Mr. Soul. Lanço-lhe um convite... não quer passar a escrever para o Canal?
6. Foi muito bom rever no passado domingo o Renato Júnior nos estúdios MDL.
7. O meu regresso à “estrada”, em funções de manager (fugaz tarefa desempenhada nas duas últimas semanas), veio confirmar tudo o que já sabia sobre “organização” e sobre a “atitude” de certos cromos.
8. A versão dos Dayoff para “Modelo Fotográfico” é uma volta completa a este clássico do rock português; a não perder, num tributo que será editado num dos próximos meses.


Luís Silva do Ó, jornalista

25.2.04

24 ou 25 de Abril?

“(…) Ou pelo contrário, vão aumentar, exponencialmente, os discos em edições de autor, aproveitando as potencialidades da internet e com promoções lideradas e controladas pelos próprios autores?”

Nas últimas semanas, esta frase que aqui escrevi (ver Sem carga de trabalho) tem vindo a martelar-me a cabeça...
Os motivos de tais marteladas são diversos, mas, aponto apenas uns três:
1. Projectos musicais ignorados pelas editoras
2. Reflexões que vou lendo na imprensa e em blogues
3. Conversas mantidas com músicos, produtores e animadores de rádio

Detalhando um pouco melhor, até podemos pensar que as editoras ignoram os novos projectos porque os mesmos não prestam ou devido a não se enquadrarem numa perspectiva comercial.
Contudo, conheço alguns casos paradigmáticos, incluindo músicas que agradam a toda a gente – até a ouvidos habituados a formatos rádio de sucesso, onde as editoras anseiam entrar – e cujos autores nem são dignos de receberem uma resposta.
Ainda recentemente, após um acontecimento cultural, passei pela casa de um amigo (músico) que me contou a forma como dera de caras com um importante executivo, de uma das maiores editoras deste país, a despejar um armário carregado de demos, directamente, para um saco do lixo.
Presumindo que os homens do lixo não fazem uma recolha selectiva e auditiva, que permita recuperar os melhores projectos, todo aquele espólio ficou arrasado pela máquina que mastiga o lixo doméstico.
Será que, entre aquelas centenas ou milhares de canções, não se encontrava um único tema forte, um único projecto com viabilidade, uma única cassete ou CD que viesse a constituir sucesso e do qual a editora pudesse vender milhares de discos?
Assim se perdem talentos, valores e novos músicos na nossa praça.
As editoras andam de tanga e, a cada mês que passa, as coisas parecem piorar.
Onde estão os profissionais que escutam as demos, que vão aos concertos? Onde estão os olheiros?
No mínimo, porque não se editam compilações com os melhores temas encontrados?

O tempo das vacas gordas já acabou, mas, o comportamento das editoras aparenta ignorar esse facto. Recordo-me da (ainda recente) euforia e derrocada das dotcom, com investimentos (?) a serem realizados em momentos suicidas. Quem não quis ver a realidade terminou a chorar o leite derramado.
A geração que controla a maior fatia do bolo editorial é, exactamente, a mesma que já lá estava há 20 anos, que viveu o fim do vinil, a guerra da cassete pirata…
A experiência é importante, mas, a inovação urge, numa indústria cujo futuro comercial não pode estar ligado a projectos passados.

Esta dança, bera e triste, da destruição de projectos no embrião, tem aniquilado muitos grupos, mas, em 2004, cimentam-se novas tendências e novas soluções, com viabilidade económica para os músicos.
As edições de autor – só para ricos em outros tempos – começam a ser uma real solução.
Uma rodela custa uns míseros 80 cêntimos e já se encontram estúdios com muita qualidade e a preços acessíveis. O circuito promocional pode ser usado por qualquer grupo que queira arregaçar as mangas.
O semanário Blitz surge com edições que incluem CDs a preços tentadores, em parcerias várias, numa ideia que, apesar de não ser inovadora, é, provavelmente, a mais importante do ano. Não precisamos de inventar sempre a roda. Aprender com os bons exemplos estrangeiros, também, é uma virtude.

Os circuitos de música ao vivo começam a melhorar, destacando-se o (grande) Porto como motor desta tendência.
A Secretaria de Estado da Juventude podia e devia ajudar, criando um circuito de concertos em todos os centros distritais do Instituto Português da Juventude. Se os jovens gostam de fotografia e de pintura, não gostarão menos de música…

A internet – zona de terror para editores e artistas num mar de pirataria – tem por outro lado, sido usada para divulgar e fomentar as vendas de novos projectos: o espaço que a CDGO.COM criou na sua loja virtual é exemplar dessa dinâmica positiva.
Outra coisa (esta mesma onde estamos agora) tem agitado as águas da net: falo do movimento que os blogues têm assumido nesta questão, fomentando a troca de ideias e aumentando a discussão em busca de novas soluções.

Não estou a defender um oásis porque a situação actual é grave, séria e de crise, mas, é uma crise que pode ser revertida pelos músicos e pelos agentes e managers deste país.

Quase dois meses depois do início de 2004, ainda não entrou nenhum novo trabalho nacional no top de vendas! A indústria discográfica tradicional encontra-se num beco escuro.
Historicamente, são em momentos como o actual, em que existem crises e pontos de rotura acentuados, que as oportunidades emergem.
A necessidade aguça o engenho e nisso a capacidade lusitana é famosa.
Haja imaginação e capacidade de inovação.
Sejamos criativos porque este é o momento, esta é a hora certa, para dar a volta por cima.

Resta saber se vamos ter uma evolução na continuidade ou se acabará por rebentar alguma revolução


[Notas Finais:
1. As editoras não são todas iguais: tanto existem "pequenas" e "médias" que funcionam bem, como outras que funcionam mal; nas multinacionais também não são só maus exemplos - veja-se o caso concreto da EMI/VC, que sabe defender o seu catálogo e lançar, q.b., novos talentos.
2. Apostas em artistas consagrados, que deixaram de ter público e que não vendem, são cruéis para esses projectos, para a editora que perde dinheiro e para o público, que, devido a essas edições, não tem outras de grupos novos mais excitantes.
3. As editoras e as suas opções de gestão são primordiais na indústria da música, mas, constituem, apenas, parte da floresta...]



Luís Silva do Ó, jornalista

28.1.04

O anti-neurónio

Fazer uma intriga é tão normal para um português como o acto de arrotar num selecto recital no S. Carlos.
Parece que ser pessimista também o é, pelo menos é o que as sondagens indicam e que o nosso senso comum detecta.
Também, com tanta música de sucesso que entrou neste país vinda da zona cinzenta de Manchester… não podia haver melhor nação para uma onda tão cinzenta, tão depressiva, tão negativa. Essa onda, a outra onda, é bem mais positiva que nós.
No lado mau, somos mesmo dos melhores. No Japão, trabalham imenso, produzem à brava por metro quadrado, em Portugal, temos a maior quantidade de depressões por habitante. Não sei se estes dados são reais e estão provados cientificamente, mas, se não são, podiam ser ou, então, os estudos estão errados.
Porém, o português também é campeão da divagação, como a minha prosa dá mostras.
Somos mesmo muito bons, em algumas coisas e dependendo da perspectiva…

Voltando atrás, diga-se que o português maneja bem a arte da intriga.
Chegado ao trabalho, é fácil aniquilar um colega chato (leia-se, competente, pontual e produtivo) só porque gagueja um pouco ou porque tem a voz algo aguda.
“Hum… o Zé é larilas.”
Basta uma deixa e o coitado do Zé vê a carreira arruinada por um indivíduo que, no bar, é machão, mas que, em casa, se costuma divertir a vestir a lingerie da mulher. Uma opção de vida como outra qualquer. O Zé é que não tinha culpa...
A intriga pequena ou grande não tem fim, mas, que tem isto a ver com o blogue?
Ok, divaguei até aqui para mostrar que, mesmo num blogue tão inofensivo como este, existem coisas que acontecem.
Na secção de comentários é corrente a aparição de análises enviesadas aos textos apresentados e, se até ao momento não tive nenhuma ocorrência em crónicas minhas, estou certo que em breve tal acontecerá (outro atributo dos portugueses que partilho, a capacidade da previsão).
A manipulação propositada de palavras que gerem equívocos, discussões, polémicas, é muito compensadora e ajuda a gastar o tempo em que o patrão pensa ter trabalhador.

Querem um exemplo?
Ora, aqui vai: num destes dias, um dos nossos estimados comentadores anónimos concluiu que este blogue devia chamar-se "anti-blitz". (?)
No meio de uma sonora gargalhada, que assumo não ter conseguido evitar, fiquei zonzo pelos motivos estranhos da comparação, mas, não vale a pena reflectir sobre uma coisa dessas.
Conversando com o criador deste blogue, fiquei a saber que outros nomes foram considerados, embora nenhum estivesse disponível (anti-blitz, anti-tv, anti-nódoas, anti-biótico, anti-manha, anti-tússico, anti-merdas, anti-lixo)… Pensando bem, também preferia o anti-tússico. Sempre servia para tratar da tosse a alguns inúteis e a outros que, sendo úteis, não fazem nada de jeito.
As bocas servem para aquilo que servem, lançar confusão e ver se pega.
Da minha parte o digo, aqui escrevo em nome da música moderna portuguesa, daquela que gosto e daquela que detesto.
Todos os contributos críticos e atentos são válidos, mas, em jeito de prevenção… conotar a minha pena com anti-qualquer coisa é que não.

Chegado aqui, sinto um aperto no estômago.
Se calhar preciso de um anti-ácido - é que esta semana queria escrever uma coisa “séria”.
Prometo que, no próximo mês, tentarei apresentar um texto anti-pasmaceira.
O certo é que a presente crónica nunca imaginou ser escrita.
Tal como os independentes, os neurónios portugueses são muito imprevisíveis.
Por talento, inato, são mesmo anti-neurónios.


[Como vêem o “crime” compensa… a esmagadora maioria dos comentários têm sido muito positivos, interessantes, acutilantes, e eu aqui estive a escrever sobre uma pequena minoria que aproveita o anonimato para escrever disparates. Mas, se são disparates, porque motivo os valorizamos? E de que forma a música avança neste país, se muitos dos agentes envolvidos no meio (músicos, promotores, managers, editoras, …) perdem as energias a guiar na contramão?]

Luís Silva do Ó, jornalista

31.12.03

A união faz a força

Escrever sobre editoras, músicos e rádios é uma tentação cada vez maior, cada vez menos original e termina, normalmente, em violenta tourada.
Tudo, porque o tema conduz a quentes e apaixonadas discussões, em que a razão dá lugar à “latina” emoção, motivando acalorados debates – muitos deles vazios de sentido – culminando com ofensas e amuos de diversa ordem.
Extremar posições não levará a lado nenhum, nem contribuirá para uma serena e lúcida solução dos problemas; é como colocar Bush Jr. a moderar uma cimeira de paz…

A força da música portuguesa encontra-se no sucesso popular, gerado por uma boa canção, munida de um grande refrão – elemento primordial para o êxito.
Este é o início de tudo; o verbo, neste caso, é o refrão! Sempre foi assim, o segredo está bem divulgado e é do conhecimento de toda a gente.
Apesar de outras décadas com boas castas, a receita daquilo que o povo gosta tem a sua melhor colheita nos anos 80, como os estudos de mercado bem atestam. Foram os tempos do “boom” do rock português e de grandes sucessos internacionais, com temas fortes e refrões orelhudos.

Talvez o que falte neste momento seja uma clara aposta na canção, pensada e elaborada numa perspectiva de consumo radiofónico e televisivo – não defendo uma “canção comercial”, stricto sensu, mas, sim, uma canção forte e em que essa força seja sinónimo de que o público gosta; e se o povo gostar é porque é comercial!
É estranho constatar que, dos novos projectos, poucos chegam ao grande público, ao invés dos nomes consagrados, sábios na elaboração do sucesso, mas, cada vez menos aptos a surpreender ou a ousarem na criatividade, contribuindo, assim, para o pântano actual.
Porém, existindo novos projectos, com potencial, porque motivo poucos são editados?
Ou, porque razão, aqueles que são editados não alcançam uma projecção adequada?
As nossas editoras deviam adaptar-se aos tempos modernos, seleccionando projectos na óptica do consumidor. Para tal, umas sessões – semelhantes àquelas que as rádios fazem nos seus estudos – em que os temas (de novos grupos e, porque não, de pré-produções de novos trabalhos de consagrados?) fossem apresentados e votados, por uma plateia representativa, mostrariam o “eco do povo”.
Bastavam estudos, como, sabiamente, o músico Ulisses defendeu na crónica “Os EUgénios da música portuguesa”.
Tendo por base esse e outros dados comerciais, estou certo de que o trabalho das editoras seria mais profícuo e que a divulgação nas rádios seria mais efectiva, porque todos estariam a falar no mesmo idioma. Por exemplo, as editoras deviam usar temas promocionais adequados ao target de cada estação (um pop-rock numa rádio adulta, um rock mais a abrir numa rádio jovem). Se os públicos de cada segmento de rádios é diferente, porque motivo um mesmo trabalho só pode ter um tema promocional de cada vez?
E, nisto, tenho de ser directo: as rádios vivem em pleno século XXI, as editoras permanecem num trabalho à século XX português.

Nesta história, os músicos são os menos culpados, mas, sendo as principais vítimas, devem reflectir.
Os novos nomes devem saber ponderar a sua posição e os compromissos que possam vir a assumir, com ou sem concessões, dependendo da sua própria opção artística e conscientes das implicações da opção tomada.
Todavia, apesar das rádios estarem mais evoluídas do que as editoras, não terão, também, a sua quota parte de responsabilidade no marasmo em que se transformou a nossa indústria musical?
Claro que têm e por motivos bem diversos... Primeiro, porque parecem ter abandonado a vertente formativa do auditório, em segundo, porque os animadores cada vez se preocupam menos em perceber de música e, por último, porque não se compreendem algumas omissões nas apostas musicais.

No final destas linhas constato o evidente: o objectivo geral é comum aos diversos intervenientes do meio musical.
As editoras procuram promover e vender as suas edições discográficas.
Os músicos ambicionam gravar, mostrar o seu trabalho, ao vivo e em estúdio.
Como as principais rádios não se querem transformar em “rádios nostalgia” precisam de novas canções e de novos sucessos.

Em nome da evolução da música e das próprias rádios, é necessária uma aposta conjunta.
Um trabalho conjugado e honesto seria vantajoso para todos.
Um trabalho forte como um bom refrão.
Porque a força de um refrão é a força de uma canção; e isso reflecte-se em qualquer votação.

Ora, meus amigos, não será a música a causa de tudo isto?
Que tal esquecer guerras antigas e beber o champagne do futuro?
Em época de paz, aguardo boas colheitas no próximo ano.
A todos, Feliz Natal, Próspero Ano Novo.



Lisboa, 23 de Dezembro de 2003

Luís Silva do Ó, jornalista

19.11.03

Sem carga de trabalho

Adormeci, extenuado, depois de mais um dia de trabalho.

John Mayall tem concertos agendados para Portugal!”, diz-me Sara, acercando-se de mim e mostrando-me uma pequena publicidade inserida na revista Visão.
Com os olhos brilhantes de satisfação, esbocei um convincente “Óptimo!”.
Afinal, realizara, para o programa Atlântico, de Bruno Pereira, uma crónica e uma crítica sobre o excelente CD “Stories” – último álbum de estúdio do pai dos blues britânicos, editado no ano passado.
“Vou agendar uma entrevista” – pensei.
40 anos de Bluesbreakers e 70 anos de idade (neste mês de Novembro) comemorados num grande concerto de reunião com Mick Taylor, Chris Barber e Eric Clapton (DVD a sair brevemente), eram motivos acrescidos para essa entrevista.
No dia seguinte, salvaguardei um bom lugar e comprei bilhetes para o concerto na Aula Magna em Lisboa. Estaria presente, com ou sem trabalho, pelo que, não procurei acreditações gratuitas…
Nesse mesmo dia, contactei a empresa promotora do evento que me direccionou para a editora portuguesa responsável pela distribuição e promoção das edições da EAGLE.
Numa primeira conversa, fiquei a saber ser o único (!) interessado numa entrevista…
“Tudo bem”, disseram-me, “é o primeiro jornalista a pedir-nos uma entrevista, vamos contactar o John Mayall e depois telefonamos”.
Dias passaram e, à boa maneira lusitana, o prometido contacto não dobrava o Cabo das Tormentas.
Nas 48 horas anteriores ao concerto, foram diversos os contactos que tive de estabelecer.
Na véspera, ficara a saber que, segundo a EAGLE, “John Mayall é uma pessoa muito acessível e que, certamente, não se importaria de dar a entrevista. Na noite do concerto talvez não, mas no dia seguinte, sem qualquer problema.”
Agendar a dita é que não, pois, decorridos estes dias, ainda não tinham conseguido conversar com o músico.
Uma hora antes do espectáculo começar e após insistentes telefonemas, escutei um “duvidoso”, mas definitivo, “nada feito”.
Pouco depois, assisti a um estrondoso e monumental concerto de blues.
Profissional e com grande humildade (pediu luz para ver o público, dialogou, sorriu imenso e cedeu, mesmo, autógrafos no decurso do encore!), John Mayall arrasou, esquecendo e fazendo esquecer a sua idade.
Foi um monstro do principio ao fim; uma lenda viva.
Saí arrepiado da Aula Magna.
E, arrepiado, acordei do sonho com que iniciara esta crónica.

Muitas das editoras portuguesas continuam iguais a si próprias: não promovem e não deixam promover!
Por algum motivo, “Stories” subiu ao primeiro lugar do top de blues da Billboard, mas, por cá, ninguém conhece o disco.
Uns geram milhões, outros preferem tostões.

Vou adormecer, desolado, sem ter feito a entrevista programada.
E não a fiz, porque alguém não soube (ou não quis), fazer aquilo que é “só” o seu trabalho.



[Aqueles que são maus intervenientes na nossa indústria musical não podem continuar a encarar a sua profissão como um mero emprego. Trabalhar em música exige alguns predicados… para começar, é essencial “perceber da poda”, que é como quem diz, perceber de música.
Depois, é necessário ter consciência que a música é uma arte, uma emoção, uma criação.
Os músicos são artistas e quem trabalha neste meio tem de saber o seu real significado e o seu efectivo lugar. O “famoso” é o músico e não o próprio profissional que trabalha na editora.
A “vedeta”, aqui, não é o promotor discográfico; mas, por vezes, este é uma “vedeta” inebriada por “neons” alheios e, pior – muito pior – que o verdadeiro artista!
John Mayall não necessita deste Portugal dos pequeninos para cimentar a sua carreira, ao invés, os nossos músicos sem as editoras estariam numa carga de trabalhos…
Ou pelo contrário, vão aumentar, exponencialmente, os discos em edições de autor, aproveitando as potencialidades da internet e com promoções lideradas e controladas pelos próprios autores?]


Luís Silva do Ó, jornalista

29.10.03

Os reis do quintal

Os músicos portugueses têm vindo a reclamar uma maior divulgação da produção nacional nas nossas rádios.
Curioso que esse movimento tenha surgido agora, quando se sabe que a divulgação nunca promoveu franjas significativas das edições de novos nomes.
O que terá preocupado, então, um conjunto tão vasto de compositores e de músicos, ao ponto de terem criado uma Associação?
Estarão apreensivos com a perda dos valores culturais portugueses, com a falta de apoio aos novos nomes, ou ficaram, subitamente, preocupados com o pouco airplay dos seus próprios reportórios?
É sabido que os concertos ao vivo são dominados pelos mesmos de sempre, ano após ano.
Esporadicamente, surge um “fenómeno”, como os Silence 4 ou o Pedro Abrunhosa, mas, são excepções!
Esta falta de novos nomes está relacionada com a ausência de novos projectos musicais?
Claro que não!
Temos novos grupos de sobra para que cresçam e para que se assumam, enquanto nova geração, na nossa música.
Quem se recorda das dezenas e dezenas de maquetas analisadas na extinta Revista Ritual, pergunta “onde estão, em 2003, aqueles projectos, alguns deles com grande potencial?”.
Para além de outras coisas, igualmente importantes, falta algo essencial no meio musical português.
Falta que os músicos consagrados estendam a mão aos novos valores, apostando em bandas que toquem nas suas primeiras partes.
Xutos & Pontapés ou UHF já o fizeram, ou ainda o fazem, mas, são meros exemplos num mar de excepções.
E quando tal acontece, raramente representa uma digressão completa, mas, apenas, actuações pontuais, quando as organizações dos eventos a isso estão dispostas.
Se estes nomes grandes, nas suas digressões anuais, incluíssem uma primeira parte, estariam a auxiliar a geração vindoura da nossa indústria musical.
Tal não acontece por uma questão de custos?
Não; qualquer banda nova toca por valores ridiculamente pequenos e nada significativos no bolo que qualquer nome de relevo pratica.
Mas, para que estas primeiras partes sejam possíveis, o valor do cachet do grupo de topo deve incluir, logo, todo o pacote.
Isto, porque o típico promotor português prefere poupar uns trocados, em vez de ter um espectáculo com mais qualidade e maior interesse…
Este principio pedagógico, em que músicos com maior projecção ajudassem artistas em fase inicial de carreira, poderia proporcionar uma alteração positiva.
Os pequenos grupos podiam crescer, musicalmente, ao vivo e seria mais fácil mostrarem o seu valor às editoras e ao público em geral.
Que motivos não permitem que isto aconteça?
O facto dos veteranos terem subido a pulso e sem ajuda de ninguém?
Naturalmente que isso aconteceu em 1980/82, mas, nessa altura, pouco ou nada existia na estrutura rock da nossa indústria.
Os tempos actuais são outros e a própria forma de encarar o negócio musical também.
Creio que a sensibilidade e a vontade de apoiar estão a aumentar, mas, em jeito de provocação saudável, não posso deixar de questionar:
Será que os nossos músicos veteranos e com carreira cimentada não se preocupam com o desenvolvimento e com o futuro da música portuguesa?
Ou, por outro lado, estes mesmos músicos, na sua esmagadora maioria, não querem criar condições que levem ao surgimento de novos valores?
Terão receio de perder quota de mercado nesta área de negócio?
Terão medo de deixarem de ser os reis neste quintal?

Luís Silva do Ó, jornalista